sábado, abril 30, 2011

Resenha de Sobre Heróis e Tumbas (repostagem)


“A descida ao eu”


A frase que intitula esta resenha sintetiza o romance do século XX, segundo o escritor argentino Ernesto Sabato, que completou 99 anos no dia 24 de junho. A Argentina é um país que pode não ter o melhor futebol do mundo (apesar do título eminente), mas possui a melhor literatura, pelo menos na humilde opinião de quem escreve estas linhas, pois é o berço de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e tantos outros. Não estranhe, caro leitor, se em plena Copa do Mundo estou neste espaço elogiando “los hermanos”. Não podia, porém, deixar passar a oportunidade de escrever sobre um grande escritor e sobre um livro que me tirou algumas noites de sono.

Sabato foi um grande físico, chegando a trabalhar no Laboratório Curie, em Paris. Nos anos 40, depois de questionar esse mundo tão racional – que lhe provocava, segundo suas palavras, “um vazio de sentido”–, abandonou a ciência para se dedicar à literatura e à pintura. Publicou livros de ensaios e romances, pouco em quantidade – só três romances –, mas de uma qualidade incontestável. Destaca-se nesse conjunto a obra-prima Sobre heróis e tumbas, lançado em 1961 e com edição recente no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

O romance é divido em quatro partes, mas antes há uma nota, supostamente tirada de um jornal de Buenos Aires, pela qual ficamos sabendo que Alejandra matou seu pai, Fernando Vidal Olmos, e depois ateou fogo no próprio quarto, se suicidando. Na primeira parte, “O dragão e a princesa”, passamos a conhecer melhor essa impressionante personagem a partir das percepções de Martín, jovem que se apaixona por ela. Misteriosa, imprevisível e de personalidade forte, Alejandra só não é mais estranha do que os parentes que habitam a casa, gente ligada à antiga aristocracia argentina, cujos antepassados participaram da luta pela independência do país. Esses antepassados podem ser os heróis do título no que seria uma interpretação político-social da obra, colocando Alejandra como metáfora para a própria Argentina. Prefiro, no entanto, a chave mais existencial, sendo que o título dessa segunda parte nos leva a esse sentido. Seria o dragão Martín e a princesa a Alejandra? Ou seria a jovem uma princesa-dragão, soltando fogo através de suas duras palavras?

Na segunda parte, “Os rostos invisíveis”, a história se desenvolve com mais comentários sobre a história da Argentina, inclusive sobre a era peronista, as paixões anteriores de Alejandra e aparece pela primeira vez Fernando Vidal Olmos, esse o rosto invisível em boa parte do enredo, mas que começa a se revelar. É dele o manuscrito que seria encontrado posteriormente no quarto incendiado e que corresponde à terceira parte, talvez a mais perturbadora de todo o enredo: “Informe sobre cegos”.

O texto é uma narrativa enigmática, que reflete a mente perturbada de Fernando em sua tentativa de encontrar a Seita dos Cegos. Percorre, inclusive, os esgotos subterrâneos de Buenos Aires, como a descida de Ulisses ao Reino de Hades em busca das respostas do cego Tirésias, contada na Odisseia, de Homero. Paradoxalmente, busca a luz nas trevas. Na verdade, a busca representa a jornada nas tumbas da nossa mente, por isso as menções ao sexo desenfreado, aos canalhas de todas as estirpes, ao lixo produzido pelo homem. Tudo alegorias das questões morais do ser humano. Mais do que isso eu não falo sobre o “Informe”. Leia-o. Repito, leia-o. E mais uma vez: leia-o, mesmo que seja só essa parte. Vai te deixar perturbado durante dias, mas é esse o objetivo de todas as grandes obras literárias.

O romance se encerra com “Um Deus desconhecido”, que retrata os acontecimentos depois da tragédia relatada na nota policial do início. Também ficamos sabendo mais sobre a vida de Fernando Vidal Olmos. Vidas particulares e pátria se mesclam a partir de justaposições de imagens do passado e do presente, tanto dos personagens como da própria Argentina.

Tudo se conclui e nada se conclui. O Absoluto continua desconhecido, as trevas continuam trevas, os rostos continuam invisíveis e não descobrimos se a princesa é mesmo o dragão. A única certeza é de que o leitor terminará a leitura com a mesma sensação que teve Martín depois de ver Alejandra pela primeira vez: “já não era a mesma pessoa de antes. E nunca mais voltaria a sê-lo.”

