Avançar para o conteúdo principal

Anotações do meu Moleskine (IX)


06/03/2010
Faço interpretações idiossincráticas de alguns instrumentos de uma orquestra. O som do vento dos instrumentos de sopro, passando pela doçura do piano e o choro do violino. O violoncelo, entre as pernas do músico, parece o corpo de uma mulher sendo tocado. Já o contrabaixo parece a voz possante de alguém protetor ou, pelo contrário, de alguém que te contraria, impõe suas razões. Seria a voz de um deus?

07/03/2011
Depois de um ano voltei a beber. Mas em doses homeopáticas.

08/03/2011
Estou me afastando de duas coisas das quais gostava muito,mas que hoje me incomodam por diversos motivos: o futebol e o carnaval.

02/04/2011

Na aula de Retórica e Teoria Argumentação no Mestrado, estudamos o modelo argumentativo de Toulmin em comparação com a nova retórica de Perelman.

Mas o interessante foi que quase saiu um debate, o que não era o meu objetivo. Um colega chegou a querer fazer a velha comparação do "vento que não vemos, mas sentimos", logo "deus não existe mas sentimos", o que foi refutado por mim, na medida em que esse "sentir deus", um dado espiritual e de sentimento, não pode ser comparado com o "sentir um vento", que é um dado físico. Já outra colega tentou dizer que a Nasa comprovou o milagre de Lanciano, na verdade uma das maiores mentiras que se alastram pela internet (http://ceticismo.net/religiao/grandes-mentiras-religiosas/o-milagre-de-lanciano-desmascarado/) e eu disse que tudo não passa de fantasia. O que ela respondeu? "Bom, isso não é o tema da aula!" Ficou ofendidíssima e pediu para o professor continuar a aula. Diga-se de passagem, um dos textos de Toulmin falava exatamente sobre a perda da paciência ou as respostas a partir de dogmas.

Enfim, se vemos esse tipo de pensamento na academia, que acredita em boatos que se espalham pela internet, o que podemos fazer?

08/05/2011
Ainda no mestrado. Uma professora, que se intula cética, diz que é melhor não dicutir sobre religião. Que eu deveria me focar em outras coisas. Típico depoimento de quem não quer ver suas crenças atacadas e tenta calar a boca dos outros. Acho que estou sendo muito brando para não me queimar.

Comentários

Mirella disse…
Como eu fico puta com essas coisas!
Cassionei Petry disse…
A colega que citou o milagre de Lanciano é da tua cidade, Mirella.
Mirella disse…
*curiosidade a milhão*
Rejane Martins disse…
Doses homeopáticas de raciocínio completo, achei legal.
Essas coisas que vão acontecendo que se a gente reparte, vai desentendendo e/ou entendendo o mundo.
Valeu, Cassionei.

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …