domingo, setembro 25, 2016

Nem eu me entendo

Sou um cara que não viu e não gostou. Sou um cara que escreve à mão e depois não entende o que escreveu. Sou um cara que escuta, mas não houve direito, cheira sem reconhecer os aromas e tem o paladar apurado que não difere o gosto de uma salada de maionese de batata da salada de maionese de mandioca. Assiste a um filme e esquece o que assistiu, lê livros e esquece o que leu, ouve músicas e depois, quando a ouve pela segunda vez, não lembra se a já tinha ouvido antes.
Sou um cara humilde e genial. Sou um cara cuja beleza é feia e a feiúra bonita. Sou um cara que tem ideias maravilhosas que não servem para nada. Sou um cara cuidadoso que derruba tudo que encontra pelo caminho, fuma cachimbo, depois chupa Halls para não ficar com o gosto do fumo na boca, gosta do frio, mas é friorento, toma café forte, mas com bastante açúcar.
Sou um cara ateu que acredita em um deus, Kafka, um deus todo-poderoso e fracote, cuja grandiosidade está em ser um inseto inferior e cuja coragem é ter medo do mundo. Sou um cara desorganizado que gosta de tudo no seu devido lugar, que é justamente o lugar onde não consegue encontrar o que deseja. Sou um cara persistente que desiste no primeiro tombo. Sou um cara que pensa sempre no suicídio, porém jamais pensou em se suicidar, pois ama tanto a vida que chega a ter ódio de viver.
Sou um cara cuja memória é impecável, se lembra de tudo, por isso se esquece de lembrar alguma coisa, pois se lembra que tinha de se lembrar de outra coisa antes. Aliás, não estou lembrando sobre o que iria escrever agora.    
Sou um cara rebelde e conservador. Sou um cara que olha para frente e para trás. Sou um cara que preza a liberdade de ficar preso dentro de casa. Sou um cara que ama estar com a família e com os amigos, mas quando está com a família e com os amigos, gostaria de estar lendo ou escrevendo na sua biblioteca.
Sou um cara decidido a ser indeciso. Sou um cara que gostaria de ser lido por muitas pessoas, entretanto não escreve para agradar o leitor. Sou um cara como o eu lírico de Camões, que sente uma dor que não dói, que anda solitário entre as pessoas, que perde quando ganha e jamais ganha quando perde.

Sou um cara, portanto, igual a todo mundo justamente por ser diferente de todo mundo, por gostar de coisas diferentes como todo mundo, por pensar diferente como todo mundo pensa, por viver diferente como todo mundo vive. Sou um cara, portanto, que gostaria de ser compreendido, no entanto nem entende a si próprio. Sou o cara que escreveu essa crônica e chegou à conclusão de que não deveria tê-la escrito, muito menos deveria publicá-la. E se você está lendo, leitor, é porque esse cara perdeu o controle de si mesmo. Pode condená-lo, mas o perdoe depois.   

segunda-feira, setembro 19, 2016

Mais um minutinho, seu juiz!


