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Desejar a “indesejada”: uma reflexão


 “Ser ou não ser, eis a questão:/ Será mais digno para o espírito suportar/ Os golpes e as feridas de um infame destino/ Ou revoltar-se contra a vaga de males/ E pôr fim a tudo pela recusa de viver?” Muitos conhecem apenas o primeiro desses versos da peça Hamlet, de William Shakespeare. Poucos sabem, porém, que se refere ao suicídio, a atitude de recusar-se a viver. O tema, considerado tabu, é pouco discutido, entendido e compreendido. Não deveria ser escamoteado. No mês passado, a campanha “Setembro amarelo”, que serviria para conscientizar a sociedade sobre o assunto, foi ignorada. O caso do jovem encontrado sem vida no banheiro de sua escola em Santa Cruz demonstra que não podemos esconder o problema.
Pode-se analisar o tema sob o prisma filosófico, sociológico, histórico e também literário, que é o meu campo de estudo.  O escritor francês Albert Camus escreveu que “considerar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia”. Os outros questionamentos podem esperar. “O verme encontra-se no coração do homem, aí é que é preciso encontrá-lo. Devemos acompanhar e compreender esse jogo mortal, que nos conduz da lucidez perante a existência à evasão fora da luz.” Reparem que o autor de O estrangeiro diz que o problema está dentro do ser humano, não fora. É um bom ponto de partida para pensarmos.
Li comentários nas redes sociais dando conta de que os culpados pela atitude (para alguns falta de atitude) do menino seriam a escola, com as exigências que lhe cabem, as pressões da sociedade, o bullying de colegas ou os problemas familiares. Poderíamos elencar diversos fatores, é claro.  Todos, no entanto, pecam por atribuir sempre ao outro a culpa. Eleger responsáveis por um ato individual não resolve o problema. Há que se pensar que, apesar de vivermos numa coletividade, somos indivíduos, com nossos desejos subjetivos, com nossas tristezas, frustrações. Além disso, somos seres vivos e, portanto, passíveis de doenças, muitas vezes incontroláveis, difíceis de diagnosticar e combater. A depressão é uma dessas enfermidades e, admito, não posso dizer muita coisa sobre ela. Aliás, admitir isso e principalmente não julgar quem sofre depressão seria um passo importante. Se não pode ajudar, não atrapalhe.
Quando comecei a estudar o tema no âmbito na literatura, passei a usar como lema uma frase que serviu como abertura de um ensaio que publiquei numa revista acadêmica: “Enquanto refletimos sobre o suicídio, não o cometemos”. Ora, quando tentamos entender algo, buscamos informação e tentamos obter conhecimento sobre aquilo, mais verificamos que há muito a se aprender. Se nos centramos em uma busca, nos ocupamos, damos sentido a nossa existência, podemos até diminuir o sofrimento. Talvez não acabe com as dores internas que corrói o indivíduo, mas se adia a morte involuntária, o que não deixa de ser uma vitória.

É difícil entender quando alguém deseja a “indesejada das gentes”, como também é difícil entender o próprio ato de viver. Admitir que a vida não é fácil talvez seja um caminho. Um caminho que também não é fácil.

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