Um passado em fragmentos


Dirigido por Alain Resnais, Je t'aime, je t'aime, (Eu te amo, eu te amo) lançado em 1968, é um filme curiosíssimo e para poucos apreciadores. Não por acaso foi um fracasso de público. Só por isso já me interessei pelo filme. Se a maioria não gosta é porque pode haver algo de bom (nem sempre, claro). A crítica também não aprovou muito, mais um fator para assisti-lo. O que me levou a buscá-lo, porém, foi a temática do tempo e sua fragmentação.

Um escritor (ou revisor?), Claude Ridder, depois de uma tentativa frustrada de suicídio (ok, ok, isso me atraiu também), é convidado por um grupo de cientistas para participar de um experimento de viagem no tempo, antes só realizado com ratos. Prontamente aceita o convite, mesmo sabendo dos riscos, afinal sua vida já não fazia muito sentido. É colocado numa bolha estranha, que lembra o quadro “Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo”, de Salvador Dalí, porém o experimento apresenta falhas, pois em vez de reviver um momento apenas do seu passado, como prometeram para ele, começam a surgir fragmentos aleatórios de sua vida, mudando a todo instante. O espectador, num primeiro momento atônito com as mudanças bruscas de cenas, começa a montá-las na sua cabeça e tenta estabelecer a linearidade quebrada da narrativa, desde o momento em que Ridder está em uma praia com sua namorada, Catarine, passando por “flashes” dos diferentes lugares onde, parece, trabalhou. Surgem também outras mulheres com as quais se envolveu e tomamos conhecimento também de um suposto assassinato. Mais detalhes não conto para não estragar a surpresa de quem ainda não assistiu.

O que vemos, supomos e montamos pode parecer parte da vida de Claude, como pode ser apenas desejos, sonhos, memórias distorcidas. Não sabemos. Há momentos, poucos é verdade, em que aparecem cenas surreais, como a do homem numa cabine telefônica inundada, da mulher em uma banheira sobre uma mesa de escritório, ou a de um homem de paletó, gravata e cara de lagarto. As aparências enganam, diz Claude a Catarine empunhando um lápis vermelho, mas que escreve na cor preta, ele que na gostava de escrever com lápis.

A trilha sonora é do compositor erudito polonês Krzysztof Penderecki e uma das referências literárias é Jorge Luis Borges, sendo que há uma cena em que o protagonista dita para alguém, ao telefone, correções em dois contos do escritor argentino. Um filme de ficção científica ao estilo da “nouvelle vague” francesa, ou seja, nem um pouco parecido com um filme de ficção científica e nem mesmo com outros tipos de filmes comerciais.

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