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Aconteceu uma orgia literária no Traçando Livros de hoje

Uma orgia literária


Aconteceu uma orgia aqui na minha toca, onde leio, escrevo, tomo meu café e ouço música. Gustave Flaubert, Emma Bovary e Mario Vargas Llosa misturavam-se sobre minha mesa de leitura e me proporcionaram dias prazerosos. O primeiro, escritor francês, e a segunda, sua criação literária, estavam nas páginas de Madame Bovary, de 1857, romance cuja melhor edição disponível por estas bandas é a da Companhia das Letras em parceria com a Penguin, com textos complementares de Charles Baudelaire e Lydia Davis, além da tradução de Mário Laranjeira. Mas eles também estavam no livro escrito pelo terceiro vértice deste triângulo amoroso, o romancista peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2007, no ensaio A orgia perpétua, lançado neste mês pela Alfaguara, com tradução de José Rubens Siqueira. Tenho a edição antiga, traduzida por Remy Gorga Filho, e serão deste volume as citações desta resenha.

Aos poucos, foram chegando à orgia outras personagens da trama, como o marido de Emma, Charles Bovary, aquele que é o último saber, os amantes dela, Léon e Rodolphe, assim como os destinatários das cartas que Flaubert escrevia sobre a criação de seu romance, principalmente sua namorada, Louise Colet. As correspondências serviram de base para Vargas Llosa desenvolver sua análise, assim como ensaios de outros escritores, Jean Paul Sartre entre eles. O título do ensaio, e inspiração para o início da nossa conversa, vem justamente de uma frase de Flaubert retirada de uma dessas cartas: “O único meio de suportar a existência é despojar-se na literatura como em uma orgia perpétua”.

Emma, uma espécie de Dom Quixote de saias, lê muitas histórias românticas e deseja ter uma vida como a das heroínas. Seu marido, no entanto, um médico de província, não podia dar-lhe as condições necessárias para uma vida extraordinária, tampouco a falta de disposição dele para o sexo a deixa satisfeita. Começa, então, a se envolver com outros homens (“E dizia consigo mesma: – Tenho um amante! Um amante! – deleitando-se com essa ideia, como se fora uma nova puberdade que lhe sobreviesse.”) e a pedir dinheiro emprestado para presenteá-los e também enfeitar sua casa, resultando numa enorme dívida que não consegue quitar. Os acontecimentos e seu exagero sentimental a levam para um destino trágico, num final talvez moralista, em que pese Flaubert tenha sido julgado por imoralidade devido à publicação da obra.

Vargas Llosa desenvolve três formas diferentes de análise crítica do romance, como afirma na introdução. Na primeira parte, expõe suas impressões subjetivas sobre Madame Bovary: “Desde as primeiras linhas o poder de persuasão do livro agiu sobre mim de modo fulminante, como um feitiço poderosíssimo.” Na segunda, em análise mais extensa, predomina a objetividade científica, repercutindo desde a gênese do romance e passando pelos elementos da narrativa, como narrador e personagens, a “lenta escrupulosa, sistemática, obsessiva, teimosa, documentada, fria e ardente construção de uma história”. Na terceira, Llosa põe a obra no seu lugar histórico, comparando-a com outros romances.

Em A orgia perpétua, Llosa afirma que a obra-prima de Flaubert incorreu “no crime de Lúcifer: querer romper os limites, ir mais além do possível”, fixando “um topo mais alto para o romance e a crítica”. Depois de Madame Bovary, a literatura jamais foi a mesma. E nem mesmo nós, leitores, somos os mesmos depois de sua leitura.

 Cassionei Niches Petry é escritor. Autor do livro de contos “Arranhões e outras feridas” e do romance “Os óculos de Paula”. Escreve regularmente para o Mix, é colunista do site Digestivo Cultural e mantém um blog, cassionei.blogspot.com. 

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