Sábado, Novembro 07, 2009

A irmandade da leitura


Crônica de Moacyr Scliar, na ZH deste domingo:

Numa época, era costume, entre alguns grupos de jovens, andar com um livro sob o braço. Era o que se chamava ironicamente de cultura de sovaco, e tinha uma dupla finalidade: ter sempre algo disponível para ler na fila do banco, ou na parada do ônibus, ou na lanchonete. Servia também para identificar o portador do livro como membro de uma irmandade: a irmandade da leitura, formada por aquelas pessoas que veem no texto uma privilegiada porta de acesso ao mundo em que vivemos. E que são ajudadas por esta peculiaridade da anatomia humana, que é a conformação da axila. O sovaco não é bem algo do qual possamos nos orgulhar; jamais alguém dirá de um homem algo como: Que belo sovaco ele tem!. Ao contrário, a axila é a principal fonte do CC, o Cheiro de Corpo, que faz a alegria da poderosa indústria do desodorante. Mas, humilde como é, o sovaco revelou-se, para a literatura, um abrigo ideal. A tarefa de levar o livro fica consideravelmente simplificada, porque as mãos ficam livres. Além disso, o sovaco fica perto da intimidade do corpo, do coração que bate mais forte com as emoções da leitura, dos pulmões, que nos lembram a inspiração, literária, inclusive.
As pessoas que fazem parte da irmandade da leitura reúnem alguns característicos especiais. Em primeiro lugar, têm uma necessidade quase orgânica, quase visceral do texto; seu olhar só encontra tranquilidade e alegria quando pousa na página impressa, em geral de um livro, mas pode ser também um jornal, uma revista, uma bula de remédio – qualquer coisa para ler. Essas pessoas também têm uma atração irresistível por livrarias. Podem estar atrasadas, a caminho de um compromisso urgente, mas se passarem por uma livraria entrarão, e muito provavelmente sairão de lá com um livro (talvez no sovaco). E por último, mas não menos importante, essas pessoas ficam felicíssimas quando alguém, numa roda de conversa, pergunta: “Vocês já leram o último livro do...” Não importa o autor, ou a autora, não importa o título do livro; o que importa é que alguém vai falar em literatura, identificando-se, portanto, como membro da irmandade da leitura.
Muitas vezes a irmandade se institucionaliza sob a forma, por exemplo, de oficinas de leitura ou de grupos de leitura, atualmente muito comuns. Isto não tem impedido que algumas pessoas mostrem-se apreensivas em relação ao futuro do livro. Por causa das novas técnicas eletrônicas que, dizem, vão mudar o objeto chamado livro. A mim, particularmente, isso não preocupa. Há uns meses vi, no aeroporto de Chicago, um rapaz com o Kindle, aquele dispositivo eletrônico que permite baixar textos à distância. Ele carregava-o sob o braço. Nas axilas dos verdadeiros leitores há lugar para todas as aventuras do intelecto humano.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

