sexta-feira, setembro 30, 2016

No Traçando livros de hoje , "Só faltou o título"


(Minha coluna no jornal Gazeta do Sul de hoje, Caderno Mix.)

Só falta você ler
Cassionei Niches Petry

Escritor frustrado vomita impropérios sobre autores bem-sucedidos e editoras que não o publicam e é julgado por assassinato de jovem amante. Este resumo, que cabe nos 140 caracteres do Twitter, não dá conta de apresentar o romance Só faltou o título, de Reginaldo Pujol Filho (Record, 322 páginas, disponível também em e-book). Não estamos apenas diante de mais uma ficção metaficcional em que um escritor é o protagonista, tampouco leremos uma narrativa policial tradicional. Temos à disposição, senhoras e senhores, mancebos e moçoilas, uma obra ousada, que ainda não foi devidamente lida e analisada como deveria. Só falta uma boa crítica, que ainda não será esta.
O narrador e protagonista é Edmundo Dornelles. Em suas anotações, a que denomina de esforços de memória, memórias esquecíveis e outras denominações, lembra o seu trabalho de revisor de, segundo ele, “pseudoliteratura de quinta categoria” ou da “nata do excremento da literatura nacional”. Enquanto isso, sua obra é desprezada pelas mesmas editoras que solicitam seus serviços, entre elas a Record (e aqui há citações de empresas e pessoas sem nenhum pudor). Também relata as discussões com sua companheira, Babi, que o considera um inútil. Conflitos é o que não faltam no enredo.
Ele menciona a todos e a tudo pelo nome, sem poupar adjetivos negativos, inclusive amigos pessoais do próprio autor do livro são alvos de Edmundo Dornelles: “a medonha L&PM Editora”, Luis Fernando Verissimo é “um comediantizinho comunista”, a Palavraria, de Porto Alegre, é uma “livrariazita metida à besta, antro de idiotizados de oficina”, o Amílcar Bettega é “Amílcar Sei Lá o Quê”, o Marcelino Freire é “Marcelino Qualquer Coisa”, o jornal Zero Hora é “um embrulho de peixe com grife”, sua editora manda para revisar “coisas insuportáveis de Cristóvãos Tezzas e Rodrigos Xerxeneskys e Altaires Martins com suas bundamolices umbigólatras”. Nisso ele se assemelha a Marcelo Mirisola, autor do romance A vida não tem cura, seu lançamento mais recente.
Edmundo Dornelles é um Paulo Coelho às avessas, pois vê o universo conspirando sempre contra ele e nunca a seu favor. E sem vender nem 0,1% do que vende o mago. Sua obra, publicada em “parceria” com uma editora sob demanda (esta uma das poucas fictícias, pelo menos não a encontrei pesquisando no Google), se acumula em caixas dentro de seu apartamento. É um "Escritor Encaixotado", definição criada pelo Reginaldo Pujol Filho no ensaio sobre o romance elaborado como dissertação de conclusão no Mestrado em Escrita Criativa da PUC do Rio Grande do Sul. Se já me identificava com o narrador Eduardo Dornelles, agora mais ainda, pois também me sinto um escritor encaixotado, não conseguindo vender acima de três dígitos de volumes que foram publicados às próprias custas.
Só falta dizer que o romance é muito, muito bom. Divertido, prende o leitor até o final, pois queremos saber se Edmundo realmente matou a jovem amante. Quando percebemos o que realmente aconteceu, ainda assim ficamos na dúvida se o que ele narra é verdade ou não. Pujol consegue, depois de escrever dois livros de contos, Azar do personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho (neste último, além da ousadia de pôr o próprio nome no título, o escritor foi brilhante na imitação de estilos de diversos escritores), elaborar um romance metaficcional de primeiríssima ordem. Só falta você também lê-lo, caro leitor.