“Nasce o Sol e não dura mais que um dia.” Esses são os versos iniciais de um soneto de Gregório de Matos, poeta barroco, de um longínquo século XVII. Fala sobre o tempo, a efemeridade do tempo. Tudo passa tão rapidamente, pelo menos depois que ultrapassamos certa idade, e não damos conta de realizarmos tudo que queremos. Num piscar de olhos, num flash de uma máquina fotográfica, num estalar de dedos, tudo acaba. Recém estou “no meio do caminho desta vida”, para usar dos versos de Dante Alighieri, mas a transitoriedade da existência me afeta, principalmente quando penso nos livros que ainda tenho que ler e não consigo. “A vida é breve, a arte é longa. A ocasião fugidia”, escreveu Hipócrates, o pai da medicina.
Como não acredito em vida além após a morte, tento viver intensamente, todos os dias, fazendo coisas de que gosto. “Carpe diem” (do latim, significa “colha o dia”, “aproveite o momento”) é um dos meus lemas. Conheci a expressão através do filme “Sociedade dos poetas mortos”, depois soube que era do poeta latino Horácio: “Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de amanhã.” Ler, ouvir boa música (às vezes até as ruins, mas que marcaram outros momentos da minha vida), escrever, beber café e conviver com a família são o suficiente para minha felicidade. Com relação aos livros, porém, a quantidade que desejo ler é enorme e isso me frustra.
Sêneca, filósofo que viveu na Roma Antiga, talvez seja o que mais tenha se debruçado sobre o tema da brevidade da vida. Em carta ao amigo Lucílio, disse que se indignava “com aqueles que desperdiçam com coisas supérfluas a maior parte desse tempo que já não é suficiente para as coisas necessárias”. Também escreveu: “a vida, se souberes viver, é longa”. Cada indivíduo, porém, tem suas escolhas. O que é importante para mim pode não o ser para outra pessoa, apesar de ter certeza que a leitura deveria ser relevante para todo mundo.
O tempo devora tudo. Cronos, o deus do tempo na mitologia grega, em uma das versões do mito engolia seus filhos para que eles não tomassem o seu poder. Devemos lembrar também as Moiras, responsáveis pelo destino segundo os gregos. Elas fabricam, tecem e cortam o fio da vida. Ou seja, através delas, e mais precisamente através de Átropos, a vida pode ser mais curta ainda, dependendo de como gira a Roda da Fortuna. Faz-se mais necessário ainda saber aproveitar o tempo que temos. Peço a elas para não cortarem o meu fio antes de ler tudo o que quero.
Tentamos, às vezes, fazer um acordo com o tempo (Caetano Veloso). Ele será, porém, sempre superior em suas decisões. Por mais que tentemos argumentar, “ele ri, ele zomba” de nós, pois ele sabe passar e nós não (Aldir Blanc). Quando eu chegar aos 45 minutos do segundo tempo, espero que o juiz dê mais alguns minutos de acréscimo ao jogo. Um minuto pode ser o suficiente para ler pelo menos mais uma página e fazer a existência ter valido a pena.

sábado, setembro 17, 2016

Acabei de descobrir que fui traduzido para o inglês!


Acabei de descobrir que fui traduzido para o inglês! Na verdade, a Agência Villas-Boas & Moss apenas traduziu um trecho da minha resenha sobre o romance "A segunda pátria", do Miguel Sanches Neto (publicada na minha coluna no site Digestivo Cultural), no catálogo de divulgação para a Feira de Frankfurt, na Alemanha, no ano passado.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Breve resenha sobre um livro hediondo


Há oito anos, David Foster Wallace cometia suicídio, enforcando-se na garagem de sua casa em Claremont, na Califórnia, EUA, que servia também como local de escrita. Já escrevi sobre seu romance e o livro de ensaios lançados por aqui. Hoje me detenho nos contos do livro recentemente reimpresso pela Companhia das Letras: Breves entrevistas com homens hediondos (373 páginas, tradução de José Rubens Siqueira).
É interessante como ele consegue dilatar um momento aparentemente banal da vida de alguém, como no conto “A morte não é o fim”. Um escritor premiado está deitado à beira de uma piscina, lendo, e a história aparentemente é só isso. Aparentemente, frisa-se, pois sempre seus textos escondem uma camada de significados. Também à beira da piscina, dessa feita esperando na fila para pular pela primeira vez de um trampolim, um menino, no seu aniversário de 13 anos, amadurece, sendo a altura do salto o emblema disso: “Agora que está em cima, dá pra ver a coisa toda”.
O conto que dá título ao livro traz depoimentos de personagens estranhos, como o que sofre de coprolalia, ou seja, grita descontroladamente frases escatológicas enquanto mantém relações sexuais. O conto é construído a partir de perguntas e respostas gravadas por um interlocutor, cuja fala nunca é transcrita, ou então por diálogos com a rubrica “ouvidos por acaso”. “Breves entrevistas...” aparece ao longo do livro, em capítulos intercalados com as outras histórias. Lemos ainda sobre um homem que descreve, com riquezas de detalhes, um banheiro público onde seu pai trabalhava. Em outra entrevista, um homem com apenas o toco do braço, semelhante a uma barbatana, fala sobre como utiliza esse membro para se aproximar das mulheres.
“Octeto” também é construído através de perguntas e respostas, desta vez num tipo de “quiz” que trata de dilemas éticos. É um conto metalingüístico, “ciclos de peças beletristas muito curtas. O narrador analisa as peças anteriores e, através de notas de rodapés, marca características dos textos de David Foster Wallace, discute como deveriam ser escritas.
Um conto bem construído é “Sem querer dizer nada”, em que um jovem lembra de um fato inusitado, bizarro mesmo, que aconteceu na sua infância: seu pai balançando o pênis na sua frente. Memória inventada? Ato tresloucado e único de seu genitor? A figura de um pai estranho é uma constante na obra de DFW e é o mote de seu aclamado romance, Graça infinita.
O suicídio (ou a possibilidade de o indivíduo cometer suicídio) está presente em “A pessoa deprimida” e “Suicídio como espécie de presente”. O primeiro é um emaranhado de reflexões da mente de uma mulher que sofre de depressão e só poderia ser escrito por alguém que conviveu com essa doença e não a suportou, que é o caso de DFW.
Há alguns contos ilegíveis, como “Datum centurio”, um texto todo codificado que, acredito, só quem sabe a linguagem da computação possa entender, assim como é muito confuso o conto “Adult World (II)”. São os baixos de uma obra irregular, que tem como um dos seus trunfos causar estranhamento, repulsa, por isso a considero tão hedionda como o são seus personagens.

