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A mostrar mensagens de Agosto, 2015

Trilogia de um texto só

Sou um homem das letras, das palavras, das frases, dos parágrafos, do texto. Os números não são minha praia. O máximo das aulas de matemática de que me lembro é que 2 + 2 = 5 (ou foi a literatura que me ensinou isso?). Mas há alguns números que me perseguem e eu os persigo vez ou outra. Que o digam os pobres dos alunos, que aguentam as filosofices deste medíocre professor quando escreve a data no quadro. Um destes números é o 33, o número do suicídio. Quem leu o meu romance, Os óculos de Paula, entenderá, assim como quem acompanha há mais de 3 anos o meu blog (clique no marcador 33 ali ao lado e verá). “O que faço com estes números?”, canta o engenheiro das palavras Humberto Gessinger. Vinha ouvindo esta música há pouco no meu golzinho usado, cuja primeira dona morava numa casa de número 333. Dois versos da canção dizem: “Aos 33 Jesus na cruz/Cabral no mar aos 33”. Gessinger é um obcecado pelo número 3. Já escrevi sobre seu livro Pra ser sincero: 123 variações sobre um mesmo tema e a r…

A pequena grande obra de Josefina Vicens

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Josefina Vicens (1915-1988), assim como seu conterrâneo Juan Rulfo, publicou  apenas dois livros. O suficiente, porém, para fazer dela um grande nome da literatura mexicana, apesar de se notabilizar muito mais pelo trabalho jornalístico (assinando, com pseudônimos masculinos, crônicas sobre touradas) e pelos roteiros de cinema. Mesmo assim, não alcançou o reconhecimento obtido pelo autor de Pedro Páramo e El llano en llamas, por isso não temos traduções da sua obra por estas bandas. Conheci a escritora pelo seu segundo romance, Los años falsos,de 1982, uma curta narrativa daquelas que te agarram já no primeiro parágrafo, numa construção que leva a pensar que o narrador é um defunto, tal qual Brás Cubas, contando a visita de sua família, ele junto, ao seu próprio túmulo. “Todos viemos me ver” é a primeira frase, numa tentativa de tradução minha. Na verdade, é seu pai que está ali enterrado, personagem em quem se espelha e passa a seguir todos os passos que teve em vida, como se tivesse …

O poder e a vaidade

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Há quem diga que conhecemos a pessoa quando damos poder a ela. Não é o poder que a corrompe, no entanto, e sim a posição em que ela se encontra que vai revelar quem realmente é. Um síndico eleito pelos seus vizinhos pode mostrar-se o ser humano mais desprezível. O diretor da escola, por sua vez, vira um ditador. O funcionário promovido a gerente transforma-se no carrasco. Já o político, antes adorado, passa a ser odiado (apesar de a cegueira partidária ou as benesses particulares que ele proporciona a seu eleitorado ainda lhe renderem uma boa porcentagem de aprovação). Alguns lutam para obter o poder, às vezes gastam uma enormidade de dinheiro para chegar a um cargo e depois continua investindo para se manter lá em cima. Para essas pessoas, não é apenas o salário elevado o objetivo maior: importa, da mesma forma, a sensação de mandar, decidir, ter o controle dos demais, manter um status, ser conhecido, respeitado, ter o seu nome lembrado em uma lei ou obra realizada. A vaidade, enfim. A…

A primeira orelha a gente nunca esquece

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Escrevi a orelha do segundo livro do poeta Sander Félix Morais, livro editado pela Pragmatha, de Porto Alegre


Na minha coluna no Digestivo Cultural de hoje

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Mais um Philip Roth na conta

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Sigo lendo e relendo a obra de Philip Roth, paralelamente ao livro Roth libertado: o escritor e seus livros, de Claudia Pierpont, publicado pela Companhia das Letras. A última leitura foi de uma obra ainda não publicada no Brasil, “The facts: A novelist's autobiography”, de 1988, que pretende ser uma autobiografia, porém não passa de outra peça literária do autor de Complexo de Portnoy. Com intuito de desvendar o que verdadeiramente estava por trás de suas primeiras narrativas, Roth conta fatos de sua vida desde a infância, passando pela universidade e depois a publicação e repercussão de suas primeiras obras. Ora, para quem leu seus primeiros livros, os fatos são facilmente identificados, como por exemplo, a trapaça que sua ex-esposa lhe fez ao fingir que estava grávida, artimanha utilizada por uma personagem em As melhores intenções. Mas também prova, ou tenta provar, que seus pais não foram contra a publicação de seus primeiros contos, geradores de uma perseguição da comunidade …

Durma-se com um barulho desses

(Mais uma participação do crítico e ex-professor Júlio Nogueira aqui no blog.)

Aqui na chácara, tudo tranquilo. Na última madrugada, um grilo deu o ar de sua desgraça, mas foi só. Ouço apenas o som do vento nas árvores, do canto dos pássaros e o da cozinha, pois minha mulher prepara o almoço. Por que não o faço eu, para agradá-la? Porque minha cozinha é outra, meu banquete não é comestível. Hoje dispenso até a música clássica. Beethoven está mudo, em vez de surdo. Os instrumentos não falam por ele. Talvez o “4’33”, do Cage, fosse uma boa pedida. Li alguma coisa de literatura contemporânea para ver se despertava algo para escrever. Nem para criticar estão servindo as últimas leituras. Já abandonei o último livro do Ricardo Lísias, um bom romancista, cujos contos isolados até são bons também, mas no conjunto se tornaram intragáveis pela repetição de temas e de personagens com o mesmo nome do autor. As descrições das partidas de xadrez são mais chatas do que o próprio jogo. Tchau, “Concent…

Richard Dawkins no Traçando Livros de hoje

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Memórias de um ateu ainda não militante

“Sempre me interessei pelas questões profundas da existência, as questões a que a religião aspira a responder (e não consegue), mas tenho a sorte de viver num período em que essas questões ganham respostas científicas em vez de sobrenaturais.” Richard Dawkins Livro mais recente do britânico Richard Dawkins, Fome de saber – a formação de um cientista(Companhia das Letras, 364 págs., tradução de Érico Assis) traz as memórias das quatro primeiras décadas de vida e trabalho daquele que coleciona legiões de detratores no mundo todo. É autor de Deus, um delírio, publicado em 2006, uma das mais contundentes obras contra a figura da divindade de várias crenças e realiza palestras e documentários no mundo todo na tentativa de destruir essa ilusão coletiva ao afirmar que o mundo estaria muito melhor se não houvesse religiões, como imaginava John Lennon. Pelo menos neste primeiro volume de suas memórias, as críticas às religiões não são tão fortes, mesmo assi…

Kafka e seu pai

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Meu texto sobre o Dia dos Pais, na Gazeta do Sul, sobre um dos piores pais da história, mas que inspirou as obras literárias do Franz Kafka.

Entrevista com este blogueiro no Digestivo Cultural

"Quando Bolaño apareceu no meu quarto..."

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Meu conto "Quando Bolaño apareceu no meu quarto..." está disponível para baixar de graça, promoção que vai até quinta-feira. O conto concorre ao prêmio do caderno Prosa, de O Globo, em parceria com a Amazon Kindle Direct Publishing​, portanto seria legal se meus poucos mas qualificados leitores comentassem e avaliassem a obra na página:  http://www.amazon.com.br/gp/product/B0131TFUU6?*Version*=1&*entries*=0