Cassionei Niches Petry é escritor e professor. Publicou Arranhões e outras feridas e Os óculos de Paula, obra que, como o romance de Reginaldo Pujol Filho, também serviu como parte de sua dissertação de mestrado. Seu blog: cassionei.blogspot.com.

quinta-feira, setembro 29, 2016

Possíveis títulos para um texto sobre educação inspirado na obra daquele que não podemos criticar

Pedagogia do comprimido.
Pedagogia do deprimido.
Pedagogia do reprimido.
Pedagogia do proibido.
Pedagogia do Smilinguido.
Pedagogia do indefinido.
Pedagogia do assumido.
Pedagogia do sumido.
Pedagogia do sabido.
Pedagogia do exprimido.
Pedagogia do partido.
Pedagogia do sem partido.
Pedagogia do bipartido.
Pedagogia do repartido.
Pedagogia do dividido.
Pedagogia do colorido.
Pedagogia do extorquido.
Pedagogia do aturdido.
Pedagogia do fedido.
Pedagogia do falido.
Pedagogia do combalido.
Pedagogia do foragido.
Pedagogia do abduzido.
Pedagogia do despedido.
Pedagogia do distraído.
Pedagogia do exibido.
Pedagogia do fingido.
Pedagogia do grunhido.
Pedagogia do iludido.
Pedagogia do punido.
Pedagogia do abatido.
Pedagogia do vencido.
Pedagogia do impedido.

Pedagogia do temido.

domingo, setembro 25, 2016

Nem eu me entendo

Sou um cara que não viu e não gostou. Sou um cara que escreve à mão e depois não entende o que escreveu. Sou um cara que escuta, mas não houve direito, cheira sem reconhecer os aromas e tem o paladar apurado que não difere o gosto de uma salada de maionese de batata da salada de maionese de mandioca. Assiste a um filme e esquece o que assistiu, lê livros e esquece o que leu, ouve música e depois, quando a ouve pela segunda vez, não lembra se a já tinha ouvido antes.
Sou um cara humilde e genial. Sou um cara cuja beleza é feia e a feiura bonita. Sou um cara que tem ideias maravilhosas que não servem para nada. Sou um cara cuidadoso que derruba tudo que encontra pelo caminho, fuma cachimbo, depois chupa Halls para não ficar com o gosto do fumo na boca, gosta do frio, mas é friorento, toma café forte, mas com bastante açúcar.
Sou um cara ateu que acredita em um deus, Kafka, um deus todo-poderoso e fracote, cuja grandiosidade está em ser um inseto inferior e cuja coragem é ter medo do mundo. Sou um cara desorganizado que gosta de tudo no seu devido lugar, que é justamente o lugar onde não consegue encontrar o que deseja. Sou um cara persistente que desiste no primeiro tombo. Sou um cara que pensa sempre no suicídio, porém jamais pensou em se suicidar, pois ama tanto a vida que chega a ter ódio de viver.
Sou um cara cuja memória é impecável, se lembra de tudo, por isso se esquece de lembrar alguma coisa, pois se lembra que tinha de se lembrar de outra coisa antes. Aliás, não estou lembrando sobre o que iria escrever agora.    
Sou um cara rebelde e conservador. Sou um cara que olha para frente e para trás. Sou um cara que preza a liberdade de ficar preso dentro de casa. Sou um cara que ama estar com a família e com os amigos, mas quando está com a família e com os amigos, gostaria de estar lendo ou escrevendo na sua biblioteca.
Sou um cara decidido a ser indeciso. Sou um cara que gostaria de ser lido por muitas pessoas, entretanto não escreve para agradar o leitor. Sou um cara como o eu lírico de Camões, que sente uma dor que não dói, que anda solitário entre as pessoas, que perde quando ganha e jamais ganha quando perde.

Sou um cara, portanto, igual a todo mundo justamente por ser diferente de todo mundo, por gostar de coisas diferentes como todo mundo, por pensar diferente como todo mundo pensa, por viver diferente como todo mundo vive. Sou um cara, portanto, que gostaria de ser compreendido, no entanto nem entende a si próprio. Sou o cara que escreveu essa crônica e chegou à conclusão de que não deveria tê-la escrito, muito menos deveria publicá-la. E se você está lendo, leitor, é porque esse cara perdeu o controle de si mesmo. Pode condená-lo, mas o perdoe depois.   

segunda-feira, setembro 19, 2016

Mais um minutinho, seu juiz!


