domingo, maio 29, 2011

Textículos (VIII)

Agora é tarde demais. Ele está nas últimas horas de vida, sem possibilidade de voltar. Não há mais nenhuma chance de ela pedir perdão. Fez o que fez, já era. Somos uns imbecis, os humanos, não aproveitamos o tempo presente, não avaliamos o passado e esquecemos o que pode acontecer no futuro. Ele bem que avisava, mas ela ignorava. Seu orgulho, a vontade de sair sempre por cima, ter sempre a razão, tudo isso estragou a vida de ambos. Adianta agora se arrepender?

sábado, maio 28, 2011

Carver e Giannetti

68 cenas da vida

“Eu consegui enxergar as menores coisas”, título de um dos 68 contos de Raymond Carver, (Companhia das Letras, 712 páginas, tradução de Rubens Figueiredo), pode resumir o fazer literário desse grande escritor das pequenas coisas. Não é à toa que o cineasta Robert Altman chamou de Short Cuts (no Brasil com a adição da expressão Cenas da vida) o filme baseado em histórias do autor.

A coletânea reúne quase a totalidade da obra do americano Raymond Carver, que nasceu em 1938. Teve uma vida conturbada, casou cedo, trabalhava em empregos que mal sustentavam a família, enquanto produzia paralelamente sua literatura. Além de problemas com o consumo excessivo de álcool, o cigarro o levou à morte em 1988, com apenas 50 anos.

A vida de pessoas simples de pequenas cidades, os costumes tipicamente americanos e os dramas humanos são alguns temas presentes na obra de um escritor rotulado de “minimalista”.

De certa forma, a leitura em conjunto dos livros do autor nos permite perceber as mudanças no estilo de Carver, principalmente no volume Do que estamos falando quando falamos de amor, quando entra em cena o editor Gordon Lish, que teria modificado a forma de Carver escrever, sugerindo muitos cortes.


Auto-engano e A origem

Lendo o livro Auto-engano (Companhia de Bolso, 256 páginas), de Eduardo Gianetti, me deparei com um trecho que tem a ver com o filme “A origem”. Escreve o filósofo: “No engano por desinformação ativa, a ilusão é positiva. A discrepância entre a realidade e a aparência consiste em induzir um organismo a ver coisas, a formar imagens deturpadas ou a distrair-se momentaneamente.”

No livro de Gianetti, ele está se referindo a artimanhas usadas por animais para sua sobrevivência. No filme, é um recurso usado por homens para roubar informações. Sem eufemismos, é a mentira...

quinta-feira, maio 26, 2011

domingo, maio 22, 2011

O que faz as pessoas seguirem uma religião?

(Trecho do romance que estou escrevendo. Dois personagens são ateus, sendo que um deles escreve um blog e debate em redes sociais na internet sobre ateísmo. O texto é a fala desse personagem em um debate na universidade em que estuda.)

O que faz as pessoas seguirem uma religião? Já pararam para pensar sobre isso? Qual é o ponto de partida? Elas nascem com isso?

A resposta mais frequente é: “porque minha família segue essa religião”. O que nos provoca outra pergunta: “e por que sua família segue essa religião?

Para provocar ainda mais, proponho um exercício de imaginação. Se você tivesse nascido em outro país, com uma cultura diferente e cuja religião predominante é diferente? Será que seguiria a mesma crença? E se nascesse no seio de uma família que não acreditasse em um deus, você acreditaria nele?

Quando a pessoa fica acuada com essas questões, ela prefere responder que “tem um lado espiritual independente de qualquer religião”, expressão que se popularizou nos sites de relacionamento da internet. Então esse lado espiritual surgiu do nada? Lógico que não. Nasceu de um processo de questionamento. É um passo para a descrença, talvez, não fosse a necessidade pessoal de crer ou a pressão da sociedade para crer.

Não estou com isso querendo destruir nenhuma crença, mas mostrar que ela é um atributo pessoal do ser humano e não deve ser imposto a outros. Querer impor sua “verdade” é desrespeitar o seu semelhante e o respeito é uma dos fatores da ética que devem ser mantidos para o convívio na sociedade.

sábado, maio 21, 2011

Leituras do Traça


Com o perdão da voz baixa e dos titubeios, apresento-lhes um novo espaço para divulgar meus textos: Leituras do Traça. Mais uma prova de que o mundo realmente acabou.

Critiquem à vontade e, por favor, deem sugestões de como melhorar os vídeos.

Texto lido: Buracos


quarta-feira, maio 18, 2011

Jorge Timossi

Não comentei aqui a morte do jornalista Jorge Timossi (na imagem, ao lado do personagem Felipe, da tira da Mafalda, inspirado nele) ocorrida no dia 10 de maio, em Cuba. Nascido na Argentina, Timossi também escreveu minicontos, dos quais tomei conhecimento lendo O livro da metaficção, do Gustavo Bernardo. A seguir, alguns "continhos" do autor:

Prólogo autocrítico

Quando confidenciei a um narrador amigo que estava escrevendo contos curtos, em uma única frase, perguntou-me qual a razão, se era devido à grave escassez de papel, e não lhe respondi, quem sabe não ia aproveitar a ocasião para trazer à baila o velho tema das medidas e magnitudes, grande ou pequenas, nas idéias de um escritor.