Morreu Ernesto Sabato

O blog está de luto. Morreu um dos meus escritores preferidos:


http://www.revistaenie.clarin.com/literatura/Murio-Ernesto-Sabato_0_472153095.html

quarta-feira, abril 27, 2011

A arte contra a opressão - Traçando Livros de hoje

Os que bebem como os cães, do piauiense Assis Brasil (não confundir com o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil) foi o romance que mais me perturbou quando o li pela primeira vez na biblioteca da escola onde estudava. Fazia parte de um volume chamado Ciclo do terror, com outros três romances do autor, que é também um grande crítico literário. Depois, nunca mais tive contato com o livro, que não foi mais editado, mas tinha muita vontade de relê-lo para ver se me causaria o mesmo impacto.

Por esses dias, para minha felicidade, encontrei o Ciclo do terror, em bom estado de conservação, num sebo aqui de Santa Cruz do Sul. Comprei-o por 15 reais e, claro, mergulhei na leitura.

A história é dividida em três capítulos que se repetem durante as mais de 150 páginas: “A cela”, “O pátio” e “O grito”. Um homem está em uma cela escura, tendo como alimento um prato de sopa que, por estar algemado com as mãos nas costas, tem que comer como se fosse um cachorro, debruçando-se sobre o alimento e o lambendo. Não lembra seu nome e nem por que está preso. Sem noção do tempo, não consegue precisar os dias em que os guardas o levam para o pátio, junto com os prisioneiros das outras celas, para, em poucos minutos, tomar banho, beber água e depois lavar a roupa toda defecada e urinada. Ao voltarem para as celas, os presos têm suas bocas fechadas com esparadrapos, pois são proibidos de falarem. Antes, porém, alguns conseguem gritar palavras soltas, nomes de pessoas, etc. Mas são calados com socos e coronhadas.

A degradação pela qual vai passando o personagem deixa mal o leitor. Em determinados momentos, ele chega a dividir seu prato com ratos. A barba crescendo, a roupa ficando podre devido aos excrementos do prisioneiro, tudo nos leva a pensar até que ponto pode chegar a maldade do ser humano.

O personagem só começa a se dar conta do que acontece quando percebe que a água e o alimento deveriam conter drogas para entorpecer os prisioneiros. Deixa de tomar água do pátio e diminui a quantidade de sopa que ingere, deixando o resto para os ratinhos que o visitam. Com os pés, faz um buraco para armazenar pingos da chuva que caem de uma goteira para matar a sede. Começa aos poucos a se lembrar da mãe, do pai, da mulher e de seu nome: Jeremias. Recorda-se de uma sala de aula, ele falando sobre arte com os alunos: “a obra de arte não deve se submeter ao real”, “a arte também não deve fugir ao real”. Lembra, então, que é um professor de Literatura e que está preso por agitar os estudantes, por escrever livros, por falar sobre arte, por ser filósofo... Já sabendo quem era, e não vendo perspectiva de sair daquela situação, acaba esfregando os pulsos no muro do pátio até sangrar, sob o olhar dos guardas que não evitam seu suicídio.

Como o livro foi escrito em 1975, a ligação com a ditadura militar é inevitável. O que mais me tocou nessa releitura foi que justamente sou professor de Literatura e na semana que reli o romance eu falava sobre arte para os alunos e de como ela retrata a realidade. Me questiono: se vivesse na época do regime militar eu seria o mesmo tipo de professor - instigando os alunos a pensarem, correndo o risco de ser preso - ou me adaptaria ao sistema? De qualquer forma, a filosofia, a literatura e as demais artes são formas de conhecimento que não nos deixam esquecer o que sofreram muitas pessoas, para que isso não se repita jamais.

Cassionei Niches Petry é professor e mestrando em Letras, com bolsa do CNPq. Crê religiosamente na literatura como salvação da humanidade. Escreve quinzenalmente no Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, abril 25, 2011

Ler para ficar acordado

(Minha segunda colaboração na coluna do Curso de Letras da Unisc no jornal Gazeta do Sul)

“O livro é o melhor travesseiro que existe”, disse o escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), um dos grandes mitos literários dos últimos anos. A frase diz tudo sobre o objeto retangular com letras impressas pelo qual eu e tantas outras pessoas somos apaixonados. Mas esse “dizer tudo” implica também uma ambiguidade. Afinal, queremos conforto ou desconforto ao lermos?
A metáfora é uma figura de linguagem em que se utiliza uma comparação implícita entre objetos. Por exemplo, quando se diz “ela é uma flor”, está-se atribuindo características da flor à mulher: delicadeza, fragilidade, beleza, cheiro, etc. Essa metáfora, no entanto, por ser muito usada, se transformou num clichê, lugar-comum, chavão. Logo, não é mais criativa, diferentemente da metáfora de Bolaño.
Quais são as possíveis qualidades de um travesseiro que podem ser atribuídas aos livros?
Uma das características do travesseiro é sua maciez. Ao fazer a comparação, Bolaño estaria afirmando que o livro tem um conteúdo suave, brando, que traz prazer, que agrada a quem lê, que ameniza. Mas não é o que traz a própria literatura de Bolaño, que trata, por exemplo, de ditaduras como as do Chile e da Argentina – em contos do livro Llamadas telefónicas e também da violência em cidades como Ciudad Juaréz, na divisa do México com os EUA, presente no romance 2666. Assuntos, portanto, bem pesados.

