Avançar para o conteúdo principal

Uma ponte kafkiana


[Na minha coluna Traçando Livros da Gazeta do Sul de hoje]

Pode-se dizer que a literatura é uma forma de conhecimento. A boa literatura não entretém, apenas. Através dela, conhecemos as coisas do mundo ao nosso redor ou a nós mesmos, nosso mundo interior, pois a condição humana é o seu grande tema. Ler um grande escritor pode valer muito mais do que qualquer faculdade.

Franz Kafka (1883-1924) é um desses artistas que nos apresentam a nós mesmos e que, por isso, nos perturbam. Um adjetivo derivado do seu nome foi, inclusive, incorporado ao nosso vocabulário. Dizemos que uma situação é kafkiana quando algo absurdo acontece, como acordarmos transformados num horroroso inseto, destino de um dos seus personagens mais famosos, o Gregor Samsa, de A metamorfose.

A coletânea Franz Kafka Essencial – publicada pelo selo Penguin-Companhia das Letras, com tradução e comentários do maior especialista do autor no Brasil, Modesto Carone – traz esse e outros textos os quais, como o próprio título sugere, são o que há de mais representativo na ficção curta do autor checo (contos, fábulas, parábolas, novelas e aforismos). O mais emblemático desses textos, na minha modesta opinião, é um conto curtíssimo, intitulado A ponte.

O narrador da história afirma ser, literalmente, uma ponte que se estende sobre um abismo. Com as pontas dos pés de um lado e os dentes cravados no outro, ouve o barulho do “gelado riacho de trutas” das profundezas. Vive ali, na sua condição de ponte. Até que um dia, sua aparente tranquilidade é quebrada com a aproximação de um homem.

O desconhecido começa, com a ponta de sua bengala, a mexer nas abas do casaco e nos cabelos da ponte, depois espeta suas costas e, por último, começa a pular em cima dela. A ponte se vira, então, para tentar protestar, mas acaba caindo: “desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida”.

Há muitas interpretações possíveis para esse conto, como não poderia deixar de ser em se tratando de Kafka. Pessoalmente, vejo na história uma representação fiel da condição humana. Servimos de ponte para os outros alcançarem seus objetivos, mas depois somos desprezados. Somos pisoteados, enganados, mesmo cumprindo nossos deveres, e, como se não bastasse, não podemos nos revoltar contra aqueles que nos são ingratos. Triste nossa condição.

Mas quem são eles? Quem são esses outros que nos pisam? Os políticos? Os falsos amigos? Os colegas de trabalho? Ou somos nós mesmos que não sabemos utilizar as pontes que nos são oportunizadas para unir o arquipélago das nossas individualidades? A literatura não nos responde, mas nos lança pontes para buscar as respostas. Kafka é uma dessas pontes, pois sua escrita, como afirma Modesto Carone na introdução, “é fina e flexível como aço e consegue perfurar a barreira da alienação para mostrar a face verdadeira do real”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Gostaria de encontrar mais pontes na sua vida, mas só encontra muros. Escreve quinzenalmente o Traçando Livros para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …