Avançar para o conteúdo principal

O vampiro de almas

Cassionei Niches Petry

Um desavisado pode pensar - a julgar pelo título e a capa escura com um rapaz de rosto pálido - que o livro é mais um dos que tratam de jovens chupadores de sangue que arrancam suspiros das meninas. Jogada da editora para atrair leitores nas prateleiras das livrarias? Talvez. Confesso que gostaria de ver um desses adolescentes sedentos por “leituras-de-entretenimento-escritas-para-virar-filme” sendo enganado, pois teria contato com uma “leitura-de-qualidade-escrita-para-ser-literatura”.

Chá das cinco com o vampiro (Objetiva, 236 páginas), do paranaense Miguel Sanches Neto, é um misto de roman à clef com bildungsroman. O primeiro termo se refere a um romance que se utiliza de nomes fictícios para retratar pessoas reais, mas percebemos sobre quem se está escrevendo devido a algumas semelhanças com pessoas e fatos da vida real. O segundo termo é também chamado de romance de formação, visto que narra o processo de crescimento moral, intelectual e social de um indivíduo desde sua adolescência. A narrativa de Sanches intercala momentos da vida do protagonista, Roberto Nunes Filho, e seu convívio com um escritor recluso e famoso da cidade de Curitiba.

O misantropo retratado, Geraldo Trentini, na verdade é Dalton Trevisan, considerado um dos maiores contistas do país, e que escreveu justamente um livro chamado O vampiro de Curitiba, que, como em seus outros livros, narra cenas da vida de gente comum da capital paranaense. Ele mesmo se denomina vampiro, pois chupa muitas das suas histórias ouvindo conversas nos lugares que frequenta ou contadas por informantes. No caso, vampiro não de sangue, mas “Vampiro de almas”, título de um dos seus contos - chupado por sua vez do título de um filme americano.

Acontece que Dalton Trevisan ficou irritado por saber da existência do romance, pois Miguel Sanches Neto teria se aproveitado da amizade que teve com ele para saber de suas intimidades. Contraditório, afinal de contas seu ex-discípulo não fez nada diferente do ex-mestre ao pintar um personagem curitibano como ele realmente é.

A polêmica até rendeu visibilidade à obra, mas fez a crítica, mais interessada na fofoca, esquecer as partes que relatam a formação do narrador Beto Nunes, “levemente” inspirado no próprio Sanches. São capítulos igualmente importantes - pois a história é do Beto e não de Trentini - e neles vemos o jovem na pequena Peabiru tendo sua iniciação literária com a tia Ester, personagem cativante que incentiva o sobrinho a seguir o caminho da literatura, indicando livros e pagando a faculdade para ele, além de aconselhá-lo a procurar Geraldo Trentini. Há também a relação com seus pais: uma mãe, figura apagada, que queria sempre o filho embaixo de suas saias, e um pai alcoólatra que, bem pelo contrário, queria vê-lo longe. Nesse ponto, a narrativa lembra o relacionamento de Franz Kafka com seu genitor, em uma das tantas referências literárias no romance. Por isso Beto procura por um novo pai, dessa vez literário, que da mesma forma o decepciona.

Talvez o vampiro da obra de Miguel Sanches Neto seja na verdade a própria literatura, enfiando seus dentes no nosso pescoço e nos tirando a essência que lhe dá a vida. Da mesma forma, seu livro mostra que o mundo literário tem efeito parecido - com seus membros vaidosos, a falsidade, a inveja - pois tira do escritor momentos preciosos que seriam usados para o que é realmente importante: escrever.

Segundo a lenda, o vampiro só entra dentro de uma casa se for convidado e depois seduz a vítima para atacá-la. Cuidado, leitor, se levar esse livro para seu lar, pois sua alma será prisioneira desse vampiro de almas chamado literatura.


Comentários

Mirella disse…
Conheço o livro, por ter lido resenhas e tudo o mais, mas não cheguei a ler, ainda. Tenho curiosidade.
Cassionei Petry disse…
Amanhã o texto sai na Gazeta com aquelas frases finais de que tu gostas.
Mirella disse…
UHUUU! Lerei novamente!

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …