Rubens Figueiredo no Traçando Livros de hoje, na Gazeta do Sul


http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/304538-somos_passageiros/edicao:2011-10-05.html

Somos passageiros

Durante muitos anos, eu fazia um percurso diário de ônibus entre Santa Cruz do Sul e uma cidade vizinha onde lecionava. A espera na rodoviária, a expectativa de pegar um lugar para se sentar, o trajeto sendo percorrido escutando radinho de pilha com fone de ouvido e lendo um livro são alguns ingredientes que vivenciei e pelos quais também passa o personagem Pedro, de Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras, 198 páginas.). O romance tem recebido importantes prêmios, como o São Paulo de Literatura, e foi indicado ao Jabuti deste ano, mas são credenciais dispensáveis quando se trata de um autor já consagrado e tradutor dos bons.

O enredo é aparentemente simples. Pedro vai passar o fim de semana com sua namorada num distante bairro chamado Tirol, no Rio de Janeiro. Ele mantém um sebo, comprado com um dinheiro de uma indenização por ter sido “atropelado” por um cavalo durante um tumulto no centro da cidade. Rosane, sua namorada, vive no Tirol com o pai e uma tia e os sustenta com o árduo trabalho como secretária de um escritório de advocacia. No longo percurso, para passar o tempo, Pedro lê um livro de Charles Darwin. De vez em quando, levanta os olhos e, olhando pela janela ou para os outros passageiros, vai refletindo sobre sua relação com a namorada, o que ela contava sobre o bairro e o que ele vivenciou nas outras vezes que lá esteve, além de passar a limpo sua própria vida. Enquanto isso, uma porção de situações acontece, como um grande engarrafamento, que vai tornando a viagem mais longa, e a ameaça de depredação que causa medo aos passageiros.

O livro de Darwin lido por Pedro é Viagem de um naturalista ao redor do mundo, mais precisamente as páginas em que o pai da Teoria da Evolução narra sua passagem pela região, justamente por onde agora o ônibus faz sua viagem. Marcante para Pedro é o episódio em que um escravo confunde um gesto de Darwin pensando que fosse de agressão. “Darwin escreveu que nunca ia esquecer os sentimentos de surpresa, desgosto e vergonha que o assaltaram, quando viu na sua frente o homem apavorado.” Para o cientista, o escravo havia sido conduzido “a uma degradação maior do que a do mais insignificante dos animais domésticos”.

Se pensarmos na situação por que passam os passageiros do ônibus - rostos cansados e sofridos -, e se pensarmos na situação dos moradores do Tirol - com seus problemas de dinheiro e outras privações -, perceberemos que desde o século XIX as pessoas sofrem da mesma escala degradante e se acostumam com isso, tal qual o escravo, cujo único impulso era se defender. Assim, os moradores desses lugares não vivem: se defendem como podem.

Interessante pensar que a janela do ônibus se torna uma tela de cinema, onde são assistidas as imagens em movimento da rua, mas também pode ser um espelho onde são refletidos os passageiros. A distância entre Pedro e o bairro contrapõe-se à proximidade entre os passageiros, paradoxalmente distantes um dos outros. Da mesma forma, mesmo distante dessa realidade, nós, leitores, que entramos nesse ônibus, numa viagem semelhante à de Ulisses ao Hades, nos aproximaremos de saber quem realmente somos. Função, aliás, de todo bom romance.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq e escreve quinzenalmente neste espaço. Convida também os passageiros dessa página a visitarem o blog cassionei.blogspost.com.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Uma resenha que não aconteceu