Infelizmente a Companhia fez apenas uma reimpressão e não uma nova edição. A ortografia é antiga e falta um prefácio que situe os leitores numa obra tão complexa. Esperamos, agora, pela publicação dos outros dois livros de contos de David Foster Wallace, Girl with curious hair e Oblivion: stories, que são, sob meu ponto de vista, superiores ao agora relançado.

sábado, setembro 10, 2016

Quem é mesmo massa de manobra?

A música “Admirável gado novo”, de Zé Ramalho, é sempre utilizada por defensores de algumas ideologias para criticar pessoas que, segundo eles, vivem metaforicamente uma “vida de gado”, seguem a manada sem questionar, são massa de manobra, marcados pelos poderosos que são os donos de suas mentes. O engraçado disso tudo é que a música serve também para esses mesmos críticos que defendem cegamente ideias de um partido (ou de partidos que se desmembraram do próprio partido), repetem palavras de ordem, repercutem notícias falsas, leem somente autores que seus partidários sugerem, ignoram acusações contra seus confrades (mas ampliam as denúncias contra os adversários) e reproduzem um pensamento único, que não deve ser questionado.
A composição do artista paraibano, autor de outros clássicos de nossa canção, como “Avôhai” e “Chão de giz”, foi inspirada no romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, publicado em 1932. No enredo, num futuro não muito distante, as pessoas nascem em laboratórios e têm os genes condicionados para assumirem funções preestabelecidas na sociedade. Após, são vítimas de condicionamento psicológico. O intuito é que o “cidadão” torne-se o que os governantes querem que ele se torne. Suas ações, portanto, seguirão regras já previamente estipuladas, desde o que comprar, no que trabalhar, como e com quem se relacionar, os modos de se divertir e até a droga que se deve usar. Apesar de controladas, as pessoas são felizes. Nunca, entretanto, são incentivadas a ter pensamento próprio. Fazer parte do rebanho, ser uma ovelhinha feliz, pronta para ser devorada pelo lobo, é com isso que as pessoas estão acostumadas: (...) homens sãos de espírito, obedientes, satisfeitos em sua estabilidade.” 
Nietzsche, por seu turno, escreveu, em Além do bem e do mal, que os seres humanos possuem “a moral de animais de rebanho”. Para esses cordeirinhos, "a única moral sou eu e não há outra moral além de mim!" O filósofo alemão se refere à religião. Se pensarmos, porém, que muitos tomam seu partido como seita, seus líderes como santos imaculados e suas frases feitas como dogmas, a analogia também faz sentido para as questões ideológicas. Deixamos a condição de humanos ao sermos levados para o abate, agindo conforme determinam as cabeças de movimentos que se sustentam justamente pela ideia de coletividade.
Observo nas redes sociais uma onda de pensamento que segue padrões coletivos, organizados, que invadem de maneira ofensiva comentários de postagens daqueles fogem à regra. Uma das máximas é que o indivíduo que ousou dizer algo diferente deve ler mais, ficando subtendido que a leitura deve ser de acordo com a cartilha de espectro ideológico e partidário de quem ataca. Leitura diferente disso não vale.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset, no seu clássico A rebelião das massas (que tem edição recente pela Vide Editorial), escreve que “massa é aquele que não se valoriza a si mesmo” e que “se sente à vontade ao sentir-se idêntico aos demais”. É bom fazer parte da massa quando queremos apenas nos divertir, como num show de uma banda de rock, em que fazemos tudo o que vocalista no palco nos manda fazer (Freddie Mercury conduzindo o público nas apresentações do “Queen” era algo hipnotizante). Quando envolve política, porém, seguir a massa nas ruas é ser gado levado para o abate, ser de massa de manobra pensando que está deixando de sê-lo. As ruas são a baia que confina. Sair da baia é a verdadeira rebeldia. 

