terça-feira, janeiro 31, 2012

Crônica de um chato sobre outros chatos


Um homem corta uma árvore ao pé do Cinturão Verde, não se importando com a possibilidade de a planta ser a sustentação de um barranco, que pode mais adiante destruir a casa desse mesmo indivíduo. Cachorros, possivelmente mal alimentados, destroem sacos de lixo em busca de comida ou mesmo restos de papeis higiênicos usados, espalhando sujeira e riscos de doenças. Um jovem escuta música no seu celular, sem fone de ouvido, dentro de um ônibus, enquanto um carro na pista ao lado faz “tremer o chão” com seu som potente, ambos sem perguntar se os demais querem ouvir o mesmo tipo de música. Outro jovem, já nem tão jovem assim, compra uma casa geminada para fazer festas, começando muitas vezes depois das dez da noite, não se importando com o outro vizinho cuja parede é grudada a dele.

Liguei o “modo chato” do meu sensor interno para escrever essa crônica e falar sobre gente chata que me incomoda, mas que também deve incomodar a tantos outros que me leem.

No último domingo, escutei o som de uma motosserra que cortava uma árvore próximo ao nosso Cinturão Verde. Digo próximo, pois não sei se realmente não estavam cortando dentro da área de preservação. A cada dia a especulação imobiliária vai destruindo o que resta de verde em nossa cidade e, o pior, tomando espaço dos morros. Parece que as notícias dos desastres em Santa Catarina e no Rio de Janeiro não afetam ninguém. Pensam que nunca pode acontecer o mesmo em nossa cidade. Os governantes fecham os olhos para tudo isso. E o incomodado, reclama para quem?

Muitos dizem adorar os animais e ficam indignados quando alguém os maltrata, chegando inclusive a desejar a morte de fulana que torturou um yorkshire. No entanto, dão pouca comida para seus próprios cães e os deixam soltos nas ruas, revirando lixos dos vizinhos e fuçando inclusive restos de fezes humanas (as fraldas usadas são um banquete). Isso é gostar dos seus bichinhos? É bom lembrar que não são apenas vira-latas, mas também cachorros de raça e com coleiras.

Mas se há coisa que mais incomoda no convívio com o outro é a questão da música. Nesse ponto, estou pagando meus pecados. Mais jovem, queria mostrar para todo mundo as novidades que tinha entre minhas fitas K-7 e, para tanto, o som tinha que estar no último volume. Hoje, menos jovem, morando num lugar que até pouco tempo era silencioso, acho chato ouvir a música dos outros, por isso lancei a campanha: “Seja egoísta: use fone de ouvido”. Por que obrigar as outras pessoas a ouvirem o que não querem? Por que o som do carro tem que ser propagado para fora e não para dentro do veículo? Será porque nem o motorista suporta a música, mas a coloca por estar na moda? Já nos celulares e tocadores de MP3, a distorção do som dos minúsculos alto-falantes torna tudo mais irritante ainda. Se estiver rolando Michel Teló então...

O maior desrespeito, porém, acontece no momento em que envolve nosso lar. Quando alcançamos o sonho da casa própria, um dos objetivos é ter sossego. Parece, no entanto, que essa palavra não faz parte do vocabulário de algumas pessoas. Imaginem três casas geminadas. Imaginem que uma delas é comprada por alguém que faz festas em diferentes dias da semana, menos no sábado (que seria tolerável), põe o som alto depois das 22 horas até à meia-noite (às vezes até a uma, duas horas), com as músicas de que ele e sua turma gostam, turma essa que chega buzinando, gritam o tempo todo, bebem e depois saem dirigindo. “Chama a polícia”, me aconselham os amigos. Acontece que chamamos várias vezes, eles dizem que vão verificar, mas não aparecem, sendo que a última vez quem atendeu disse que não há nada que impeça o som alto depois das 22 horas, só se fosse um condomínio. O que este vizinho chato que vos escreve pode fazer em relação ao outro vizinho chato, se nem mesmo a polícia cumpre com suas atribuições? A lei, é bom frisar, diz que a perturbação do sossego alheio acontece em qualquer hora do dia.

