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Monteiro Lobato e o racismo (3 notas para um improvável artigo)



- Há exatos dois anos, em outubro de 2010, um parecer do CNE (Conselho Nacional de Educação) queria tirar das escolas o livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato por alegarem racismo na obra. Não sei como ficou o caso. Agora, sobrou para outra obra do autor, “Negrinha”.
- Em vez de se proibir, deve se refletir sobre os livros.
- Não é que Monteiro Lobato seja inatacável. O que está em jogo é a literatura que ele escreveu. Um escritor pode ser um crápula, como dizem que foi o francês Céline, mas o que importa é que faça obra literária de qualidade. Na literatura vale a questão estética. A inquisição também achava errado quem praticava bruxaria, levou gente para a fogueira e queimou muitos livros. O conteúdo supostamente racista de alguns trechos do Lobato jamais levou ninguém a odiar o outro. Pode se debater sobre ele, mas jamais proibir.

Comentários

Rodrigo Tomé disse…
"É com os bons sentimentos que se faz a má literatura"

―André Gide
Cassionei Petry disse…
Pois é. É o que a ditadura do politicamente correto quer.
Opa, oi.

Besteiradas as caçadas ao Monteiro Lobato. As Caçadas de Pedrinho, porém, eu já não protejo, e não é nada pelo racismo em si: meramente acho pouco humano uma criança negra ser obrigada a ler um livro que afronta a sua raça.

Se pautassem o problema pelo emprego desse livro em escolas, tudo bem -- mas não é o caso. Virou um apontar de dedos estéril.
Cassionei Petry disse…
A questão não é o obrigar a ler, mas o tirar esses livros das bibliotecas.
Não fiquei sabendo dessa, cara. Estou embasbacado.
Cassionei Petry disse…
http://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2012/09/na-terra-de-lobato-estudiosos-falam-de-polemica-sobre-obras-do-escritor.html
Iuri J. Azeredo disse…
Pessoal, gostei da arumentação que li em reportagem que saiu em ZH de 25/09/12:

A escritora Ana Maria Gonçalves, autora do romance Um Defeito de Cor, aclamado como uma das grandes ficções brasileiras sobre o tema da escravidão no Brasil, defende que o foco da discussão deveria ser o das crianças negras expostas à obra de Lobato:

– É interessante perceber que, em outros contextos, sem racismo, os estudiosos louvam a importância da literatura na formação da criança. Aliás, defendem Lobato geralmente pela importância que os livros dele tiveram em sua formação como leitores, escritores ou estudiosos. É preciso notar que esses estudiosos que defendem Lobato na mídia são todos brancos, a quem o racismo não atinge em sua ponta mais dolorosa: a de vítima. Fossem eles negros, pais de crianças negras, talvez não achassem "exagero" lutar por uma escola livre de racismo.
Cassionei Petry disse…
Eu sou pai de uma criança negra e sou contra essa perseguição à obra do Lobato.

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