sexta-feira, setembro 09, 2016

Philip Roth no Traçando Livros de hoje


Autobiografia (?) de Philip Roth

Philip Roth anunciou há alguns anos que não irá mais escrever. A Companhia das Letras aproveita, então, para lançar por aqui um livro dele que ainda não foi traduzido. Trata-se de Os fatos: a autobiografia de um romancista (Tradução de Jorio Dauster, 240 páginas), originalmente publicado em 1988.
Se a obra pretende ser uma autobiografia, como promete o subtítulo, na verdade a vejo como outra peça literária e ficcional do autor disfarçada de não-ficção. Em Roth libertado: o escritor e seus livros, obra também publicada pela Companhia das Letras, sua biógrafa Claudia Pierpont explica que Os fatos “é na maior parte uma biografia franca, sem rebuscamentos”, e que Roth havia chamado “o livro de uma sequência de O avesso da vida; chegou a dizer que era o ‘avesso da minha vida’- isto é, de sua vida não transformada pela ficção.”
Com intuito de desvendar o que verdadeiramente estava por trás de suas primeiras narrativas, Roth conta fatos de sua vida desde a infância, passando pela universidade e depois a publicação e repercussão de suas primeiras obras. Ora, para quem leu seus primeiros livros, os fatos são facilmente identificados, como por exemplo, a trapaça que sua ex-esposa lhe fez ao fingir que estava grávida, artimanha utilizada por uma personagem em As melhores intenções, romance que merece uma nova edição no Brasil. Também prova, no entanto, ou tenta provar, que seus pais não foram contra a publicação de seus primeiros contos, geradores de uma perseguição da comunidade judaica, que o julgava antissemita.
Nathan Zuckerman, seu alter ego, aparece nesse livro, só que agora como interlocutor do próprio Roth, que lhe enviara o manuscrito para que lesse e avaliasse. Numa carta ao final, que salva a obra, diga-se de passagem, Nathan Zuckerman sugere ao seu criador que não publique o manuscrito: “é muito melhor escrever sobre mim do que informar ‘escrupulosamente’ sobre sua própria obra.” Curiosamente esta obra nunca é mencionada no ciclo de romances em que aparece esse personagem, autor de Carnovski. Deveria.
Zuckerman conta ainda na carta como está seu relacionamento com a esposa, Maria, depois do que foi narrado em O avesso da vida, sendo que ela também é personagem deste romance e lê o manuscrito de Roth, opinando sobre ele. Ela aparece em Os fatos na figura de May que, por sua vez, refere-se a uma mulher com quem Roth teve um caso na vida “real”. 
“Que relação existe entre esta ficção e tua realidade presente?”, pergunta Nathan na carta. Roth não responde. Para Claudia Pierpont, fica implícito em Os fatos “que a única maneira de chegar à verdade é através da ficção. Daí o cândido conselho de Zuckerman acerca do texto de Roth: ‘Não o publique’”.
Para o leitor, fica sempre aquele pé bem atrás sobre o que é ou não verdade nas obras do autor. É esse jogo que torna Os fatos: a autobiografia de um romancista uma obra imprescindível. Finalmente aportou por estas bandas. Esperamos ainda que os demais livros do escritor ainda inéditos ou esgotados no Brasil sigam o mesmo caminho.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Mais uma sincronicidade junguiana


Faço sempre uma lista das leituras e filmes a que vou assistindo durante o ano. Agora há pouco, numa sincronicidade junguiana, depois de digitar um dos filmes vistos, apareceu um número que tem tudo a ver com o enredo. Quem assistiu, sabe.

