Cientistas e equívocos

Em seu artigo “Santos e pecadores”, publicado na Zero Hora do dia 14 de novembro de 2010, (aqui para assinantes) Moisés Mendes comete alguns “pecados imperdoáveis” para um experiente jornalista.

Para começar, mencionou uma desvalorização de objetos sacros, dando como exemplo os santos de gesso. Segundo ele, os detratores das religiões têm parte da culpa por isso. Já aparecem aí dois grandes equívocos: primeiro, os que menosprezam e muitas vezes destroem imagens ou monumentos de religiões são justamente membros de outras religiões, ou o jornalista já viu um cientista chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida num canal de televisão? Segundo, quem tem fé não vai deixar de tê-la pelo simples fato de alguém criticar sua religião, pois as pessoas vão sempre preferir a palavra do livro sagrado, muitas vezes filtrada pela fala de uma autoridade religiosa.

Outro erro grave, ou melhor, uma falácia cometida pelo jornalista, é afirmar que quem critica as religiões consideram a ciência sagrada. Logicamente ele se utiliza da palavra não no sentido divino, mas no sentido de algo inviolável, acima de qualquer compreensão e, por isso, inquestionável. No entanto, ao contrário da religião, a ciência pode e quer ser contestada. Cientistas estudam, refletem, buscam respostas e chegam a conclusões diferentes. Não fosse a ciência, estaríamos até hoje acreditando que o Sol gira em torno da Terra, fato que a Igreja não permitia que fosse contestado, baseada numa passagem bíblica - quem pensasse diferente, ia para a fogueira. Não fosse a ciência, pensaríamos que os raios fossem jogados por um deus sacana mirando o traseiro de pobres desavisados que não acreditavam nele. Não fosse a ciência, não estaríamos aqui, no Rio Grande do Sul, pois antes se acreditava que no além-mar existiam monstros que matavam os marinheiros, ou que as água do oceano caíam num precipício sem fim. Não fosse a ciência, nem eu e nem o próprio jornalista estaríamos escrevendo para as páginas do jornal, salvo se fôssemos monges, pois o conhecimento esteve durante muito tempo encastelado nos mosteiros e distante da população comum.

O jornalista critica aqueles que consideram a magia dos livros sagrados como literatura. Prefiro, sim, pensar que os mitos religiosos são tão somente boa literatura. A mente humana é tão fantástica e evoluiu de tal forma que criou uma infinidade de deuses e histórias fabulosas que tentam explicar as questões humanas com doses de fantasia, imaginação e emoção, já que a ciência, muitas vezes, é fria e racional demais. É bom lembrar que literatura é uma das formas de arte. E não foi justamente a defesa da arte religiosa um dos motes do jornalista para escrever seu texto?

A fé é algo pessoal e nesse ponto deve ser respeitada. Porém, quando se tenta impor ao outros esse modo de pensar, ainda mais num veículo de comunicação que preza a pluralidade, entram os céticos, os ateus, os filósofos e os cientistas para argumentar contra a crença, não deixando que ela se torne uma verdade válida e incontestável para todos.

Cassionei Niches Petry – professor


Mandei este texto para a Zero Hora. Espero que publiquem.

Comentários

Ravick disse…
Temendo ser preconceituoso, é muito comum jornalista cometer estas gafes. Resultado típico de um profissional criado para repassar opiniões/informações, e que não tem nada que expor a própria.
Cassionei Petry disse…
Como é uma página de opinião, na qual ele escreve regularmente, ele deveria, pelo menos, ter melhores argumentos para defender sua opinião.
Obrigado pelo comentário Ravick.

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