Esta crônica chata, de um professor chato, é para lembrar aos outros chatos que a vida poderia ser menos chata se as pessoas respeitassem os limites. Bom senso não faz mal a ninguém.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Juan Villoro no Traçando Livros de hoje



Juanito e os livros

Cassionei Niches Petry




O Traçando Livros de hoje é destinado aos jovens entre 10 e 100 anos, que não sabem ainda o que ler nestas férias ou querem ampliar seu rol de leituras. A traça que vos escreve acaba de sair de um paraíso. Um livro cuja história se passa em um casarão abarrotado de suculentos volumes prontos para serem devorados. O problema é agarrá-los, pois eles têm vida e saem das prateleiras, se escondendo às vezes. Um deles, inclusive, precisa ser domado: é O livro selvagem.

A história, escrita pelo mexicano Juan Villoro, com tradução de Antônio Xerxenesky e publicada pela Companhia das Letras, tem como protagonista Juanito, cujos pais se separaram há pouco tempo. Ele foi passar as férias com o tio Tito, numa casa repleta de livros e três gatos. Seu tio vivia o tempo todo lendo e tomando um “chá de cachimbo”, o que o fazia ir ao banheiro seguidamente. A cozinha e a limpeza da casa ficavam por conta de Eufrosia, que preparava pratos com nomes de escritores consagrados e cuidava para não tirar as aranhas da casa, pois elas matavam os insetos.

Nesse ambiente de costumes tão estranhos, os cômodos eram ocupados por livros que costumavam sumir de vez em quando. O tio explicou ao jovem: “Você procura um em uma estante e o encontra em outra, ou não o encontra por anos e de repente ele aparece na frente do seu nariz. Antes eu achava que Eufrosia os mudava de lugar depois de tirar o pó, depois pensei que era eu que os movia sem me dar conta (...). Mas logo concluí que os livros se mexem sozinhos: procuram ou repelem você.” Partindo dessa ideia, tio Tito disse que, em outra oportunidade em que o sobrinho estivera na casa, percebera uma estranha movimentação dos livros. Juanito, então, seria um leitor princeps, um leitor único, um príncipe para os livros. “Você acordou as almas da biblioteca”.

Por isso a presença do menino era muito importante ali. Havia um livro que guardava um grande segredo, mas que não se deixava ser lido e talvez só Junito pudesse conseguir. Ele, porém, precisava de ajuda, pois nunca gostara de ler e precisava conquistar esse encanto. Encontrou amparo em Catalina, jovem funcionária de uma farmácia, fascinada pela leitura, e por quem o pequeno Juan acabou se apaixonando. Começa aí uma grande aventura cheia de surpresas em meio à biblioteca do tio, tudo para domar o tal livro rebelde e descobrir o segredo que ele contém.

Em O livro selvagem, Juan Villoro, um dos mais destacados escritores mexicanos contemporâneos, autor do premiado El testigo, faz sua profissão de fé na literatura. A separação dos pais uniu Juanito aos livros. O pai dele, inclusive, era construtor de pontes. Os livros se transformaram em pontes que levaram Juanito a novos conhecimentos e, principalmente, o ligaram a uma nova fase da vida, passando da infância à adolescência. Para Villoro, “ler não é fugir dos problemas da vida, mas sim um elemento para voltar a ela com outras armas”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Gostaria de ter um casarão como o do tio Tito. Escreve para o Mix quinzenalmente e mantém o blog cassionei.blogspot.com. Sobre livros, é claro.

domingo, janeiro 22, 2012

Escribe Juan Villoro

"La lectura es como el paracaidismo: en condiciones normales la practican algunos espíritus arriesgados, pero en caso de emergencia le salva la vida a cualquiera."

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Escribiendo

“Dentro de una pieza cavernosa, esferoide, un novelista se encontraba escribiendo. Al parecer, de lo más entretenido.”
 Em “Aventuras de un novelista atonal”, de Alberto Laiseca.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Diário de um fracasso anunciado: as angústias da criação (IV)


19/01/2012

Há uma pilha de livros sobre criação literária ao meu lado. Depois de escrever os dois últimos artigos, ou melhor, ensaios para disciplinas do mestrado, agora é mergulhar na dissertação e no romance. Para quem está lendo meu blog pela primeira vez, meu estudo será sobre o processo de criação da narrativa longa que estou escrevendo, e isso envolve a leitura de textos sobre o assunto. Mas como esse diário é sobre o possível fracasso que será meu livro, vou falar sobre outros dois fracassos anunciados.

