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Aprender com os erros


Uma recente polêmica retoma uma discussão que há tempos divide linguistas e gramáticos, com o professor de língua portuguesa no meio do fogo cruzado. Ao adotar um material didático que defende frases como “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, o Ministério da Educação dá uma brecha para refletirmos sobre os erros no uso da língua.

Na introdução do livro, intitulado Por um mundo melhor, os autores tentam mostrar ao aluno que construções frasais erradas, em determinadas situações, podem ser corretas. Isso os linguistas já vêm dizendo há muito tempo, pois eles estudam cientificamente o funcionamento da língua, quer dizer, descrevem-na como ela “é” na prática. Do outro lado, no entanto, estão os gramáticos, que defendem o uso da língua padrão, ou seja, a língua como ela “deve ser”.

O professor do ensino básico, por sua vez, se vê dividido. Ele aprendeu – na universidade e em palestras – que deve ter muito cuidado ao dizer que a fala do aluno está errada, afinal, é preciso respeitar sua origem, geralmente humilde. Também ouve estudiosos condenarem o uso de caneta vermelha para corrigir redações, pois ela pode, em vez de apontar os erros, causar marcas psicológicas na criança. Entretanto, o professor sabe que tem a responsabilidade de ensinar a língua de prestígio, pois seria muito mais preconceituoso pensar que esse mesmo aluno, por ser humilde, teria menos condições de aprender e, consequentemente, não ascender socialmente.

A escola é o lugar onde se deve ensinar o aluno a ler e a falar corretamente, dentro das normas gramaticais vigentes. Se não for na escola, vai aprender onde? Por isso, o professor deve apontar os erros que o aluno comete na escrita, deve incentivá-lo a falar em público, deve exigir leitura em voz alta, deve cobrar produção de textos, deve obrigá-lo a ler, deve passar textos no quadro para o aluno copiar. Sim. Copiar do quadro. Por que não? Mesmo com as novas tecnologias, a escrita à mão é importantíssima para fixarmos a forma correta da língua.

Uma coisa, porém, tem que ficar clara: o professor de língua portuguesa não é mágico. Costumo dizer para meus alunos que, mesmo que eles tenham o melhor professor do mundo – que não é o caso –, só aprenderão a escrever bem se lerem muito. Não são as regras gramaticais, os modelos de redação ou dicas de escrita que formam um bom produtor de texto, mas sim uma leitura sistemática de diferentes gêneros e estilos. Só assim o aluno internaliza as formas corretas de escrever.

Também é na escola que o aluno aprende os dissabores da vida. É bom saber desde pequeno o que é o erro, pois só assim estará preparado para errar quando for adulto. Apenas passar a mão na cabeça cria seres mimados, incapazes de encarar os percalços no caminho. O MEC erra ao agir dessa forma.

Comentários

Mirella disse…
E é, psor. Confesso que o meu maior problema é falar em público. AINDA. Preciso de um "aquecimento" antes, para que o ambiente fique familiar e eu possa me sentir à vontade. Aí, falo tudo o que pretendo, sem esquecer-me de uma coisa ou outra importante.
Nietsche disse…
Assino.

Abraço, Cassionei.

Márcio Nietsche
Concordo plenamente. O MEC errou. Falar errado é uma coisa e escrever errado é outra coisa. Quando esses alunos fizerem um concurso público ou privado ou ingressarem no mercado de trabalho será exigido deles uma escrita razoável. E é função da escola preparar os alunos para o mercado de trabalho e para a cidadania. O MEC parece estar pensando apenas no "politicamente correto".
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelos comentários.

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