Avançar para o conteúdo principal

Meus epitáfios – parte I



Sugestão de epitáfios para minha lápide, que não serão usados porque quero ser cremado e ter minhas cinzas jogadas em qualquer lugar.

AQUI JAZ CASSIONEI
FOI, MAS NÃO DISSE PARA ONDE.

AQUI JAZ CASSIONEI
FOI BOM PAI DE FAMÍLIA,
MAS FICOU MAIS TEMPO COM SEUS LIVROS. NÃO O PERDOEM POR ISSO.

AQUI JAZ CASSIONEI
LEU DURANTE TODA A VIDA,
MAS AGORA NÃO PODE LER ESTE EPITÁFIO.

AQUI JAZ CASSIONEI
QUE NARROU SUA MORTE EM ALGUNS DE SEUS LIVROS,
MAS COMO QUASE NINGUÉM OS LEU, POUCOS SABEM DISSO.

AQUI JAZ CASSIONEI
TEVE MUITOS DEFEITOS,
UM DELES FOI NÃO RECONHECÊ-LOS.

AQUI JAZ CASSIONEI
HOMEM HONESTO E CUMPRIDOR,
CUMPRIU TUDO O QUE PROMETEU,
INCLUSIVE QUE IRIA MORRER.

AQUI JAZ CASSIONEI
ENFIM, MAGRO.

AQUI JAZ CASSIONEI
SUICIDOU-SE PARA CHAMAR A ATENÇÃO DE SUA OBRA.
MAIS UMA VEZ FRACASSOU.

AQUI JAZ CASSIONEI
O MAIOR ESCRITOR DA SUA RUA.

AQUI JAZ CASSIONEI
FOI PROFESSOR, COITADO.

Comentários

Cassionei Petry disse…
Vamos ver se há tempo para a parte 2.

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Um toque

Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses. Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello. O toque é a preliminar do prazer…