Saramago deu o exemplo

Saramago e Pilar Del Río


Cassionei Niches Petry

Quando ouço ou leio a bobagem repetida por maus religiosos (digo maus pois os bons religiosos não julgam os outros) de que os ateus não têm coração, lembro da dedicatória que José Saramago fez a Pilar Del Río no seu romance Caim: “A Pilar, como se dissesse água”. O livro, diga-se de passagem, causou muita polêmica justamente por mostrar um Deus nada amoroso, que semeia o ódio contra quem não o adora. Porém, Saramago não criou esse personagem: é só ler o Antigo Testamento da Bíblia Sagrada, pois estão lá todos os atos sanguinários perpetrados por esse Deus egoísta.

É notório o amor que Saramago, chamado muitas vezes de Seramargo, tinha pela sua esposa, ela católica, ele ateu. Hoje leio na Zero Hora uma frase do escritor dita no documentário que retrata o casal: “Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora”.

Muitos crentes querem a exclusividade da palavra amor, como se fosse algo criado por um ser divino. Recentemente, o mau jornalista (pois os bons não dizem bobagens) chamado Datena, um dos adeptos da estética do grito na TV brasileira, passou boa parte do programa – tão sanguinário quanto a Bíblia - dizendo que são os ateus os culpados pelos atos de violência relatados no programa, chegando a afirmar que as pessoas que respondiam pelo telefone à pesquisa afirmando ser ateias estariam ligando de dentro dos presídios.

Já escrevi aqui no blog sobre se ser moral tem a ver com alguma crença. Acredito que não, até porque a própria história nos mostra isso, pois há atos imorais praticados tanto por ateus quanto por religiosos, da mesma forma que atos de bondade são praticados pelos dois grupos. Agora, quando os crentes dizem que os ateus não têm Deus no coração, eu assino embaixo, pois não tenho mesmo.

Comentários

Roberto C. Belli disse…
Sua última frase é ótima, Cassionei. Abração!
Cassionei Petry disse…
Tu também, herege!
Abração.

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