“Nasce o Sol e não dura mais que um dia.” Esses são os versos iniciais de um soneto de Gregório de Matos, poeta barroco, de um longínquo século XVII. Fala sobre o tempo, a efemeridade do tempo. Tudo passa tão rapidamente, pelo menos depois que ultrapassamos certa idade, e não damos conta de realizarmos tudo que queremos. Num piscar de olhos, num flash de uma máquina fotográfica, num estalar de dedos, tudo acaba. Recém estou “no meio do caminho desta vida”, para usar dos versos de Dante Alighieri, mas a transitoriedade da existência me afeta, principalmente quando penso nos livros que ainda tenho que ler e não consigo. “A vida é breve, a arte é longa. A ocasião fugidia”, escreveu Hipócrates, o pai da medicina.
Como não acredito em vida após a morte, tento viver intensamente, todos os dias, fazendo coisas de que gosto. “Carpe diem” (do latim, significa “colha o dia”, “aproveite o momento”) é um dos meus lemas. Conheci a expressão através do filme “Sociedade dos poetas mortos”, depois soube que era do poeta latino Horácio: “Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de amanhã.” Ler, ouvir boa música (às vezes até as ruins, mas que marcaram outros momentos da minha vida), escrever, beber café e conviver com a família são o suficiente para minha felicidade. Com relação aos livros, porém, a quantidade que desejo ler é enorme e isso me frustra.
Sêneca, filósofo que viveu na Roma Antiga, talvez seja o que mais tenha se debruçado sobre o tema da brevidade da vida. Em carta ao amigo Lucílio, disse que se indignava “com aqueles que desperdiçam com coisas supérfluas a maior parte desse tempo que já não é suficiente para as coisas necessárias”. Também escreveu: “a vida, se souberes viver, é longa”. Cada indivíduo, porém, tem suas escolhas. O que é importante para mim pode não o ser para outra pessoa, apesar de ter certeza que a leitura deveria ser relevante para todo mundo.
O tempo devora tudo. Cronos, o deus do tempo na mitologia grega, em uma das versões do mito engolia seus filhos para que eles não tomassem o seu poder. Devemos lembrar também as Moiras, responsáveis pelo destino segundo os gregos. Elas fabricam, tecem e cortam o fio da vida. Ou seja, através delas, e mais precisamente através de Átropos, a vida pode ser mais curta ainda, dependendo de como gira a Roda da Fortuna. Faz-se mais necessário ainda saber aproveitar o tempo que temos. Peço a elas para não cortarem o meu fio antes de ler tudo o que quero.
Tentamos, às vezes, fazer um acordo com o tempo (Caetano Veloso). Ele será, porém, sempre superior em suas decisões. Por mais que tentemos argumentar, “ele ri, ele zomba” de nós, pois ele sabe passar e nós não (Aldir Blanc). Quando eu chegar aos 45 minutos do segundo tempo, espero que o juiz dê mais alguns minutos de acréscimo ao jogo. Um minuto pode ser o suficiente para ler pelo menos mais uma página e fazer a existência ter valido a pena.

sábado, setembro 17, 2016

Acabei de descobrir que fui traduzido para o inglês!


Acabei de descobrir que fui traduzido para o inglês! Na verdade, a Agência Villas-Boas & Moss apenas traduziu um trecho da minha resenha sobre o romance "A segunda pátria", do Miguel Sanches Neto (publicada na minha coluna no site Digestivo Cultural), no catálogo de divulgação para a Feira de Frankfurt, na Alemanha, no ano passado.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Breve resenha sobre um livro hediondo


Há oito anos, David Foster Wallace cometia suicídio, enforcando-se na garagem de sua casa em Claremont, na Califórnia, EUA, que servia também como local de escrita. Já escrevi sobre seu romance e o livro de ensaios lançados por aqui. Hoje me detenho nos contos do livro recentemente reimpresso pela Companhia das Letras: Breves entrevistas com homens hediondos (373 páginas, tradução de José Rubens Siqueira).
É interessante como ele consegue dilatar um momento aparentemente banal da vida de alguém, como no conto “A morte não é o fim”. Um escritor premiado está deitado à beira de uma piscina, lendo, e a história aparentemente é só isso. Aparentemente, frisa-se, pois sempre seus textos escondem uma camada de significados. Também à beira da piscina, dessa feita esperando na fila para pular pela primeira vez de um trampolim, um menino, no seu aniversário de 13 anos, amadurece, sendo a altura do salto o emblema disso: “Agora que está em cima, dá pra ver a coisa toda”.
O conto que dá título ao livro traz depoimentos de personagens estranhos, como o que sofre de coprolalia, ou seja, grita descontroladamente frases escatológicas enquanto mantém relações sexuais. O conto é construído a partir de perguntas e respostas gravadas por um interlocutor, cuja fala nunca é transcrita, ou então por diálogos com a rubrica “ouvidos por acaso”. “Breves entrevistas...” aparece ao longo do livro, em capítulos intercalados com as outras histórias. Lemos ainda sobre um homem que descreve, com riquezas de detalhes, um banheiro público onde seu pai trabalhava. Em outra entrevista, um homem com apenas o toco do braço, semelhante a uma barbatana, fala sobre como utiliza esse membro para se aproximar das mulheres.
“Octeto” também é construído através de perguntas e respostas, desta vez num tipo de “quiz” que trata de dilemas éticos. É um conto metalingüístico, “ciclos de peças beletristas muito curtas. O narrador analisa as peças anteriores e, através de notas de rodapés, marca características dos textos de David Foster Wallace, discute como deveriam ser escritas.
Um conto bem construído é “Sem querer dizer nada”, em que um jovem lembra de um fato inusitado, bizarro mesmo, que aconteceu na sua infância: seu pai balançando o pênis na sua frente. Memória inventada? Ato tresloucado e único de seu genitor? A figura de um pai estranho é uma constante na obra de DFW e é o mote de seu aclamado romance, Graça infinita.
O suicídio (ou a possibilidade de o indivíduo cometer suicídio) está presente em “A pessoa deprimida” e “Suicídio como espécie de presente”. O primeiro é um emaranhado de reflexões da mente de uma mulher que sofre de depressão e só poderia ser escrito por alguém que conviveu com essa doença e não a suportou, que é o caso de DFW.
Há alguns contos ilegíveis, como “Datum centurio”, um texto todo codificado que, acredito, só quem sabe a linguagem da computação possa entender, assim como é muito confuso o conto “Adult World (II)”. São os baixos de uma obra irregular, que tem como um dos seus trunfos causar estranhamento, repulsa, por isso a considero tão hedionda como o são seus personagens.