Parênteses

(Aquele escritor era tão respeitoso para com seus leitores que colocava tudo que escrevia entre parênteses para que eles pudessem escolher (livremente) entre lê-lo ou não, incorporar o texto completo ou tomá-lo como uma (simples) intercalação, ou ficar só com os parênteses que (como se sabe) às vezes são muito mais úteis na vida que na literatura.)


A aranha

Ficou tão bonita minha teia que já não desejo que caia em sua fúlgida trama nenhuma outra vítima além de mim mesma.

Labirinto

Uma vez no labirinto chegou um momento em que tive a impressão de que cruzava repetidamente comigo mesmo, de que eu era o outro, dentro e fora de mim, até que, desconcertado, escolhi ficar um instante quieto num ponto, talvez assim pudesse recuperar meus sentidos, e foi então que me vi, com espanto, passar por outro dos caminhos equivocados e sem saída.

Teoria

O camelo tentou de tudo para passar pelo buraco de uma agulha, mas, quando se convenceu de que era impossível, teve a idéia de contornar um lado dessa maldita agulha e colocar-se, assim, do outro lado, com o que cumpriu da mesma forma aquela sagrada missão de que o haviam encarregado.

Dedicação

Aos seis anos ergueu um castelo de areia na praia e hoje, muito depois, pode-se ver ali um homem que, com mãos decrépitas, defende aquela construção contra os eternos embates do mar.

"Continhos e outras alterações", Casa Jorge Editorial. tradução de Sieni Marcia Campos

terça-feira, maio 17, 2011

Errata

Interessante: num texto sobre os erros de português, cometi um erro de concordância, já devidamente corrigido. Alguém aponta mais um?

segunda-feira, maio 16, 2011

Aprender com os erros


Uma recente polêmica retoma uma discussão que há tempos divide linguistas e gramáticos, com o professor de língua portuguesa no meio do fogo cruzado. Ao adotar um material didático que defende frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, o Ministério da Educação dá uma brecha para refletirmos sobre os erros no uso da língua.

Na introdução do livro, intitulado Por um mundo melhor, os autores tentam mostrar ao aluno que construções frasais erradas, em determinadas situações, podem ser corretas. Isso os linguistas já vêm dizendo há muito tempo, pois eles estudam cientificamente o funcionamento da língua, quer dizer, descrevem-na como ela “é” na prática. Do outro lado, no entanto, estão os gramáticos, que defendem o uso da língua padrão, ou seja, a língua como ela “deve ser”.

O professor do ensino básico, por sua vez, se vê dividido. Ele aprendeu – na universidade e em palestras – que deve ter muito cuidado ao dizer que a fala do aluno está errada, afinal, é preciso respeitar sua origem, geralmente humilde. Também ouve estudiosos condenarem o uso de caneta vermelha para corrigir redações, pois ela pode, em vez de apontar os erros, causar marcas psicológicas na criança. Entretanto, o professor sabe que tem a responsabilidade de ensinar a língua de prestígio, pois seria muito mais preconceituoso pensar que esse mesmo aluno, por ser humilde, teria menos condições de aprender e, consequentemente, não ascender socialmente.

A escola é o lugar onde se deve ensinar o aluno a ler e a falar corretamente, dentro das normas gramaticais vigentes. Se não for na escola, vai aprender onde? Por isso, o professor deve apontar os erros que o aluno comete na escrita, deve incentivá-lo a falar em público, deve exigir leitura em voz alta, deve cobrar produção de textos, deve obrigá-lo a ler, deve passar textos no quadro para o aluno copiar. Sim. Copiar do quadro. Por que não? Mesmo com as novas tecnologias, a escrita à mão é importantíssima para fixarmos a forma correta da língua.

Uma coisa, porém, tem que ficar clara: o professor de língua portuguesa não é mágico. Costumo dizer para meus alunos que, mesmo que eles tenham o melhor professor do mundo – que não é o caso –, só aprenderão a escrever bem se lerem muito. Não são as regras gramaticais, os modelos de redação ou dicas de escrita que formam um bom produtor de texto, mas sim uma leitura sistemática de diferentes gêneros e estilos. Só assim o aluno internaliza as formas corretas de escrever.

Também é na escola que o aluno aprende os dissabores da vida. É bom saber desde pequeno o que é o erro, pois só assim estará preparado para errar quando for adulto. Apenas passar a mão na cabeça cria seres mimados, incapazes de encarar os percalços no caminho. O MEC erra ao agir dessa forma.