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Sou tímido, e daí?




Ser uma pessoa tímida é um problema? Segundo o programa Globo Repórter da última sexta-feira, dia 5 de outubro, sim. E há cura para a timidez, vejam só! Afinal, vivemos em uma sociedade e precisamos, portanto, ser sociáveis, mesmo que para isso abdiquemos de nosso modo de ser. Interaja, dance, fale alto, seu tímido, ou não conquistará seu espaço!

Esse foi o tom da reportagem veiculada pela TV, o que apenas reflete a visão das demais pessoas. Parece que é uma doença ser introvertido. Aliás, prefiro essa expressão em vez de tímido, que possui um tom pejorativo, podendo significar fraqueza num sentido figurado, enquanto introvertido, de acordo com o dicionário Houaiss, tem a ver com a introspecção, “atitude do indivíduo que dirige sua energia psíquica para o interior, e parece fechado, prudentemente crítico e contido, segundo a teoria de C. G. Jung”. Gostar de ficar quieto no seu canto não significa não gostar dos demais. Denota apenas que a pessoa não aceita o que vê ao seu redor e, com cautela, não entra em conflito com os outros. Pode-se dizer, nesse sentido, que é mais sociável do que o extrovertido.

No trabalho, se exige do empregado que fale mais, que interaja, que participe de passeios e jantares para se sentir à vontade com os colegas. Às vezes, em início de ano, as empresas promovem palestras em que são realizadas as famosas dinâmicas de grupo, verdadeiras torturas para os tímidos. Numa dessas, fui incitado a cantar uma música da Ivete Sangalo. Recusei-me e fui flechado com um olhar de reprovação, tanto da palestrante quanto dos colegas. Nas escolas, tenta-se fazer com que o aluno fale em público ou desenvolva atividades em grupo, o que acaba inibindo-o ainda mais. A maioria ruidosa impõe à minoria silenciosa seus ditames. 

Os antitímidos pensam que o introvertido sente-se inferior aos demais e que precisamos “nos soltar” para sermos aceitos. Dizem também que somos mais individualistas. Afirmam isso porque veem o mundo de acordo com seu ponto de vista e não concordam com uma visão diferente. Logo, o individualista é o próprio extrovertido. O introvertido não está exatamente fechado ao exterior e preso no seu mundinho: ele simplesmente vê o exterior de outra forma.

O Globo Repórter poderia fazer uma reportagem com um contraponto, a partir de um livro que virou Best-seller: O poder dos quietos, de Susan Cain. De acordo com o release da editora, “a introversão, atualmente encarada como um traço de personalidade de segunda classe, pode ser extremamente produtiva e foi essencial para ideias que impulsionaram o desenvolvimento de nossa sociedade”.

Quieto no seu canto, sem ninguém torrando a sua paciência, o tímido pode estar criando uma obra de arte, descobrindo curas para doenças ou apenas pensando, o que muitos que falam demais não fazem.

Comentários

Flávio O. S. disse…
Que belo texto. Hoje toda modinha é lei, a pessoa tem que ser extrovertido, ter perfil de liderança, empreender e outras "verdades" pregadas pelos gurus. Detesto gurus. A ignorância (não no sentido pejorativo) faz com que as pessoas achem que o tímido, o simples, o não ambicioso (porque ele possui outras ambições e prioridades) é triste, solitário e não consegue se adequar. Muitas vezes a pessoa está extremamente feliz e satisfeita no seu canto. Há inclusive aqueles que sentem falta de um pouco de solidão.
Sexta foi o extrovertido, sábado foi o introspectivo, hoje é o dia dos corruptos serem eleitos. Aí amanhã é dia de começar o regime, e terça feira é dia de dicas sobre a melhor vestimenta para uma entrevista de emprego...
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelos comentários. Não fiquem tímidos em comentar por aqui.
Página Virada disse…
Cassionei!

Também acho esse tipo de palestra "motivacional" um tremendo drama. Em alguns encontros de educadores, a atividade é "abraçar-se mutuamente", outra situação constrangedora, considerando que muitas vezes você nem conhece quem está ao seu lado. Detesto esse tipo de situação, e penso que é um desrespeito obrigar as pessoas a participar disso.
Agora, fico imaginando um encontro no qual seja solicitado a alguém que cante uma música da Ivete Sangalo. Isso já passa de qualquer limite, vira uma sessão de tortura.

Grande abraço,
Guilherme

Ah, já li "Arranhões e outras feridas", e gostei muito. Uma hora dessas te escrevo para comentar a respeito de minhas impressões sobre sua obra.
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelo comentário e que bom que gostou do livro. Espalha, hahaha. Abraço.

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