sábado, agosto 27, 2016

Não leiam, jovens

Não leiam, jovens. Não abram os livros que estão na biblioteca da escola, tampouco acessem e-books na internet. Esqueçam o que algumas pessoas, principalmente os professores, dizem sobre a leitura. Naquele amontoado de letras vocês não vão encontrar nada que preste. Se os adultos os aconselharem a ler, desobedeçam. Fiquem distantes dos livros, certo?
Não leiam, jovens, porque nos livros vocês podem encontrar coisas inapropriadas para a idade de vocês. Sexo, por exemplo. A maioria dos livros tem descrições de sexo, as personagens só pensam em sexo, de manhã, de tarde, de noite, vivem em função disso. Não leiam, por exemplo, Reparação, de Ian McEwan, ok?, pois há uma cena de sexo dentro de uma biblioteca!  
Muitos livros têm sangue, muito sangue, mortes, violência. Fujam disso. Não é para a faixa etária de vocês. Fujam de caras como um russo chamado Dostoiévski. Ele escreveu um livro em que o herói da história não tem nada de herói. O cara, imaginem vocês, mata uma velhinha com um golpe de machadinha na cabeça e, para não ser pego, tem que matar a irmã da velhinha que apareceu bem na hora do crime. Imagina a quantidade de sangue no chão. E tudo porque ele queria roubar o dinheiro da velhinha, uma agiota que explorava os desesperados, para se tornar uma grande sujeito, assim como Napoleão, que fazia de tudo para ter poder. Não leiam, portanto, esse livro chamado Crime e castigo, certo?
Livros nos fazem pensar. Quer coisa mais chata do que pensar? Por que pensar se outro pode fazer isso pela gente? Na idade de vocês, jovens, escutem música simples, sem complexidade, apenas para se distrair e dançar. Assistam a filmes que não exijam muito de seus cérebros. Deixem os livros para os adultos que não sabem aproveitar a vida. Não leiam, pelo menos na idade de vocês, o romance 1984, de George Orwell, cujo vilão é um sistema conhecido como Big Brother.   
Livros deveriam ser proibidos. E já o foram. Em alguns países ainda há limitação para a leitura. Fazem muito bem. Livros são perigosos, são piores que armas de fogo. São como drogas que nos fazem ter uma percepção diferente da realidade e, como as drogas, deveria ser proibido o consumo de livros. Livro faz mal para a saúde como o cigarro, a bebida e o sertanejo universitário. Não leiam livros de um cara chamado Bukowski, pois o cara só bebe, fuma, fala mal de todo mundo e faz sexo, muito sexo. O escritor é conhecido como o “velho safado”. Não o leiam, em hipótese alguma.

Livro é coisa de gente rebelde, que não está conformada com o mundo e quer mudá-lo. E vocês, jovens, precisam se divertir, curtir baladas, jogos eletrônicos e postar selfies na frente do espelho fazendo biquinho. Lembro mais uma vez que os livros têm conteúdo inapropriado para vocês, jovens. Não leiam. É um conselho de adulto.

terça-feira, agosto 23, 2016

Sobre "Papel mojado", de Juan José Millás



O livro num primeiro momento me atraiu pela capa, com o desenho de uma máquina de escrever. Mas já estava, no entanto, querendo ler algo de Juan José Millás há algum tempo. A sinopse traz a palavra suicídio, tema que, como alguns leitores do blog já sabem, me persegue. Há também a presença de um escritor, na verdade dois, que querem escrever um romance em que um deles é morto. O que vamos ler é uma dessas narrativas idealizadas. Soma-se a isso tudo o metarromance, algo que também me atrai. O resultado é uma leitura prazerosa, rápida, com uma tensão na medida certa para o público a que se destina a obra, o juvenil, apesar de o desfecho exigir um leitor mais experiente.
Papel mojado (1983), título cuja explicação só aparece no final, traz a história de um jornalista de uma revista popular de Madrid e também escritor fracassado, Manolo G. Urbina, cujo amigo, Luiz Mary, se suicidou. Incitado pela ex-namorada, Tereza, que por último foi amante do morto, e por um episódio que vivenciaram dias antes, ele está convicto de que houve, na verdade, um assassinato e resolve investigar. Os dois se envolvem numa teia de falcatruas relacionadas à indústria farmacêutica. Como a trama é policial, detetivesca, apesar de o jornalista estar fazendo a tarefa de péssimo detetive, não vou revelar muita coisa.
O jogo de aparência e verdade é a parte maior do iceberg. Quem é o escritor e quem é o personagem? O dinheiro é verdadeiro ou falso? Houve um suicídio ou não? Qual o crime que a empresa realmente cometeu? Quem é realmente o assassino, se houve assassinato? Os amigos são amigos de verdade? O que esconde o monte de papéis da maleta,objeto de desejo dos capangas mal-encarados? A história que lemos é policial mesmo ou não passa de uma paródia do gênero? Desvendar o oculto nos mantém no suspense até o final.

