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No Traçando Livros de hoje, homenagem a Autran Dourado



Ele conhecia o risco do bordado

Waldomiro Freitas Autran Dourado nasceu em 18 de janeiro de 1926, em Patos de Minas, MG, e faleceu no último domingo, dia 30 de setembro. Foram 86 anos de vida de um escritor com vasta obra, entre romances, contos e ensaios. A traça que vos escreve tem com ele uma grande dívida, que nem mesmo essa pequena homenagem pode pagar.

Conheci a obra de Autran Dourado num antigo livro didático de Língua Portuguesa, na época em que a disciplina era conhecida como “Comunicação e expressão”. Era a reprodução de um capítulo de A barca dos homens, publicado em 1961. A partir daí, fui atrás dos outros romances. Em Ópera dos mortos, de 1967, me perdi para depois me encontrar com uma literatura que deixa o leitor inquieto, incomodado. Foi meu objeto de estudo na conclusão da graduação do Curso de Letras e já resenhado neste espaço.

Era um escritor preocupado com a experimentação literária. Seus livros possuem estilos diferentes, pois, segundo ele, “cada romance deve ter a sua própria forma”. O crítico Temístocles Linhares afirmou que devemos destacar em Autran Dourado mais a forma, o estilo, do que os acontecimentos com as personagens. Ele utilizava técnicas narrativas como o monólogo interior, o fluxo de consciência e variações do ponto de vista (ora utilizando a primeira pessoa, ora a terceira) formando blocos narrativos, novidade para a época.

Seu primeiro livro foi publicado em 1947, a novela Teia, seguida, em 1950, pelo romance Sombra e exílio, ambas consideradas obras imaturas pelo próprio autor, sendo reunidas mais tarde sob o título Novelas de aprendizado. A partir de Tempo de amar, de 1952, já começou a exercitar diferentes formas, através de flashbacks divididos em blocos narrativos distintos. É nessa obra que aparece pela primeira vez Duas pontes, cidade fictícia onde acontece boa parte dos seus enredos.

Fez experimentos na área do conto, com Nove histórias em grupos de três, de 1957, que formou em 1972, com outros contos, o volume Solidão solitude. Rompeu de vez com a linearidade da escrita em A barca dos homens, construída por estruturas circulares, “uma multiplicidade não só de narradores [...], de focos, visões ou pontos de vista, mas de linhas narrativas  narrativas dentro de narrativas. Uma narrativa geral (macronarrativa) que se constrói através de narrativas particulares (micronarrativas)”, nas palavras do próprio escritor, em Uma poética do romance: matéria de carpintaria, de 1976.

Em 1964, publicou Uma vida em segredo, história de uma pessoa simples do interior chamada Biela. Seguindo seu pensamento de que a história define o estilo da narrativa, nesse livro Autran Dourado se decidiu por uma narrativa simples, de acordo com a configuração da protagonista. O risco do bordado, de 1970, chegou a ser considerado um livro de contos devido à autonomia de cada capítulo. Os sinos da agonia, de 1974, ambientado em Vila Rica, Minas Gerais, no final do século XVIII, época da decadência das minas de ouro, retoma a personagem grega Fedra. Autran ainda publicou os contos de Armas e corações, Violetas e caracóis, As imaginações pecaminosas (merecedor do prêmio Goethe de literatura na Alemanha) e O senhor das horas; os romances A serviço del Rei, Lucas Procópio, Um cavalheiro de antigamente, Ópera dos fantoches e Confissões de Narciso; e os ensaios Meu mestre imaginário e Breve manual de estilo e romance.

Certa vez – contou Autran Dourado em uma entrevista –, uma leitora ligou para ele tarde da noite, depois de ler Ópera dos mortos. Disse-lhe que não estava conseguindo dormir e que ele também não conseguiria: e soltou uma porção de palavrões contra o autor. Também perdi horas de sono lendo seus livros, porém ganhei a companhia de um mestre nada imaginário que conhecia como poucos o risco do bordado. Infelizmente, não posso mais agradecer a ele.

Cassionei Niches Petry é professor, mestrando em Letras e escritor. Seu primeiro livro, Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco), está à venda na Livraria Iluminura. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

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