Avançar para o conteúdo principal
Antologia pessoal – a ser publicada no dia 29 de fevereiro no Caderno 2, Cultura, do jornal Estado de São Paulo.

Cassionei Niches Petry – editor do desimportante blog “Porém, ah, porém”, escreve livros mais desimportantes ainda, os quais só não vieram a público porque teve o bom senso (ou por preguiça?) de não mandar para as editoras. Quando jovem, tinha o sonho de ser um cronista diário, como Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo. Como não o realizou, escreve, de vez em quando, algumas crônicas para o jornal de sua cidade. Gostaria de ser um grande escritor da literatura brasileira. Como se considera um fracassado, está se acostumando com ideia de ser o maior escritor da sua rua.

Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?
Relatos, de Julio Cortázar. Como ele dizia, na nossa realidade há sempre um mistério a ser descoberto. Nos seus contos, a cada releitura descubro novos mistérios.

Dê exemplo de um livro muito bom injustiçado, pelo público ou pela crítica.
Camilo Mortágua, de Josué Guimarães.

Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.
Confissões de Narciso, de Autran Dourado. Em uma época que estava mergulhado na obra do escritor mineiro.

E um livro surpreendente, ou seja, bom e pelo qual você não dava nada.
Os que bebem como os cães, de Assis Brasil.

A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.
As crinças brincando na casa onde há um tigre, no conto Bestiário de Julio Cortázar. Josef K. no sótão onde vive o pintor, em O processo, de Franz Kafka. A cena final do conto “Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles.

Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?
Dom Quixote, Josef K., Rosalina (do romance Ópera dos mortos, de Autran Dourado), Brás Cubas, Capitão Rodrigo, Raskólnikov, Philip Carey, Harry Haller...

Que livro bom lhe fez mal, de tão perturbador?
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

E que livro mais o fez pensar?
Sobre heroes y tumbas, de Ernesto Sábato.

De qual autor você leu tudo, ou quase tudo?
Franz Kafka

Existe algum autor como o qual você jamais perderia seu tempo?
São vários. Para citar um: Sidney Sheldon

Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.
Continuo achando bom todos os livros que foram importantes na minha formação.

Você considera a literatura policial um gênero menor?
Não há gênero menor, o que existe são obras menores.

Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica?
São ruins. Dispenso livros que me deem respostas prontas.

Um livro meio chato, mas bom.
Nenhum livro meio chato é bom.

Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.
Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferndinand Céline.

Um livro difícil, mas indispensável.
Ulisses, de James Joyce.

Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.
Não me lembro de nenhum agora.

Um livro que começa mal e se encontra.
Todo livro que começa mal eu acabo deixando de lado.

Um livro ruim, por ser pretensioso.
O segredo, se é que se pode chamá-lo de livro.

Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?
O sertões, de Euclides da Cunha.

De que livro você mudaria o final?
Da Bíblia.

Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.
Kafka tem dois ótimos tradutores hoje: Modesto Carone e Marcelo Backes. Quanto as traduções ruins, elas o valor de divulgar o artista.

A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro publicado nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?
A obra de Luiz Ruffato.

Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando à leitura?
Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não mereceriam seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?
Os livros da Literatura Informativa, como a Carta de Caminha. Mereceria estar no cânone a obra de Murilo Rubião.

Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?
Luiz Ruffato, Roberto Bolaño, Bioy Casares.

Cite um vício literário que você considera abominável.
Excesso de descrições.

Que virtude mais preza na boa literatura?
Revelar quem somos, mas sem julgamento.

Comentários

Diôni disse…
Duas palavras: para béns!

Conta como foi que te descobriram ou como foi que te jogaste na frente deles?

Um forte abraço e muito sucesso a partir de agora!

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …