sexta-feira, julho 31, 2015

Minha crônica "Tempo para ler" na Gazeta do Sul de hoje


Tempo para ler

Um episódio antigo do seriado “Além da imaginação”, do final dos anos 50, conta a história de um caixa de banco, Henry Bemis, apaixonado por leitura e que queria ter mais tempo para ler. Atrapalhava-se no trabalho, tinha conflitos com a esposa, que implicava que ele parava para ler até o rótulo do catchup. Por tudo isso, tornou-se um homem antissocial.
Um dia, porém, enquanto aproveitava a hora do almoço e se refugiava no cofre do banco para ler em paz, uma bomba nuclear atingiu a cidade e ele se tornou o único sobrevivente. Procurou a biblioteca pública e mergulhou nos livros que ficaram intactos e se regozijava por agora ter todo o tempo do mundo para ler aquelas maravilhas. Por azar, no entanto, acabou deixando cair seus óculos de grossas lentes, que se quebraram.
A personagem da série é um paradigma de vários ratos de biblioteca que perdem seu precioso tempo de leitura para o trabalho. Ó, maldito trabalho! Quantos livros deixei de ler por sua causa! Quantas personagens ficaram abandonadas porque tinha que estar atendendo telefonemas, conferindo notas fiscais, fechando caixas ou atendendo pessoas reais! Horas preciosas que poderiam servir para apenas ler, ler e ler. Ah, se tivesse mais tempo para ler!
O tempo escorre pelas mãos, já diria a canção. O tempo devora tudo, nos diz o mito. Há na minha biblioteca uma pilha de livros que precisam ser lidos. Cada vez a pilha vai aumentando e alguns volumes acabam indo para as prateleiras para serem lidos, com muita sorte, somente nas férias. Alguns furam a fila. Há muitos lançamentos para ler, assim como há muitos clássicos que não foram ainda degustados. Mas onde o tempo para tudo isso!
Só no ano passado comecei a anotar a quantidade de livros lidos por inteiro. Em 2014, foram 100 exemplares devorados, fora os abandonados. Como é quase impossível eu ganhar na Mega Sena e ter mais tempo para ler, devo seguir essa média anual. Ainda pretendo aumentá-la. Nesse ritmo, se eu chegar aos 80 anos, terei lido mais de 4 mil livros. É pouco, muito pouco para as minhas pretensões literárias.
Lógico que, até lá, estarei aposentado da minha função atual de professor. A conta aumentará um pouco. Mas e se eu não chegar aos 80? E se uma bala perdida me tirar a vida? E se um carro me atropelar? Ou se eu morrer soterrado pelos livros da minha biblioteca? (Convenhamos que seria uma morte muito linda.)
Ou seja, não dá para planejar. É preciso ler sem pensar no tempo. O relógio e o calendário são inimigos da leitura. Basta abrir o livro e ler. O tempo deixa de existir. O tempo dentro do livro é outro. Se não pensarmos assim, jamais leremos.
Há quem vê o tempo como desculpa para não ler. Não consigo entender como as pessoas preferem dormir a ler. Como preferem novela em vez de livro. Como preferem debruçar-se sobre telas do celular no lugar de ficarem corcundas em nome da leitura.

Aliás, já perdi muito tempo escrevendo esta crônica. Voltarei à leitura. Há um Roberto Bolaño me esperando.

quarta-feira, julho 29, 2015

2 crônicas inéditas

Publiquei no blog do Digestivo Cultural duas crônicas inéditas, ontem e hoje. Por que não aqui primeiro, como fazia sempre? Porque este blog está abandonado pelos leitores. Seguem os links:

O drama do homem moderno: a gripe

Tempo para ler

terça-feira, julho 28, 2015

Terceiro acorde

(De um crítico que critica a si mesmo.) 
Minha filha criou meu perfil em uma rede social da internet. Escolheu uma imagem curiosa para ser o que ela chamou de avatar. Parece que a foto tem muito a ver comigo. Um escritor em um espaço com as paredes almofadadas, seu rosto demonstrando uma expressão de loucura enquanto escreve em uma máquina de escrever no chão. Não perguntei a ela por que escolheu tal ilustração. Acredito que é a visão que ela tem de mim. Quando criança, com a sinceridade que somente os pequenos têm, me disse que eu fazia caras engraçadas quando estava à frente da minha Olivetti Lettera.
Sou louco? Pode ser. Simão Bacamarte, personagem do Machado de Assis, diria que todos o somos, inclusive quem julga os outros dessa forma. Louco é o que foge do considerado normal, num conceito bem simplório. Não pode ser normal escrever histórias, juntar palavras, trabalhá-las em busca de uma estética. O normal é escrever o simples, o essencial, num vocabulário mediano. O mais comum é o vocabulário pobre, com abreviaturas, com “carinhas”. José Saramago disse uma vez que estamos voltando ao grunhido primitivo. Do Vossa Mercê ao “vc”, podemos imaginar que o próximo passo para trás é apontar o outro quando alguém quiser se comunicar. Depois do grunhido, o silêncio, que até não seria má ideia.
Voltemos, porém, à rede social. Aprendi logo a usá-la e comecei a fazer convites de “amizade” a escritores, críticos, professores. Alguns logo aceitaram e começaram a surgir, a partir desse momento, solicitações de “amizade” de pessoas das quais nunca ouvi falar, mas que eram também escritores, críticos, professores, outros apenas leitores. O círculo se expande, talvez resulte em leitores para o blog e para os livros que, quiçá, venha a publicar.

Posso estar dando a impressão de ser um zero à esquerda em relação à internet. Já a uso, no entanto, há bastante tempo, por obrigações de trabalho e também para ler jornais ou sites de notícias e de literatura, bem como para comprar livros que não encontrava nas livrarias das cidades onde trabalhei. Se tenho uma vasta biblioteca, inclusive com livros em línguas espanhola e inglesa, foi graças à internet. É um mal, portanto, necessário.
Júlio Nogueira

quarta-feira, julho 22, 2015

Café e literatura no "Traçando livros" de hoje


O prazer do café e da literatura

Há escritores que necessitam de cigarros para escrever, como Alejandro Zambra e Julio Ramón Ribeyro, que apareceram na última coluna. Há os que não dispensam a bebida alcoólica, como o Bukowski. Paul Auster é adepto do chá. Henry David Thoreau acreditava que a única bebida digna para ele era a água. Eu necessito de café: não muito forte, mas jamais fraco, xícara grande, com duas ou três colheres de açúcar, podendo ser coado na hora ou requentado, sem muita frescura. E quando digo necessito, na verdade quero dizer que preciso, que é imprescindível, que não vivo sem meu café. Sou um adicto (termo técnico, mas que serve como eufemismo para viciado), sou dependente do café. Por isso, e já que escrevi sobre o cigarro no último Traçando livros, hoje o tributo é à “bebida negra do Diabo”, como a chamavam os cristãos de Roma.
A lista de escritores (de ficção ou de filosofia) que preferem café é enorme. Consta que Proust tomava muitas xícaras. Julio Cortázar também não o dispensava e em muitos dos seus poemas ele aparece, assim como é presença marcante no romance O jogo da amarelinha (“Isso foi na madrugada de segunda-feira, depois de terem passado juntos a tarde e a noite de domingo, lendo, escutando discos, levantando-se alternadamente para aquecer o café ou fazer mate.” “...e então o cheiro do café, ah!, o cheiro maravilhoso do café...”).
Voltaire, o recordista entre os escritores na quantidade de cafezinhos ingeridos (até 70 xícaras por dia) afirmou: “Claro que o café é um veneno lento, pois faz quarenta anos que o bebo e ainda não morri.” No poema “A canção de amor de J. Alfred Prufrock”, T.S. Eliot escreveu: “Medi minha vida em colherinhas de café”. O filósofo escocês James Mackintosh disse que “o poder da mente de um homem está diretamente relacionada à quantidade de café que bebe”.
Honoré de Balzac talvez seja o maior adicto ao café e foi quem melhor escreveu sobre o assunto. François Taillandier, em sua biografia do escritor francês, comenta que “Balzac é Vulcano em sua fundição, trabalhando duro, suando e arfando, bebendo litros de café e colocando para fora, num jorro inesgotável, dezenas de romances que formam um só: Eugénie Grandet, Ilusões perdidas, Um aconchego de solteirão, César Birotteau, A prima Bette, O pai Goriot, Esplendores e misérias das cortesãs...” Paulo Ronai, na introdução de A comédia humana, complementa: “Atazanado pelas dívidas, pelos prazos marcados para a entrega dos originais; recluso no silêncio noturno de seu gabinete mal iluminado pelas velas e separado do resto do mundo, na hipertensão da obra da criação, com a sensibilidade estimulada por excitantes, acima de tudo inúmeras xícaras de café; sentindo quase materialmente a pressão de sua imaginação a reclamar vida no papel — acaba numa exaltação permanente, uma espécie de alucinação provocada.” Consta que ele dormia às 18h e acordava à meia-noite, quando, estimulado por até 50 xícaras de café, começava a escrever até o início da tarde do mesmo dia.
No texto “Tratado dos excitantes modernos”, disponível no Brasil no livro Tratados da vida moderna (Estação liberdade, 240 páginas), Balzac escreveu sobre o consumo de estimulantes como o álcool e o tabaco. No capítulo sobre o café, refletiu sobre a experiência com a substância e propôs formas de obter melhores benefícios do seu uso, clamando: “Vós, ilustres luminárias humanas (...) se aproximem e escutem o Evangelho da vigília e do trabalho intelectual!” Uma das maneiras é mastigar o café moído como pouquíssima água, ou até sem, e em jejum. Depois de o café cair no estômago, “as ideias põem-se em marcha no campo de batalha, como batalhões do grande exército, e a batalha começa. As recordações vêm à galope, o estandarte desfraldado ao vento. A cavalaria ligeira das analogias lança formidável carga, a artilharia da lógica apronta as peças e munições, as lâminas do engenho atacam como atiradores certeiros. Surgem as figuras; o papel é coberto com tinta; a vigília transcorre entre torrentes de água negra como a pólvora das batalhas”.