O romance do indivíduo

Cartoon de Ward Sutton

Philip Roth, leitor de Machado de Assis? Confesso que me fiz essa pergunta ao começar a ler o seu novo romance, Indignação (Companhia das Letras, 170 páginas, tradução de Jorio Dauster), pois logo me veio à mente o personagem Brás Cubas, relatando, depois de morto, fatos de sua vida. O personagem do escritor norte-americano, porém, pensa que morreu, mas está na verdade sob efeito da morfina, como indica o título da primeira parte do livro.
Marcus Messner, jovem americano, vai estudar na universidade de Winesburg, longe de sua casa em Newark, para se livrar do seu pai, açougueiro kosher (uma espécie de açougueiro oficial dos judeus, pois sabe preparar a carne de acordo com os preceitos da religião) cuja marcação cerrada na sua vida o deixava indignado. Mas essa ainda não é a indignação que dá título ao livro.
Outro motivo para estar estudando é se livrar da Guerra da Coréia, iniciada em 1950. Esse episódio mostra mais uma vez a veia histórica dos textos de Roth, ao realizar uma análise da sociedade americana. Nesse caso, uma sociedade conservadora e controladora, anticomunista e religiosa ao extremo. Aliás, a questão religiosa é fundamental para o enredo e, estranhamente (ou não), esse fato não apareceu nas resenhas sobre a obra nos jornais e sites literários. E é aqui que está a indignação do título.
Messner era um ateu convicto, o que era praticamente um suicídio social. Em uma das passagens mais brilhantes da narrativa, o rapaz debate com o diretor da universidade, doutor Caudwell, sobre religião. Marcus se vale da leitura de uma conferência do filósofo Bertrand Russell, intitulada “Porque não sou cristão” e publicada em um livro com o mesmo nome. Um dos argumentos de Russell se refere à causa primeira de Tomás de Aquino. Diz o filósofo e matemático britânico: “Se tudo precisa ter uma causa, então Deus precisa ter uma causa. Se é possível existir alguma coisa sem uma causa, tanto pode ser o mundo quanto Deus.” E prossegue o jovem relatando o que decorou do livro. Caudwell responde dizendo que não se poderiam levar a sério os argumentos de um imoral como o britânico, considerado subversivo pelo governo americano. Mesmo com a possibilidade de ser expulso, Marcus não abre mão de seu pensamento, mantendo sua postura independente, o que para o diretor é uma fuga aos problemas. E é justamente essa sua postura religiosa a causa de sua morte, por se negar a assistir aos encontros religiosos obrigatórios. Philip Roth volta ao tema trabalhado no conto “O defensor da fé”, do seu livro de estréia Adeus, Columbus. O motivo de a crítica, principalmente a brasileira, não destacar esse fato também seria por medo de pressão dos religiosos?
Roth também volta a retratar um personagem jovem, como fez em O complexo de Portnoy, depois de vários romances que abordavam a velhice, principalmente de seus personagens mais recorrentes: Kepesh e Zuckerman. As memórias de Messner são de um rapaz procurando apenas viver sua vida sozinho, cuidar de si mesmo, estudar, não se envolver com nenhum grupo de pessoas. Porém, se vê arrastado pela ditadura do coletivo, do que os outros querem que você faça: seja o diretor que o quer fazendo amizades com os outros colegas e que acredite em Deus, ou seus colegas que o convidam para entrar em uma das irmandades da instituição, ou sua mãe a qual não o quer se envolvendo com uma mulher como Olivia, cujo os pulsos tinham cicatrizes, ou o país que o quer numa guerra, para morrer junto com outros jovens por uma causa que não é sua.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Poema de finados - Manuel Bandeira


Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vidaí
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

Falando em morte, amanhã publicarei aqui resenha sobre o romance Indignação, de Philip Roth.

Quando nasci, um anjo...


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

Drummond



“E eis que o anjo me disse apertando a minha mão entre um sorriso de dentes: vai, bicho, desafinar o coro dos contentes.”

Torquato Neto


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.

Adélia Prado


Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim

Chico Buarque



Quando nasci, um anjo de porcelana
que estava na entrada do hospital
caiu na minha cabeça e disse:
Vai, Cassionei, ser um professor estadual

Cassionei Niches Petry

Sábado, Outubro 31, 2009

"Flores" para download

A Cosac Naify disponibilizou para download, "de grátis", o livro Flores, do escritor mexicano Mario Bellatin. Acesse: http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/11321/Flores.aspx

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Anthem - Rush

Hino

(Anthem)

Música e Letra por Alex Lifeson, Geddy Lee e Neil Peart

Saiba que seu lugar na vida

É onde você quer estar

Não deixe que eles te digam que

"Você deve tudo isso a mim"

Continue olhando pra frente

Não há motivo para olhar para o lado

Mantenha sua cabeça acima das massas

E eles não irão te derrotar


Hino do coração e hino da mente

Uma música fúnebre para aqueles que ficaram cegos

Admiramos os que buscaram por

Novas maravilhas no mundo, maravilhas no mundo,

Maravilhas no mundo que eles construíram.


Viva por você mesmo, não há mais ninguém

por quem se valha à pena viver

Mãos que pedem e corações que sangram

Só irão clamar por mais


Bem, eu sei que eles sempre te disseram

Que o egoísmo é errado

Até porque foi pra mim e não pra você

Que acabei escrevendo esta canção.


Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Mais um concurso literário que participo, e mais uma decepção. Pergunto-me: será que devo continuar tentando ser escritor? Tapinhas nas costas já não adiantam mais.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Pepeu - Caixinha de surpresa

Um dos LP's que fizeram minha cabeça nos anos 90. Nesse link pus algumas faixas que achei na internet e outras tive que upar de uma fita k7, por isso não esperem boa qualidade de áudio. Velhos tempos do Rap nacional, na época em que eu arriscava uns "pezinhos" e um break nas rodas do Uniãozinho e Center Club Danceteria, aqui em SCS.
http://www.4shared.com/file/143127032/9f542aa7/Pepeu_-_Caixinha_de_Surpresa_por_cassioneiblogspotcom.html

Sábado, Outubro 17, 2009

Mais sobre Caim

Na Folha de São Paulo de hoje, o "filósofo" Luiz Felipe Pondé, critica o novo livro de Saramago e o avalia como ruim, simplemesmente porque o autor faz "birra com deus".

Apesar de trechos quase engraçados, obra é fraca e óbvia na birra com deus

Luiz Felipe Pondé

Existem escritores que beiram a unanimidade. Chegam a ser vistos como “um bem da humanidade”. Saramago é um desses. Alguns de seus títulos são mesmo pérolas. Viajei por Portugal lendo seu livro “Viagem a Portugal” e foi uma experiência fascinante. Infelizmente, seu mais recente romance, “Caim”, não faz jus a sua história. Mais do que isso, “Caim” aponta para alguns limites de sua interpretação de mundo, e isso é importante na obra de um escritor do porte de José Saramago.
Sua fórmula para discutir a herança bíblica está esgotada e é hoje conhecida por qualquer criança no jardim da infância: o ressentimento contra Deus porque existe sofrimento no mundo. Trata-se de um caso derivado do ressentimento do qual fala Nietzsche: você não suporta o sofrimento, então culpa algo, o deus de Saramago (escrevo aqui com minúscula, como ele escreve no livro), pelo sofrimento e sonha com um mundo sem dor (o mundo dos homens bonzinhos de Rousseau e seus derivados). Saramago torna explícito o fato que a crítica a Deus pode ser ela mesma uma forma de covardia diante da dureza da vida.
Saramago parece não ter percebido ainda que não é o “fator Deus” que leva os homens a serem a besta fera que são, mas sim o “fator Homem” que gera a bestialidade histórica de que ele tanto reclama. Como todo ateu (será mesmo?), não consegue deixar Deus em paz.
Em poucas palavras, afora a escrita, como sempre em cascata, e trechos quase engraçados, o livro é fraco e óbvio na sua birra. A raiva e o ressentimento para com deus nos fazem pensar que estaríamos diante de um palavrório adolescente. Como em todo ressentimento, falta humildade.
Carência afetiva
Caim, famoso por matar Abel, os dois filhos de Adão e Eva, é seu herói, revoltado contra deus e sua descarada preferência pelo irmão. Depois de apresentar Abel como um irmão que humilha seu irmão mal-amado (o que não bate com a tradição bíblica), Caim porá o dedo na cara de deus e cobrará dele o que eu chamaria de “afetividade democrática”: deus deveria amar a todos igualmente. O pobre Caim não consegue lidar com sua carência afetiva. Esse tipo de demanda dá sono.
Daí, Saramago se põe a reler vários eventos da Bíblia hebraica (ou Velho Testamento), tais como a torre de Babel, o dilúvio, o quase sacrifício do filho de Abraão, Isaac, entre outros, sempre a partir do ressentimento contra um deus que não ama a todos devidamente, assim como o irmão Chavez ama devidamente a todas as suas criaturas. Mesmo Lilith, figura máxima do feminismo bíblico ressentido, aparece como grande parceira de Caim nesta aventura que fala de como deus não é legal.
Saramago parece não perceber que grande parte do relato inicial da Bíblia fala da condição humana para além do que gostaríamos que ela fosse: somos frágeis, mortais, insuficientes, e por isso nos revoltamos. O sentido da vida é opaco para nossa inteligência.

Falou e disse...

“Do meu ponto de vista há apenas um lugar onde existe deus, ou o diabo, ou o bem e o mal, que é na minha cabeça. Fora da minha cabeça, fora da cabeça do homem não há nada.” José Saramago