A SOMBRA DO OROBORO

[Devaneio crônico]

Metassombro

eu não sou eu

nem o meu reflexo

especulo-me na meia sombra

que é meta de claridade

distorço-me de intermédio

estou fora de foco

atrás de minha voz

perdi todo o discurso

minha língua é ofídica

minha figura é a elipse

(Sebastião Uchoa Leite)


A sensação de olhar-se e assombrar-se consigo mesmo. Isso muitas vezes acontece comigo, seja na frente do espelho, seja na frente de outras pessoas. Por isso me vejo no poema “Metassombro”, de Sebastião Uchoa Leite, já que não me vejo quando deveria me ver. O ser estranho que mira sua própria imagem e a imagem que mira o ser estranho são como o poeta que mira o leitor e o leitor que mira o poeta. O oroboro também assombra e faz sombra.

“Eu não sou eu/nem o meu reflexo”, diz o eu-lírico do poema e também diz o “eu” que está dentro de mim, esse “eu” que é o que lê, cuja vida se espelha nos textos literários. Eu sou aquilo que eu leio, logo não sou eu e minha reflexão sobre o lido, na verdade, vem no navio de outras influências. Minha interpretação são interpretações de outros. O que eu consumo acaba me consumindo. Fico na “meia sombra” de outros, tendo como meta a luz e perco minha própria voz.

Também perco minha voz, no entanto, porque tenho medo do reflexo das minhas palavras. “Perdi todo o discurso”, não consigo, e nem posso, dizer o que penso, porque se o dissesse encontraria problemas. “Minha língua é ofídica”, tem veneno, mas a peçonha não pode ser inoculada, afinal tenho que ser político, não me indispor com uma porção de pessoas que não gostariam de ouvir o que eu penso. Preciso me cuidar, tenho interesses e, por isso, me calo ou não publico o que escrevo, as palavras guardadas nos desvãos do cérebro ou nos arquivos do computador.

O oroboro come sua cauda e some. Ao não ser eu mesmo, ao fazer sombra sobre mim, desapareço. “Minha figura é a elipse”.


(Trabalho apresentado para a disciplina Leitura e texto poético, ministrada pelo Prof. Dr. Norberto Perkoski, no Mestrado em Letras da Unisc.)

Comentários

Rejane Martins disse…
Tiro o chapéu e inclino a cabeça pra este teu devaneio.
Meus respeitos, Cassionei.
Muito bom encontrar coisas deste tipo pela internet.
um abraço e viva muito!
Cassionei Petry disse…
Muito, muito obrigado, Rejane.
Flauzino disse…
Caro Cassionei,

Tomei a liberdade de colar este texto como comentário no blog "Contos Maringaenses" (http://contosmaringaenses.blogspot.com/2011/09/ouroboros.html)com os devidos créditos, é claro. Achei muito oportuno. Visite, visitem...