O livro foi escrito por encomenda e se tornou um sucesso de vendas, sendo adotado inclusive por escolas na Espanha, dando certa tranquilidade financeira para que Juan José Millás produzisse sua obra adulta. Muitos jovens leitores espanhóis devem ter-se iniciado no gosto pela leitura através desse romance. Para mim, é a porta de entrada para as outras obras do escritor valenciano.

sexta-feira, agosto 19, 2016

No Traçando Livros de hoje, Sérgio Sant'Anna e seu novo livro de contos

O contista se desnuda

Repito o que escrevi uma vez sobre Sérgio Sant’Anna: ele consegue, como poucos, equilibrar a experimentação narrativa com histórias bem contadas, aliar a arte mais sofisticada com temas populares. Neste seu novo livro, O conto zero e outras histórias (Companhia das Letras, 173 páginas), o escritor acrescenta um forte tom memorialístico. Creio que seja seu livro mais pessoal e, talvez por isso, um dos mais irregulares, mas ainda assim superior a outras obras que circulam por aí.
Em “O conto zero”, dois irmãos (um deles o próprio Sérgio) perambulam pelas ruas e metrôs de Londres nos anos 50, depois de terem cabulado a aula, durante quatro dias seguidos. O narrador conta a história como se fosse para ele mesmo: “você está escrevendo isso neste momento e dá-se conta de que amava e ainda ama Londres (...)”. “Flores brancas”, o segundo conto, amplia numa perspectiva de certo modo negativa um conto do livro anterior. Um professor universitário se envolve com uma aluna (tema recorrente em Sant’Anna) e vai morar com ela, deixando esposa e filhos, num bairro distante do centro de Belo Horizonte. A violência do lugar e a separação depois de certo tempo de felicidade, o faz mais uma vez procurar um novo lar, mais simples do que o segundo. Mudanças de casa e de vida, de projetos para o futuro, é o tema que perpassa quase a totalidade dos contos.
No longo conto intitulado “Vibrações”, Sant’Anna narra diversos momentos de sua participação na International Writing Program, em Iowa, nos Estados Unidos, na década de 70. Aparecendo apenas como S (“S chegou a fazer anotações em, 1971, que agora retoma sem nenhuma pretensão afazer um romance.”) e mencionado outras personagens apenas com a inicial também, mesmo que saibamos a quem se refere, a narrativa parece ter uma forte influência de Roberto Bolaño, mais precisamente de Os detetives selvagens, inclusive pelo aparecimento de personagens reais em grande quantidade.
Em “O conto”, a reflexão sobre o fazer artístico coaduna-se com o enredo, em que uma jovem andando sobre uma passarela que cobre uma movimentada rodovia tenta desviar de um mendigo que vem em sua direção e segura seu braço. Passarela lembra passagens, mas também, como uma ponte, é uma ligação. O narrador tenta ligar as pontas, escapar das armadilhas que o cercam, desviando dos perigos de uma escrita que possa não ser bem realizada. Como o personagem, muitas vezes, o escritor não consegue escapar. O mendigo, porém, quer apenas se ligar com alguém, se unir aos outros. “Eu também sou gente”, ele diz, antes da triste decisão que toma, que não vou revelar aqui, que resolverá seu problema pessoal, mas criará problemas para as outras pessoas, afinal, não estamos sós. “Ela nunca mais seria a mesma”, depois daquilo tudo, assim como S, no conto anterior, jamais seria o mesmo após as experiências estéticas nos EUA.
Depois de alguns contos fracos, o bom e velho Sérgio Sant’Anna retorna com “A bruxa”, em que Clarice Lispector e Machado de Assis, bruxos maiores para o autor, aparecem como referência. Já em “Bastidores”, o narrador recria uma fantasia de infância através de uma peça de teatro, “como se uma ilusão também para sempre se materializasse”. “Caminhos circulares” e “O museu da memória” não me agradaram, mas fazem o papel de retomar as outras histórias com novos elementos, sempre frisando as lembranças do próprio Sant’Anna, que são a matéria-prima de todos os contos, conforme revelou em entrevistas.
“Ah, quando terá começado este verdadeiro eu?” é a frase derradeira, que nos joga lá para o início, para “O conto zero”, o começo do novo Sérgio, ou então para os outros livros deste inventivo escritor.