Infelizmente a Companhia fez apenas uma reimpressão e não uma nova edição. A ortografia é antiga e falta um prefácio que situe os leitores numa obra tão complexa. Esperamos, agora, pela publicação dos outros dois livros de contos de David Foster Wallace, Girl with curious hair e Oblivion: stories, que são, sob meu ponto de vista, superiores ao agora relançado.

sábado, setembro 10, 2016

Quem é mesmo massa de manobra?

A música “Admirável gado novo”, de Zé Ramalho, é sempre utilizada por defensores de algumas ideologias para criticar pessoas que, segundo eles, vivem metaforicamente uma “vida de gado”, seguem a manada sem questionar, são massa de manobra, marcados pelos poderosos que são os donos de suas mentes. O engraçado disso tudo é que a música serve também para esses mesmos críticos que defendem cegamente ideias de um partido (ou de partidos que se desmembraram do próprio partido), repetem palavras de ordem, repercutem notícias falsas, leem somente autores que seus partidários sugerem, ignoram acusações contra seus confrades (mas ampliam as denúncias contra os adversários) e reproduzem um pensamento único, que não deve ser questionado.
A composição do artista paraibano, autor de outros clássicos de nossa canção, como “Avôhai” e “Chão de giz”, foi inspirada no romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932. No enredo, num futuro não muito distante, as pessoas nascem em laboratórios e têm os genes condicionados para assumirem funções preestabelecidas na sociedade. Após, são vítimas de condicionamento psicológico. O intuito é que o “cidadão” torne-se o que os governantes querem que ele se torne. Suas ações, portanto, seguirão regras já previamente estipuladas, desde o que comprar, no que trabalhar, como e com quem se relacionar, os modos de se divertir e até a droga que se deve usar. Apesar de controladas, as pessoas são felizes. Nunca, entretanto, são incentivadas a ter pensamento próprio. Fazer parte do rebanho, ser uma ovelhinha feliz, pronta para ser devorada pelo lobo, é com isso que as pessoas estão acostumadas: (...) homens sãos de espírito, obedientes, satisfeitos em sua estabilidade.” 
Nietzsche, por seu turno, escreveu, em Além do bem e do mal, que os seres humanos possuem “a moral de animais de rebanho”. Para esses cordeirinhos, "a única moral sou eu e não há outra moral além de mim!" O filósofo alemão se refere à religião. Se pensarmos, porém, que muitos tomam seu partido como seita, seus líderes como santos imaculados e suas frases feitas como dogmas, a analogia também faz sentido para as questões ideológicas. Deixamos a condição de humanos ao sermos levados para o abate, agindo conforme determinam as cabeças de movimentos que se sustentam justamente pela ideia de coletividade.
Observo nas redes sociais uma onda de pensamento que segue padrões coletivos, organizados, que invadem de maneira ofensiva comentários de postagens daqueles fogem à regra. Uma das máximas é que o indivíduo que ousou dizer algo diferente deve ler mais, ficando subtendido que a leitura deve ser de acordo com a cartilha de espectro ideológico e partidário de quem ataca. Leitura diferente disso não vale.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset, no seu clássico A rebelião das massas (que tem edição recente pela Vide Editorial), escreve que “massa é aquele que não se valoriza a si mesmo” e que “se sente à vontade ao sentir-se idêntico aos demais”. É bom fazer parte da massa quando queremos apenas nos divertir, como num show de uma banda de rock, em que fazemos tudo o que vocalista no palco nos manda fazer (Freddie Mercury conduzindo o público nas apresentações do “Queen” era algo hipnotizante). Quando envolve política, porém, seguir a massa nas ruas é ser gado levado para o abate, ser de massa de manobra pensando que está deixando de sê-lo. As ruas são a baia que confina. Sair da baia é a verdadeira rebeldia. 

