Sobre "Pequenos engasgos", de Alê Motta


Brevidade e maturidade de uma grande escritora

por Cassionei Niches Petry
 

Quando me debrucei pela primeira vez sobre a literatura de Alê Motta, por ocasião do lançamento de Interrompidos, de 2017, assumo que me equivoquei em uma das minhas projeções críticas. Naquela resenha, impactado pela síntese das micronarrativas e pelo uso de instantâneos fotográficos da própria autora que dialogavam com o texto, registrei a expectativa de que Alê Motta não se fixasse exclusivamente nas narrativas minimalistas. Argumentava, à época, que o sistema literário demandava enredos mais desenvolvidos, cenários abrangentes e personagens cujos contornos permanecessem por mais tempo na memória do leitor, temendo que a brevidade excessiva corresse o risco de soar como mero exercício de oficina literária.

Dois anos mais tarde, ao resenhar Velhos, em 2020, fui forçado a rever esse pressuposto. A autora não apenas manteve a sua veia minimalista, como abriu mão do apoio visual das fotografias, provando que a palavra nua e crua bastava para construir um universo devastador. Como observei naquele segundo momento, Alê Motta alcançou outro patamar estético ao lapidar a dor da senilidade, a perversidade e o abandono urbano, refutando a ideia de que o miniconto seria uma limitação de projeto, ponto em que o escritor Itamar Vieira Júnior acertadamente enfatizou ao preferir não reduzir sua obra ao rótulo simplista de microconto.

Em 2024, ao analisar o seu romance de estreia, Minha cabeça dói, sintetizei sua trajetória com uma premissa: a escritora pode até ter saído do miniconto ao aventurar-se pela narrativa longa, mas o miniconto jamais saiu dela. O romance mantinha-se compacto, com menos de noventa páginas, carregado de uma dosagem máxima de tensão e dor retida.

Agora, com Pequenos engasgos, publicado pela Editora Faria e Silva, assistimos à confluência perfeita desses caminhos anteriores. O novo livro não é apenas o retorno à forma curta, mas a consolidação de uma maturidade formal em que o fragmento se organiza com a coerência interna de um painel coletivo. Se em Interrompidos a morte era o motor central e em Velhos a finitude humana ditava o tom, em Pequenos engasgos a falta da moral e a desumanidade das cidades são a matéria-prima.

No texto de apresentação, a escritora Cíntia Moscovich assinala que o volume transcende a mera classificação de micro ou mininarrativas para ser lido como um "romance de cenas". Embora seja composto por dezenas de relatos independentes, germinados, como revela a autora, a partir de fotografias de fachadas ociosas, portas e janelas de cidades brasileiras, existe uma espinha dorsal narrativa que atravessa as quatro seções do livro e confere à obra a unidade de um romance fragmentário.

Essa espinha dorsal é protagonizada por um narrador em situação de rua e seu cão, Pelé, que conheceu em um posto Shell lambendo as tripas de um passarinho morto e os restos de um Big Mac. A história desse homem sem nome abre a obra na Seção I: ele e Pelé dormiam sob a marquise de uma grande loja de serviços automotivos, acolhidos especificamente em frente à porta de enrolar onde se lia "Pneus", o ponto central da fachada que os protegia do vento gelado vindo da praia. A expulsão violenta por homens durante a madrugada de uma segunda-feira, acompanhada de chutes na cabeça e no peito que lhe custaram dois dentes e a destruição de seus papelões pelo tráfego de carros, marca o início de uma perambulação dramática.

Ao longo do livro, o leitor acompanha o itinerário dessa dupla expulsa da loja demolida para a construção de um condomínio. Na Seção II, eles buscam abrigo sob um viaduto, convivendo com brigas, cantorias e a desolação, até serem enxotados pela prefeitura sob o pretexto de "não poluir a vista do desfile cívico de Sete de Setembro". Na Seção III, refugiam-se em um sobrado decrépito com dezenas de outros despossuídos, local que acaba criminosamente incendiado,  tragédia na qual morreram sete pessoas e oito ficaram feridas, desgraça noticiada na televisão com o cínico contraponto de que os próprios moradores de rua teriam ateado fogo de tão drogados que estavam. Por fim, na Seção IV, o narrador e Pelé encontram abrigo temporário na areia da praia, escondendo-se sob canoas havaianas antes das seis da manhã, enquanto observam um garotinho jogando futebol com a camisa do goleiro Neuer, do Bayern de Munique. É nesse encerramento que o leitor descobre o contraste estarrecedor de seu passado com a situação atual.

