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Tchau, pai!


O destino é duro com o ser humano. Penso nele como um cara cruel, que nos dá bons momentos para depois nos derrubar. Também nos faz refletir sobre algumas coisas para depois tudo que refletimos cair em nosso colo. No último sábado, escrevi no meu “blog” sobre um livro de contos chamado Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade. Coincidentemente, eu havia ido, nas últimas semanas, a alguns velórios de mães e sogras de amigos e também no de um primo, na verdade primo de minha mãe. Pois o destino, na mesma noite, levou o meu pai, de forma trágica, e me vi, então num velório que não gostaria de enfrentar assim tão cedo.
Para ser sincero, não acredito em destino. Também não acredito nas Moiras, mas as utilizo simbolicamente para pensar sobre a vida e a interrupção dela. Na mitologia grega, as Moiras são as responsáveis pelo destino, tanto dos mortais como dos deuses. Elas são três e, através da Roda da Fortuna (e por mais uma dessas coincidências inexplicáveis, enquanto estou escrevendo, começa a rodar no rádio justamente a “A fortuna”, parte da cantata Carmina Burana, de Carl Orff), fabricam, tecem e depois cortam o fio da vida. Quando o fio está no topo da roda, são os momentos bons. Na parte de baixo, estamos com má sorte. Por isso, quando as coisas acontecem, costumo dizer “é a roda, é a roda”. A mais temida das Moiras é a Átropos, responsável por cortar o fio, orientada por Tânatos, a personificação da morte. É o fim da existência do indivíduo.
O que vem depois? Para a mitologia grega, as almas vão para o Hades. Eu, particularmente, não acredito em outro plano. Uso sempre uma frase do escritor russo Vladimir Nabokov: “nossa existência é um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”. Não há nada antes e nem depois. Há tão somente a vida e a ausência dela. O que dói é quando essa vida se ausenta, é a falta dela no nosso convívio. É a dor que sinto nos últimos dias pela perda do meu pai.
Quiseram as Moiras ou o Moro, deus do destino, que não fôssemos à festa de aniversário da neta do meu pai naquele dia. Nesse momento surge o famoso “e se...”. E se tivéssemos ido à cidade vizinha para abraçar a pequena cujo fio da vida roda há apenas dois anos, o pai não teria atravessado a rua na faixa de segurança e o motociclista imprudente não o teria atingido de forma violenta? E se um conhecido que viu meu pai passando na frente da sua casa o tivesse chamado para tomar um chimarrão, ele ainda estaria entre nós?

Não, não existe “e se...”. Existe a vida como uma roda que de repente para. Há rodas que param, outras que continuam. As rodas de um carro pararam para o pai atravessar a rua. As rodas da moto não. O fio da vida do pai foi cortado, mas o nosso fio continua a ser tecido. Precisamos levar a lição para sermos prudentes, saber que por mais que façamos o certo, os outros fazem o errado e esse erro pode nos afetar. E precisamos aprender a viver a vida da forma como gostamos de vivê-la. E isso o meu pai fez, da sua maneira, errando e acertando, foi uma de suas lições. Ainda gerou sete novas vidas que por sua vez, até o momento, geraram outras seis vidas e essas rodas continuam rodando, rodando...

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