O poder e a vaidade

Há quem diga que conhecemos a pessoa quando damos poder a ela. Não é o poder que a corrompe, no entanto, e sim a posição em que ela se encontra que vai revelar quem realmente é. Um síndico eleito pelos seus vizinhos pode mostrar-se o ser humano mais desprezível. O diretor da escola, por sua vez, vira um ditador. O funcionário promovido a gerente transforma-se no carrasco. Já o político, antes adorado, passa a ser odiado (apesar de a cegueira partidária ou as benesses particulares que ele proporciona a seu eleitorado ainda lhe renderem uma boa porcentagem de aprovação).
Alguns lutam para obter o poder, às vezes gastam uma enormidade de dinheiro para chegar a um cargo e depois continua investindo para se manter lá em cima. Para essas pessoas, não é apenas o salário elevado o objetivo maior: importa, da mesma forma, a sensação de mandar, decidir, ter o controle dos demais, manter um status, ser conhecido, respeitado, ter o seu nome lembrado em uma lei ou obra realizada. A vaidade, enfim.
Ah, a vaidade humana! Juan Pablo Castel, protagonista do romance “O túnel”, do escritor argentino Ernesto Sabato, diz, aqui na tradução de Sérgio Molina, que “a vaidade se encontra nos lugares menos esperados: ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade!” Por isso desconfio de gestos de caridade desprovidos de qualquer vaidade. Dia desses, depois de anos afastado, visitei uma igreja por ocasião de um batismo de meu sobrinho e deparei-me com as bonitas portas da pequena edificação religiosa. Acima delas, havia estampados, em letras garrafais, os nomes dos doadores, aqueles que se desprenderam do seu dinheiro para poder ver bonita a casa de sua divindade. Então, por que os nomes? O mesmo se pode dizer do político que participou da construção de um posto de saúde, pensando no bem da comunidade, mas que gostaria de ter visto o seu nome gravado em uma placa. Já não basta receber um belo salário para cumprir com suas obrigações?
Ingênuo sou, é verdade, mas também vaidoso (não no sentido estético do termo), por isso entendo quem age dessa forma. Não ganho nada para escrever artigos  de opinião e crônicas. Além de gostar de escrever, move-me a vontade de ser lido, comentado, elogiado, receber um “curtir” ou ser “retuitado” nas redes sociais. A vaidade move o ser humano, para o bem ou para o mal, mais do que o dinheiro, que pode ser uma consequência dela. É o mesmo Juan Pablo Castel, aliás, quem vai dizer: “Da vaidade não digo nada: creio que ninguém está desprovido desse notável motor do Progresso Humano. Fazem-me rir esses senhores que falam da modéstia de Einstein ou de gente da laia; resposta: é fácil ser modesto quando se é célebre; quer dizer, parecer modesto.”
Comecei a falar do poder e passei para a vaidade, esse, veja bem, “motor do Progresso Humano”! Volto ao poder para dizer aos poderosos que nos governam: sejam vaidosos. Queiram ser lembrados por realizar coisas úteis para a população. Não meçam esforços para aparecerem, mas façam por merecer. Usem o poder não só para sua vaidade, mas também o empreguem para o bem comum.



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