Preenchendo os vazios

(Minha resenha na página Traçando livros da próxima quarta-feira.)

Estar no buraco pode ter vários sentidos. Literalmente, pode se referir aos trabalhadores nas tantas obras das companhias de água por todo o país. Pode ser alguém que está jogando cartas. Metaforicamente, é alguém que está mal financeiramente ou com outro tipo de dificuldade. O protagonista de No buraco, de Tony Bellotto (Companhia das Letras, 250 páginas), está, de certa forma, em cada um deles.

Bellotto é mais conhecido como um dos músicos dos Titãs, mas já há anos milita na literatura, principalmente com os livros policiais que têm como personagem principal o detetive Bellini. No recente romance, utiliza sua experiência no cenário do rock nacional para escrever a história tragicômica do guitarrista Teo Zanquis, desde seu estrelato com uma banda de rock que teve apenas uma música de sucesso nos anos 80 até o ostracismo pouco tempo depois. Ele próprio é quem nos conta sua conta sua história, mas com a cabeça enterrada em um buraco numa das praias do Rio de Janeiro, sendo que só no final sabemos o porquê dessa posição (quem leu a obra que cede a epígrafe do livro, Matadouro 5, de Kurt Vonnegut,pode matar a charada). Ouve pessoas (in)comuns falando ao seu redor e uma dessas conversas é justamente sobre o buraco da mulher que é uma das coisas mais desejadas pelo homem e um dos motivos para a queda do astro.

No auge da fama, ele aproveitou os melhores e os piores momentos, caindo em vários buracos no meio do caminho: drogas, bebidas e orgias desenfreadas. Agora mora num pequeno apartamento, sozinho, escrevendo um livro: “Rimbaud começou na literatura e acabou na vida. Eu comecei na vida e, pelo jeito, vou acabar por aqui mesmo, no meu buraco literário”. Frequenta sebos de discos, num dos quais encontra uma coreana com quem se relaciona e que o leva a uma trama detetivesca, narrada num tom cômico. De Hendrix a Hemingway (só para citar sobrenomes com a letra H), o narrador cita personalidades pops e eruditas, mostrando que Bellotto quis justamente fazer um romance de entretenimento, como afirmou em uma crônica no site da revista Veja, mas com um pé na boa literatura, aquela que nos faz refletir sobre as questões humanas.

Muitas vezes enfiamos a cabeça no buraco tal qual avestruz, de vergonha ou por egoísmo mesmo. Podemos encontrar apenas o vazio, mas pode haver algo no fundo desse buraco. Até um livro como o de Tony Bellotto pode ser um buraco onde nos enfiamos, mas que serve para preencher os buracos do nosso próprio cérebro.

(Cassionei Niches Petry é professor. Uma de suas frustrações é não ter vocação para a música, mas preenche esse buraco com muita, muita literatura. Escreve quinzenalmente na página Traçando livros no Suplemento Mix do Jornal Gazeta do Sul e quase diariamente no seu blog www.cassionei.blogspot.com.)

Comentários

Mirella disse…
Anotarei. Sou fã do gênero policial.
Rô Candel disse…
Oi, Cassionei! Apreciei a tua resenha sobre o lançamento do Bellotto. A capa é linda,mas o problema é cair no buraco dele e encontrar "sapos", como diria o nosso Machado de Assis! Dá uma lida no que escrevi sobre o 'Príncipe", de Maquiavel! Abração! Prof. Rosana Candeloro
Amei a capa...bela dica!
Tenho uma para você..walt Whitmann...Folhas de Relva, claro que já deves ter lido, mas é o meu preferido, conheci a obra do escritor, através do Prof. Flávio Williges e nunca mais parei de ler e reler...e reler...
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelos comentários.

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