Graças ao café, portanto, podemos hoje ler obras monumentais como A comédia humana. E é essa bebida também que manterá despertos e estimulará outros tantos escritores que criarão outras obras-primas da literatura, em vigílias que transcorrerão entre torrentes de bits e bytes

sexta-feira, julho 17, 2015

Segundo acorde


(Mais uma postagem recuperada de um ex-blogueiro, ex-professor e ex-crítico que decidiu se isolar.)

Minha filha me põe a par do que acontece de lançamentos, novos autores, tanto da boa quanto da má literatura (que ela lê, porém sabe que não é uma literatura que se deva respeitar). Compra os livros pela internet, instrumento que eu pensava, quando começou a se tornar mais popular, fosse acabar com a literatura. Não me enganei totalmente, porém dá sua parcela de contribuição para que a arte não morra.
Foi ela, minha filha, quem insistiu para que eu criasse este blog como uma maneira de desengavetar, das gavetas da escrivaninha e do meu cérebro, tudo o que escrevi ou apenas esbocei durante anos e anos. Minha admiradora (única, por sinal), me diz que eu não posso ser egoísta e ficar com todo o conhecimento que adquiri só para mim. Como professor, não consegui compartilhar com os alunos nem 5% do que poderia, não por culpa minha, claro. Se fosse por mim, formaria excelentes leitores de literatura e filosofia. A escola, porém, tem outros interesses. Não quero falar sobre isso. Essa parte da minha vida, que somente me deu o sustento necessário para sobreviver, já passou e foi devidamente jogada no vaso sanitário, como já escrevi ontem.
“O próximo passo”, disse ela, “é o senhor entrar em alguma rede social. Posso criar um perfil no Facebook e no Twitter para o senhor, pode ser até um fake”. Explicou-me o que seria o tal do “fake”, eu tinha vagamente uma ideia do que seria. Logo me veio à mente tantos e tantos escritores e críticos que usaram pseudônimos. Ou heterônimos, no caso do Fernando Pessoa. Não foi uma má ideia. Por isso resolvi usar o nome falso também no blog. Meu nome não é Júlio Nogueira. Desafio alguém a descobrir por que o estou usando.
 Passei agora a também “navegar”, como dizem, pela internet para ver o que estão escrevendo sobre literatura. Descubro coisas boas, outras nem tanto. Descubro, por exemplo, que alguns críticos dos jornais também escrevem na web. “Navegar é preciso”, e o pessoal parece que levou ao pé da letra os versos de Pessoa. Alguns também têm perfil nas redes sociais, outros ainda resistem, mas são bem poucos. Quem não está na rede não existe, foi o que li no “status” de um crítico do jornalzinho da cidade onde hoje moro. Vou passar a existir, portanto. Antes apenas passava pela terra cumprindo algo que... não, não vou falar sobre isso de novo.
Hoje é domingo, são oito horas da manhã. Já escuto os sinos da igreja próxima tocando. Em outra época da minha vida já estaria ajoelhado e rezando em frente ao altar. Hoje meu altar é outro. A literatura é minha crença e a ela devo devoção (que minha esposa não leia isso e sei que ela não vai ler). Iria publicar uma primeira crítica literária, mas vou deixar para segunda. Não estou a fim de me ler hoje. Sim, pois somente eu vou ler o blog, me parece. E minha filha, claro, se é que ela não está, em surdina, divulgando este espaço e você, caro leitor desconhecido, não tenha encontrado a garrafa jogada nesse mar. Cuidado ao abri-la.
Júlio Nogueira