Ao trançar esse relato contínuo entre os instantâneos dos transeuntes e moradores das casas fotografadas, Alê Motta constrói um movimento pendular. A narrativa do morador de rua funciona como uma linha que guia o leitor na crueza da marginalidade urbana, enquanto as dezenas de pequenas histórias colaterais revelam a podridão moral e a solidão reprimida que habitam o interior das residências e dos edifícios aparentemente arruinados ou abastados.

A epígrafe, um versículo de Jeremias 17:9 ("Enganoso é o coração, mais que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?"), serve como chave de leitura para todo o volume. Os "engasgos" a que o título se refere não são meras obstruções físicas; são os nós na garganta provocados pelo desespero, pela culpa, pela violência doméstica, pelo preconceito estrutural e pela dissimulação social.

A prosa de Alê Motta opera por elipses. A autora domina a arte de sugerir a tragédia nos bastidores de gestos ordinários. O leitor testemunha cenas de uma crueldade velada ou explícita.

No conto da casa de condomínio de classe média alta, pai e filha negros travam um diálogo banal sobre a geladeira vazia. Quando a filha sugere pedir comida ao vizinho, o pai responde com a amargura da realidade: "Somos os únicos pretos nessa merda de condomínio". Segundos após a porta se fechar com a saída da jovem, o som seco de um tiro encerra a cena, sem necessidade de explicitações sensacionalistas. No relato do dono da pequena loja de frangos assados, conhecido apenas por sua profissão, revela-se que sua intimidade esconde a brutalidade contra a esposa, deixada sangrando no chão da cozinha após ser espancada.

Em outra micronarrativa, uma mulher simula uma queda espetacular na escada rolante de um shopping lotado, sendo socorrida por seguranças e curiosos compadecidos, enquanto seu companheiro aproveita a comoção coletiva para roubar na joalheria ao lado. O filho de um advogado conceituado arromba o consultório do pai e espalha álcool nas instalações antes de atear fogo, antecipando o telefonema sarcástico que dará no dia seguinte: "Quero ver se vai dizer que está com a agenda cheia, papai". Um vendedor de carros consegue participar da maratona ao lado do chefe para atirar nele no meio da corrida. Solto sete anos depois por bom comportamento, passa a morar de favor e a correr matinalmente dentro de um cemitério, onde "não há perigo de matar ninguém". Em outro trecho, o falecimento de uma vizinha de prédio que escorrega no banheiro e encrava a testa na maçaneta da porta desdobra-se na tragicomédia do corpo caindo da maca dos enfermeiros e rolando pela rampa da garagem até parar em um canteiro de cactos. O narrador lamenta não ter ido ao enterro apenas porque pretendia discursar para celebrar a morte da idosa que odiava.

Como em Interrompidos, em que o crime e o assassinato surgiam quase sem aviso, e em Velhos, no qual a demência e o preconceito corroíam a dignidade dos idosos, Pequenos engasgos condensa o mal em doses homeopáticas.

Alê Motta alcançou uma singularidade admirável na ficção brasileira contemporânea. Aquela minha dúvida anos atrás, sobre se a autora conseguiria sustentar uma carreira literária sem expandir seus textos para moldes narrativos tradicionais, encontra aqui sua resposta definitiva. Alê Motta não precisa de grandes volumes de páginas ou de tramas caudalosas para criar um impacto duradouro e se consolida como uma das vozes mais afiadas do minimalismo brasileiro.

(Vale um post scriptum: trecho da resenha sobre Interrompidos foi parar em um livro didático: https://cassionei.blogspot.com/2019/08/mais-um-texto-meu-foi-parar-em-um-livro.html)

Comentários

Mensagens populares