sexta-feira, setembro 09, 2016

Philip Roth no Traçando Livros de hoje


Autobiografia (?) de Philip Roth

Philip Roth anunciou há alguns anos que não irá mais escrever. A Companhia das Letras aproveita, então, para lançar por aqui um livro dele que ainda não foi traduzido. Trata-se de Os fatos: a autobiografia de um romancista (Tradução de Jorio Dauster, 240 páginas), originalmente publicado em 1988.
Se a obra pretende ser uma autobiografia, como promete o subtítulo, na verdade a vejo como outra peça literária e ficcional do autor disfarçada de não-ficção. Em Roth libertado: o escritor e seus livros, obra também publicada pela Companhia das Letras, sua biógrafa Claudia Pierpont explica que Os fatos “é na maior parte uma biografia franca, sem rebuscamentos”, e que Roth havia chamado “o livro de uma sequência de O avesso da vida; chegou a dizer que era o ‘avesso da minha vida’- isto é, de sua vida não transformada pela ficção.”
Com intuito de desvendar o que verdadeiramente estava por trás de suas primeiras narrativas, Roth conta fatos de sua vida desde a infância, passando pela universidade e depois a publicação e repercussão de suas primeiras obras. Ora, para quem leu seus primeiros livros, os fatos são facilmente identificados, como por exemplo, a trapaça que sua ex-esposa lhe fez ao fingir que estava grávida, artimanha utilizada por uma personagem em As melhores intenções, romance que merece uma nova edição no Brasil. Também prova, no entanto, ou tenta provar, que seus pais não foram contra a publicação de seus primeiros contos, geradores de uma perseguição da comunidade judaica, que o julgava antissemita.
Nathan Zuckerman, seu alter ego, aparece nesse livro, só que agora como interlocutor do próprio Roth, que lhe enviara o manuscrito para que lesse e avaliasse. Numa carta ao final, que salva a obra, diga-se de passagem, Nathan Zuckerman sugere ao seu criador que não publique o manuscrito: “é muito melhor escrever sobre mim do que informar ‘escrupulosamente’ sobre sua própria obra.” Curiosamente esta obra nunca é mencionada no ciclo de romances em que aparece esse personagem, autor de Carnovski. Deveria.
Zuckerman conta ainda na carta como está seu relacionamento com a esposa, Maria, depois do que foi narrado em O avesso da vida, sendo que ela também é personagem deste romance e lê o manuscrito de Roth, opinando sobre ele. Ela aparece em Os fatos na figura de May que, por sua vez, refere-se a uma mulher com quem Roth teve um caso na vida “real”. 
“Que relação existe entre esta ficção e tua realidade presente?”, pergunta Nathan na carta. Roth não responde. Para Claudia Pierpont, fica implícito em Os fatos “que a única maneira de chegar à verdade é através da ficção. Daí o cândido conselho de Zuckerman acerca do texto de Roth: ‘Não o publique’”.
Para o leitor, fica sempre aquele pé bem atrás sobre o que é ou não verdade nas obras do autor. É esse jogo que torna Os fatos: a autobiografia de um romancista uma obra imprescindível. Finalmente aportou por estas bandas. Esperamos ainda que os demais livros do escritor ainda inéditos ou esgotados no Brasil sigam o mesmo caminho.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Mais uma sincronicidade junguiana


Faço sempre uma lista das leituras e filmes a que vou assistindo durante o ano. Agora há pouco, numa sincronicidade junguiana, depois de digitar um dos filmes vistos, apareceu um número que tem tudo a ver com o enredo. Quem assistiu, sabe.