Cassionei Niches Petry é escritor e professor. Publicou Arranhões e outras feridas e Os óculos de Paula. Seu blog: cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, agosto 15, 2016

O primeiro livro de Orígenes Lessa

A obra de Orígenes Lessa (1903-1986) está um pouco esquecida atualmente, mas não por falta de editora. A Global vem reeditando seus livros, entre os quais o clássico O feijão e o sonho, que chegou a ser adaptado para a TV e ganhou mais popularidade pelas edições da coleção Vaga-Lume, da Ática.
O seu primeiro livro, de 1929, O escritor proibido, recebe merecidamente uma terceira edição pela Global. Apesar de não ser um dos melhores trabalhos de Lessa, certamente é um item que não pode faltar na biblioteca dos admiradores do autor e do gênero conto.
São histórias curtas, que refletem bem os anos 20, e venho mergulhando nos últimos dias em leituras desse período. Um homem de trinta e poucos anos, calvo, até então um solteirão convicto, casa-se e afirma, para surpresa de todos, não ter se casado por amor, nem mesmo por interesse financeiro, mas sim pela amizade; a paixão de um jovem por uma bailarina de circo; um artista frustrado pensa “na vacuidade da vida” quando decide reencontrar seu antigo amor e se decepciona quando a descobre avó, andando com dificuldades devido ao reumatismo; um demônio com “uma sorridente barbicha à Pirandello, em “Satanás e a desigualdade humana”; no conto “O meu futuro suicídio (do jornal de um neurastênico)”, uma reflexão sobre o ato de tirar a própria vida: “o que justamente me preocupa é a facilidade com que penso esbandalhar-me o crânio com um revólver que, aliás, não possuo”.
Um dos contos mais interessantes é “O homem cujos desejos se realizavam”. É a história de um funcionário de uma fábrica de automóveis durante os anos 20 que recebe de uma fada o dom de conseguir realizar todos os seus desejos. “Tudo o que pensares intensamente – basta pensar – se realizará.” O homem pensa em transformar um frasco de perfume em champanhe francês e isso acontece automaticamente. Passa a desejar luxo, dinheiro fácil, e tudo é prontamente realizado. Num restaurante, não gosta da risada de um garçom e o acaba matando com seu pensamento, mas depois o ressuscita. Ou seja, realmente tudo se realiza. Acontece que ele não consegue controlar seus pensamentos e sua vida se torna um inferno. “O seu pensamento era quase uma calamidade.”

Está na lista das próximas leituras A cidade que o diabo que esqueceu, o terceiro livro de Orígenes Lessa, disponível por enquanto somente em sebos. O segundo, Garçon, garçonete e garçoniere, não encontrei na Estante Virtual. Espero que a Global também o reedite.

sábado, agosto 13, 2016

Venha me ler até o final



Cada amanhecer me dá um soco é um verso de um poema de Carlos Drummond de Andrade. Andrei Ribas fez bem ao escolher esse título, pois a mim, pelo menos, despertou o interesse pelo romance. Somando-se a isso, o detalhe da Vênus de Botticelli na capa, com uma intervenção do próprio Ribas que sugere uma Vênus cega (um dos subtítulos da obra), nos antecipa a dose de referências intertextuais que virão a seguir.
O primeiro capítulo foca em um legista, responsável pela necropsia do corpo de um pai esfaqueado pela própria filha. Na sua análise, encontra uma mensagem, escrita com pequenos cortes de faca na pele do homem: “Venha me ver”. Talvez influenciado pela série Elementary, a que venho assistindo nas últimas semanas, esperava uma história policial, mas não é bem isso que temos no romance de Ribas.
No segundo capítulo, somos transportados para a mente conturbada da parricida, vivendo agora em um hospital psiquiátrico. A voz narrativa, porém, é de um gato, como se estivesse conversando com ela: “Após a morte de sua mãe, descobriu que eu, de cor gris com a ponta do rabo preta – o qual não possuía um nome pois nunca alguém houvera me batizado desde que cheguei ao acaso num dia chuvoso procurando abrigo – podia falar e, mais do que isso, dava conselhos um tanto gnósticos”. Ficamos então sabendo que o pai havia matado sua mãe, porém conseguindo simular que fora um latrocínio. Mas não seria essa a vingança da jovem. Havia uma tragédia maior que a motivou a praticar o crime, que vai sendo aos poucos revelada.
Na sequência, ainda aparece um escritor recluso, Guillermo, que pendura restos de cigarro em árvores para os morcegos fumarem. É um personagem-chave na história, mas poderia ser melhor construído, assim como o legista, que só reaparece no final e cuja investigação sobre a mensagem encontrada é resolvida de forma rápida. O romance teria tudo para ser mais longo, porém fica nítido, pelo menos para mim, que o autor se apressou para concluir a obra.
Há alguns defeitos, além da construção das personagens, que devem ser mencionados. As referências intertextuais são muitas e, na maioria das vezes, se encaixam, porém, o didatismo me incomodou em vários momentos. A fala do gato, por exemplo, que é poética, muda bruscamente para uma linguagem informativa para citar autores e obras, muitas com títulos completos em inglês. Dispensável também a enumeração de vários livros da biblioteca de Guillermo. Ribas parece querer deixar em evidência sua erudição que já ficou patente em momentos mais sutis da narrativa, em que o “não dito” e o “não escrito”, termos caros ao escritor fictício, instigam os leitores exigentes. Não gostei da escolha de alguns vocábulos como “osculasse”, por exemplo, logo no início da narrativa, que quase me fez largar o livro.
Aconselho, porém, a quem ler o romance, que vá até o final. O desfecho é interessante e relativiza, inclusive, algumas inverossimilhanças das personagens. Acaba provocando a vontade de reler a narrativa e costurar os pontos. Quem leu até o fim o meu Os óculos de Paula, com o perdão da autorreferência, vai entender do que estou falando.

