Avançar para o conteúdo principal

Mais um minutinho, seu juiz!


“Nasce o Sol e não dura mais que um dia.” Esses são os versos iniciais de um soneto de Gregório de Matos, poeta barroco, de um longínquo século XVII. Fala sobre o tempo, a efemeridade do tempo. Tudo passa tão rapidamente, pelo menos depois que ultrapassamos certa idade, e não damos conta de realizarmos tudo que queremos. Num piscar de olhos, num flash de uma máquina fotográfica, num estalar de dedos, tudo acaba. Recém estou “no meio do caminho desta vida”, para usar dos versos de Dante Alighieri, mas a transitoriedade da existência me afeta, principalmente quando penso nos livros que ainda tenho que ler e não consigo. “A vida é breve, a arte é longa. A ocasião fugidia”, escreveu Hipócrates, o pai da medicina.
Como não acredito em vida após a morte, tento viver intensamente, todos os dias, fazendo coisas de que gosto. “Carpe diem” (do latim, significa “colha o dia”, “aproveite o momento”) é um dos meus lemas. Conheci a expressão através do filme “Sociedade dos poetas mortos”, depois soube que era do poeta latino Horácio: “Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de amanhã.” Ler, ouvir boa música (às vezes até as ruins, mas que marcaram outros momentos da minha vida), escrever, beber café e conviver com a família são o suficiente para minha felicidade. Com relação aos livros, porém, a quantidade que desejo ler é enorme e isso me frustra.
Sêneca, filósofo que viveu na Roma Antiga, talvez seja o que mais tenha se debruçado sobre o tema da brevidade da vida. Em carta ao amigo Lucílio, disse que se indignava “com aqueles que desperdiçam com coisas supérfluas a maior parte desse tempo que já não é suficiente para as coisas necessárias”. Também escreveu: “a vida, se souberes viver, é longa”. Cada indivíduo, porém, tem suas escolhas. O que é importante para mim pode não o ser para outra pessoa, apesar de ter certeza que a leitura deveria ser relevante para todo mundo.
O tempo devora tudo. Cronos, o deus do tempo na mitologia grega, em uma das versões do mito engolia seus filhos para que eles não tomassem o seu poder. Devemos lembrar também as Moiras, responsáveis pelo destino segundo os gregos. Elas fabricam, tecem e cortam o fio da vida. Ou seja, através delas, e mais precisamente através de Átropos, a vida pode ser mais curta ainda, dependendo de como gira a Roda da Fortuna. Faz-se mais necessário ainda saber aproveitar o tempo que temos. Peço a elas para não cortarem o meu fio antes de ler tudo o que quero.
Tentamos, às vezes, fazer um acordo com o tempo (Caetano Veloso). Ele será, porém, sempre superior em suas decisões. Por mais que tentemos argumentar, “ele ri, ele zomba” de nós, pois ele sabe passar e nós não (Aldir Blanc). Quando eu chegar aos 45 minutos do segundo tempo, espero que o juiz dê mais alguns minutos de acréscimo ao jogo. Um minuto pode ser o suficiente para ler pelo menos mais uma página e fazer a existência ter valido a pena.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Um toque

Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses. Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello. O toque é a preliminar do prazer…