segunda-feira, julho 13, 2015

Primeiro acorde


(Textos recuperados do blog de um escritor que desistiu sem nem mesmo começar)


Finalmente aposentado. E finalmente livre de jovens e adolescentes que não querem nada com nada. Um clichê necessário e verdadeiro. Não vou, porém, largar o que estava preso dentro de mim durante todos esses anos de silêncio forçado porque já o fiz no vaso sanitário.
Vamos ao que interessa. Somente a literatura interessa. Ou somente a literatura ME interessa. A família também, assim como a música e o cinema. Aqui, no entanto, é a literatura que manda. Ao contrário de Kafka, conversar sobre literatura não me aborrece. Começo um projeto pessoal arquitetado há anos. Aos poucos, os poucos leitores que talvez eu tenha neste espaço que eu ainda pouco domino saberão um pouco do projeto.
Num primeiro momento, vou escrever ensaios, críticas, resenhas e crônicas, atuais ou que andei escrevendo durante todos esses anos de leituras e mais leituras. Já criança, mesmo sem saber escrever, lia, refletia e criticava. Lobato sofreu severas críticas daquele leitor metido. Sorte a dele que o pirralho não sabia escrever. Quem sabe o velho o faça agora.
Comprei uma casa em uma localidade do interior do Rio Grande do Sul. A nova residência (não, não direi onde morava antes) é um sítio, ou chácara, como chamam por aqui, e fica distante de outra moradia, portanto livre, em princípio, de algum barulho desagradável. O silêncio é quebrado pelo canto dos pássaros, o barulho da chuva ou um disco de Beethoven, Bach e Brahms. Esse é o BBB que importa. E Mozart também, claro, assim como todos os outros grandes compositores da música erudita, de preferência com o selo amarelo da DG.

Está inaugurado este espaço. Por enquanto, acredito, será lido apenas por mim e, quem sabe, pela minha filha. Está lançada a garrafa. Que algum náufrago a encontre. 
Júlio Nogueira

sexta-feira, julho 03, 2015

Colunista do site Digestivo Cultural e 10 anos do blog "Cassionei lê e escreve"


Passo agora a fazer parte do time de colunistas do site Digestivo Cultural, publicação que acompanho desde o início dos anos 2000, uma das mais longevas da era da internet. Honrado por ser convidado pelo Julio Daio Borges, depois de participar do Digestivo Blogs, projeto de blog de leitores do DC, em que estou republicando textos que já passaram aqui pelo "Cassionei lê e escreve". O alcance dos textos foi bem maior do que este espaço,  o que mais uma vez me faz pensar seriamente em encerrar este blog pessoal que, a propósito, completou 10 anos em junho (chamado originalmente de "Porém ah, porém"). Como a maioria das visitas no últimos tempos por aqui é só de gente procurando copiar o discurso de formatura do ensino médio que escrevi como professor (está chegando aos 20 mil acessos e plágios pululam por aí), não tenho mais muito tesão em continuar. Veremos.