Podemos pensar no formato retangular do travesseiro, semelhante ao do livro. Como o travesseiro serve para acomodar nossa cabeça quando dormirmos, Bolaño poderia querer dizer, então, que o livro é o companheiro ideal para “pegar no sono”. Logo, o escritor estaria corroborando a ideia de que ler é chato. Tão chato que leva o leitor aos braços de Morfeu. Será que é isso que um escritor diria?
Lembro-me de uma entrevista do mineiro Autran Dourado, relatando o caso de uma leitora que ligou para ele tarde da noite, depois de acabar de ler seu romance Ópera dos mortos. Disse-lhe que não estava conseguindo dormir e que ele também não conseguiria: e soltou uma porção de palavrões para o autor.
Minha interpretação para o livro como travesseiro é justamente que ele deve ser desconfortável. A leitura deve nos inquietar, tirar o sono, nos acordar para a vida, despertar nossos sentimentos. Livros que confortam – como os de autoajuda ou religiosos – são livros que não me servem. O bom livro é o bicho-papão que não deixa ninguém dormir bem sossegado.
(Mestrando em Letras - Leitura e Cognição – UNISC e bolsista do CNPq.)

domingo, abril 24, 2011

Oh! que mensagem bonita!

Vídeo que mostra o amor de D-us, segundo alguns crentes:


Repararam na sigla (IURD)?
Esse vídeo mostra uma analogia com a história de que D-us deu seu único filho para salvar o mundo, aqui representado pelo trem, com pessoas solitárias, mal-humoradas, viciadas, etc, que, diga-se, acreditam nesse D-us. E mesmo assim esse ser dito superior, com todo seu amor pela humanidade, deixa o mundo ficar por séculos e séculos como está, com pessoas solitárias, mal-humoradas, viciadas, violentas, assassinas, sem bondade, sem amor, sem caridade, etc, num joguinho pior do que qualquer jogo de vídeo-game violento. Emocionar-se com a história de um cara que deixa seu filho ser esmagado por uma ponte para salvar outras pessoas? Poupem-me dessa!
O vídeo só mostra que esse seu D-us, se existe, é um escroto e que não precisamos dele para sermos pessoas boas. Por essas e por outras que minha tolerância com os crentóides se esgotou.

quarta-feira, abril 20, 2011

Preconceito contra os ateus - bastidores


Tive a felicidade hoje de ser entrevistado para um documentário produzido por dois alunos da Unisc, o Fábio Goulart e a Carine Immig. O trabalho fala sobre o preconceito contra os ateus, sendo que o teaser já foi divulgado pela internet, com uma boa repercussão. Fico na expectativa do que os moradores da minha cidade – cujo nome, ironicamente, é Santa Cruz do Sul – falarão sobre o documentário, se ele não for ignorado, claro.

Interessante alguns fatos dos bastidores. Quando a Carine e o Fábio chegaram, brinquei que deus estava colaborando com o projeto, afinal o dia estava muito bonito e iríamos filmar ao ar livre. Acontece que tivemos dificuldades para achar um lugar que não ficasse nem muito claro nem muito escuro. Uma hora as nuvens cobriam o sol, outra hora o astro-rei – por sinal um dos primeiros deuses dos povos antigos – despontava forte. E eu, como sempre, suando muito. Quase no final da gravação, uma garoazinha para incomodar e salpicar meus óculos. Brincamos depois foram sinais dos céus pelo que estávamos fazendo! Nesse meio tempo, uns adolescentes começaram a brigar perto de onde estávamos, deu um pequeno tumulto, mas eu fiquei firme falando.

Outro fato curioso da gravação: me sentei na frente de uma estátua de um antigo bispo da cidade e, às minhas costas, estava a catedral São João Batista, considerada a maior em estilo gótico da América Latina. De repente, aparece um senhor e faz um sinal da cruz na frente da estátua. Segundo a Bíblia, não se deve adorar esculturas, não é verdade?

Enfim, quando sair um próximo teaser ou o próprio documentário, divulgo por aqui. É bom lembrar que estarei ao lado de nomes de peso como Eli Vieira, Åsa Heuser e Pablo Villaça. Só espero ter ido bem, pois sou ruim na fala, salvo na sala de aula, claro.