Cada amanhecer me dá um soco é o terceiro livro de Andrei Ribas. A edição é da Bestiário, editora de Porto Alegre. 

quinta-feira, agosto 11, 2016

Crônica deste escriba na Gazeta do Sul de hoje


O que nos segura?

Uma imagem do filme do cineasta italiano Federico Fellini, 8 e meio, mais precisamente um sonho do protagonista Guido, vivido por Marcello Mastroianni, mostra-o voando sobre a margem de uma praia, como se fosse um balão. No chão, um homem o segura com uma corda presa no tornozelo, impedindo-o de desaparecer nos ares. Seria alguém tentando salvá-lo ou, pelo contrário, alguém que não o estava deixando seguir voos mais altos?

Essa sensação, provocada por um dos gênios do cinema, perpassa a minha vida e a tua, leitor, em vários momentos. Há sempre algo que nos impede de ir além, seja a família, a escola, a sociedade, as necessidades econômicas, o porte físico (eu queria ser goleiro, mas a pouca altura e as mãos pequenas privaram a Seleção de ter um metido a escritor como dono da camisa 1), a religião, as ideologias ou nós mesmos. Sempre colocam, ou colocamos, percevejos pelo caminho, que nos fazem recuar. Sempre há alguém segurando a corda que nos prende.

O filósofo alemão Nietzsche, no aforismo 575 do livro Aurora, fala sobre os “pássaros audazes, que voam ao longe” sobre o mar. Em determinado momento, eles precisam descansar, “sobre um mastro ou um mísero recife”. O filósofo chama, no entanto, de deplorável esse pouso, pois muitos pássaros resolvem ficar, sendo que mais adiante há uma “descomunal rota livre”. Ora, “para onde queremos ir? Queremos passar além do mar?”. Continuaremos seguindo “para lá onde até agora todos os sóis da humanidade declinaram?”. Esse aforismo é como se fosse um mantra que repito mentalmente todos os dias.

O texto que escrevo pode parecer, num primeiro momento, de autoajuda. Porém, as obras desse tipo incitam o leitor a seguir um caminho já traçado: “Os 10 passos para o sucesso”, “Como ganhar na loteria em 7 lições”, “Guia para alcançar seus objetivos”. Se fosse escrever livros de autoajuda, não obteria êxito. Os títulos seriam algo como “Não siga esse caminho, pois esse caminho é meu”, “Como nunca ganhei na loteria”, “Guia para ser um escritor frustrado”. Prefiro textos que nos incomodam. Concordo com o filósofo romeno Emil Cioran, que escreveu: “Um livro deve cutucar as feridas, provocá-las inclusive. Um livro deve ser um perigo.”

O que quero dizer com esse texto, na verdade, é que... Bem, já estou devaneando demais e “cronicando” de menos. Estou subindo de mais, porém estou bem preso pelo tornozelo para não sumir. É melhor parar e assistir a outro filme de Fellini e depois continuar a leitura do calhamaço A viagem, de Virgínia Woolf, daqueles livros que se leem aos poucos, degustando devagar, e que vem me provocando algumas feridas.

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