Aqui o link para a primeira publicação na coluna, na verdade escrita por Júlio Nogueira, um crítico literário que deseja escrever minha biografia não autorizada: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4144&titulo=Esbocos_de_uma_biografia_precoce_nao_autorizada

quarta-feira, julho 01, 2015

No "Traçando livros" de hoje: Zambra, literatura e cigarro




O prazer do cigarro e da literatura

Ao professor Norberto Perkoski

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!”, diz o eu lírico do poema “A última quimera”, de Augusto dos Anjos, a seu interlocutor, a quem alerta sobre a ingratidão do ser humano. Convido a quem fuma a fazer o mesmo para ler este texto. Quem não fuma, pode pegar uma caneta ou outro objeto cilíndrico para fazer as vezes de um cigarro e o ponha na boca, fingindo dar suas tragadas, e tente entender pelo menos o prazer de quem fuma. É o que faremos aqui através da literatura, algo tão viciante quanto o “cilindro branco”.

O mote para o texto é a publicação de Meus documentos, de Alejandro Zambra, editado pela CosacNaify, com tradução de Miguel del Castillo. O livro reúne os contos do chileno (autor de romances como Bonsai, já comentado no Traçado Livros), escritos nos últimos anos, com um tom memorialístico. O título pode simbolizar as pastas do computador em que são arquivados os contos, como também pode se referir àquilo que dá identidade ao indivíduo, como se o escritor dissesse “esse sou eu”. A infância, as descobertas amorosas, musicais, políticas e religiosas permeiam as narrativas.

Em “Eu fumava muito bem”, o narrador relata os últimos dias do tratamento para deixar o cigarro e a relação do ato com a atividade do escritor. “O último anel de fumaça se desfez antes de chegar ao teto. Desenhei algo nas cinzas (meu coração?).” Zambra já havia escrito uma crônica para um jornal sobre sua vida de fumante, “Hermosos fumadores”, e a utilizou para compor o conto. Impossível não ver, portanto, o próprio autor no enredo.

“Os cigarros são os sinais de pontuação da vida. Agora vivo sem pontuação, sem ritmo”, diz o narrador. O leitor que fuma ou já fumou (este é o meu caso) se identifica com essa frase. Quem escreve e fuma mais ainda. A relação entre a literatura e o cigarro é notória. Fotos e filmes com escritores martelando em suas “olivettis” com o cigarro entre os lábios e envoltos em fumaça fazem parte do nosso imaginário. Poucos, no entanto, escreveram sobre isso.

Citado no conto de Zambra, o peruano Julio Ramón Ribeyro escreveu Só para fumantes, também publicado pela CosacNaify. Notório fumador, que morreu inclusive devido ao vício, Ribeyro escreve o conto autobiográfico que dá título à obra  e em que cita André Gide (“Escrever é para mim um ato complementar ao prazer de fumar.”), Thomas Mann, em A montanha mágica (“Não entendo como se pode viver sem fumar...”), Moliére, em Don Juan ("Diga o que disser Aristóteles e toda a filosofia, não existe nada comparável ao tabaco... quem vive sem tabaco não merece viver."), e conta que até vendeu seus livros na sua juventude em Paris para poder comprar cigarros. Ato extremo de desespero, que eu jamais faria.

Nessa época do politicamente correto, em que os fumantes são perseguidos e escanteados, inclusive na cidade conhecida como a Capital do Fumo, é difícil defender o cigarro, o charuto, o cachimbo. Curiosamente, muitos dos que se incomodam com o tabaco e defendem o seu fim em nome da vida, também defendem a legalização da maconha. Fumar é paradoxalmente um ato de liberdade, pois as pessoas acabam presas no vício. O que não foi o meu caso (momento “egotrip” agora) quando fumava (escondido) na adolescência, apesar de muitas vezes ter juntado restos de cigarro para fazer um palheiro. Hoje não fumo mais, mas sou como a protagonista do meu romance, Os óculos de Paula: “Paula se dizia ‘fumante passiva assumida’. Não se importava com a fumaça expelida pelos amigos, achava até esteticamente bonito vê-la rodeando o rosto das pessoas em contraste com a luz do restaurante. Imagem que não se poderia mais ver devido às restrições ao cigarro”.

Daqui a alguns anos, o cigarro será definitivamente proibido. Espero que não aconteça o mesmo com a literatura, mas não descarto essa possibilidade. A literatura incomoda os outros, como o cigarro, mas, ao contrário deste, ela não esconde o rosto com a fumaça e sim revela quem somos. É o nosso documento.

Cassionei Niches Petry é escritor e ex-fumante. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula (Editora Autoral). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.