Meu texto na Gazeta do Sul de hoje




Mestre do diálogo


Duas pessoas conversando. Chama-se isso diálogo. Mas quando há dois personagens dialogando em um livro de Luiz Vilela, temos a literatura no seu mais alto grau. Mestre nessa arte que se confunde com o teatro ou com textos filosóficos como os de Platão, o escritor mineiro mostra como se pode criar uma história em que o narrador quase nunca aparece. As poucas palavras e o silêncio são suficientes para o leitor construir o enredo, o cenário e a descrição dos personagens.

Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, Luiz Vilela começou a escrever aos 13 anos de idade. Mais tarde formou-se em Filosofia, mas trabalhou como jornalista. Tremor de terras, seu primeiro livro, publicado às próprias custas em 1967, quando tinha 24 anos, fez jus ao título ao causar polêmica quando recebeu, em Brasília, o Prêmio Nacional de Ficção. Escritores consagrados como José Condé e José Geraldo Vieira protestaram por perderem o prêmio para um “menino saído da creche”. O fato é que esse livro de contos, quando tive a felicidade de lê-lo pela primeira vez, me causou um grande impacto. Contos como “Chuva”, em que um homem tenta conversar com um cachorro que encontra na rua numa noite chuvosa, e “Enquanto dura a festa”, que, apesar do título, é um monólogo de um jovem sobre o velório do seu pai, pelo qual não sente afinidade nenhuma, são mostras de um exímio contista. Publicou ainda quatro romances nas décadas de 70 e 80, mas foram os contos e as novelas curtas, como O choro no travesseiro, que trouxeram reconhecimento ao autor.

Bóris e Dóris (Editora Record, 94 páginas), novela lançada em 2006, narra um dia na vida de um casal hospedado num hotel. Ele, um executivo, preocupado com o horário de suas reuniões, pretende assumir um cargo importante na empresa; ela, muitos anos mais nova, apenas acompanha seu marido na viagem e tenta dialogar com ele. O que pode parecer uma situação banal torna-se uma reflexão sobre o relacionamento de pessoas tão diferentes. Ao “ouvir” a conversa dos dois no café da manhã e à noite, desvendamos, paradoxalmente, um relacionamento em que não há comunicação, o que faz a personagem se questionar se valeu a pena ter deixado de lado seus sonhos para viver com um homem sem tempo para ela.

Se o diálogo se sobrepõe à narrativa em Bóris e Dóris e em outras obras, pode-se perguntar por que Vilela não escreve peças de teatro? Perguntado sobre esse assunto pela escritora Edla van Steen, ele respondeu que nunca tentou. “Mesmo como espectador, o teatro não me atrai muito.” Acredito que Luiz Vilela escolhe as palavras cuidadosamente para serem lidas, não ouvidas. No palco, se perderia a naturalidade que o escritor reproduz no texto escrito, visto que a palavra no teatro está a serviço da interpretação, que pode ser até natural, mas depende muito mais do ator do que do dramaturgo. Da mesma forma, levando-se em conta as rubricas teatrais no texto escrito, os espaços para o leitor refletir se reduziriam.

Quanto à comparação com os diálogos platônicos, Vilela não estende a fala dos personagens por várias páginas como fazia o pensador ateniense. As falas são curtíssimas. No entanto, se depreende no texto do escritor uma filosofia inquietante, na tentativa de entendermos esse ser tão complexo que é o ser humano. Como afirmou Clara Maduro, na antiga revista O Cruzeiro, Luiz Vilela tem “uma enorme capacidade de transmitir essa coisa essencial (e tão difícil de fazer) que é: gente vivendo”.

Comentários

Dexx disse…
Olá Cassionei, o blogger apagou novamente o Lágrima Psicodélica.
Você poderia trocar o link para o novo endereço? http://lagrimapsicodelica2.blogspot.com

Obrigado e abraços...
Luis Fernando disse…
Muito boa a lembrança de Luiz Vilela... "Tremor de terra" e "Tarde da noite" são dois pilares da minha formação de leitor.
Muito bom seu texto, aliás, como sempre. Deixou-me e também certamente a todos que te leram, com vontade de degustar esse bruxo das letras.

Obs: quanto a sua pergunta lá no Cronutopia: vou dar aulas de Português no Ernesto Alves (Santa Cruz...) e Literatura em Sinimbú... Espero fazer um bom trabalho.
Um abraço e minha reverência por mais essa publicação na gazeta!!
Cassionei Petry disse…
Obrigado, Dilso. E com certeza vais fazer um bom trabalho.

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