Tenho prontos dois livros para serem publicados. Prontos é força de expressão, porque estou sempre tentando melhorar alguma coisa neles. Um é de contos, um projeto antigo, e que está nas mãos de uma editora aqui da cidade. Iria sair no início do ano passado, depois passou para o final do ano e agora, talvez, saia em 2012. Esse já é um fracasso antes de ser publicado. Confesso que, como sempre, as esperanças são poucas, mas é o livro que está mais próximo de sair da gaveta.

O outro é uma narrativa infantil, já negado por uma grande editora. Fracasso na primeira tentativa ousada. O projeto surgiu a partir de um conto do livro anterior, que foi ampliado. Talvez ainda mande para um concurso recente que teve as inscrições prorrogadas. O prêmio é a publicação e um adiantamento de 30 mil reais. Aliás, devido à produção dos ensaios, perdi o primeiro prazo. Seria um bom sinal a prorrogação? Como diria o grande filósofo contemporâneo, mago, imortal e escritor podre de rico Paul Rabbit, o universo conspira sempre a nosso favor. Se passar no concurso, prometo que lerei pelo menos um livro inteiro do parceiro do Raul Seixas. Farei esse esforço. Juro por... ah, deixa pra lá.

Sobre o romance, posso dizer que os leitores do blog já leram partes dele sem o saber. Com certeza haverá uma dedicatória aos leitores mais constantes, principalmente aqueles que comentam. Isso, claro, se o livro um dia for publicado.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

BBB e o narcisismo

http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/324350-bbb_e_o_narcisismo/edicao:2012-01-18.html

Todos nós somos um pouco narcisistas, já dizia Freud. Uma das primeiras coisas que fazemos pela manhã é olhar para o espelho. Na maioria das vezes, nos assustamos com o que vemos. Começa aí todo o processo de cuidar da aparência e, num grau de narcisismo menor, a pessoa vai apenas lavar o rosto, escovar os dentes e pentear o cabelo. Em graus maiores, não se deixa nem o quarto sem aplicar uma maquiagem. Antes de sair de casa, mais uma olhadela no espelho. Na rua, até as vitrines das lojas servem para dar mais uma conferida no visual. Os vidros dos carros estacionados também servem. Vale tudo para cuidar da vaidade.

Muitos sabem o significado de narcisismo, mas poucos conhecem a história que deu origem à expressão. Na mitologia grega, Narciso era filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope. Logo após seu nascimento, um oráculo previu que sua vida seria longa, desde que nunca olhasse para si mesmo. Seus pais cuidaram para que isso não acontecesse. Quando jovem, porém, ao passar por um lago, ele acabou vendo seu reflexo na superfície da água. Na versão de Ovídio, na obra Metamorfoses, Narciso ficou à beira do lago contemplando sua beleza até definhar e acabou se transformando em uma flor, a que se deu o nome de narciso. Em outra versão do mito, encantado com a figura na água, pensando que era outra pessoa, debruçou-se para abraçá-la e acabou morrendo afogado.

Os mitos tinham, entre outras funções, o objetivo de servir de ensinamento sobre fatos da nossa vida. No caso, podemos interpretar um alerta sobre os perigos da vaidade excessiva. O nome Narciso vem da mesma raiz grega da palavra “narcótico”. Ou seja, o culto exagerado da nossa beleza pode nos deixar entorpecidos e esquecer tudo e todos que estão ao nosso redor. O mais grave é se isso acontece na frente de milhões de pessoas.

O reality show Big Brother é o paraíso dos narcisistas. Nessa casa, com espelhos por todos os lados, os participantes deixam aflorar, no mais alto grau, seu lado eu-me-amo-não-posso-mais-viver-sem-mim, para lembrar uma música do Ultraje a Rigor. Eles não passam pelos espelhos sem dar uma olhada e dar um retoque no visual, com o acréscimo de que sabem que estão sendo assistidos. Eis um paradoxo interessante. Todo o narcisismo aplicado aqui não é apenas para si próprio, mas também para os outros. Ao mesmo tempo, narcotizados que estão por ser o centro das atenções, esquecem que estão sendo julgados e estão pouco se importando com o que o público, ou melhor, a massa, vai pensar sobre sua conduta na casa.

Os participantes deste tipo de programa de entretenimento estão acostumados a se exibir em público, seja posando para revistas femininas e masculinas, seja tirando a roupa na frente de uma webcam. Mesmo sendo acostumados a serem julgados pelos outros, mal sabem os riscos que tal exposição na mídia pode oferecer a sua imagem. Quantas pessoas não perderam empregos devido a fotos de gosto duvidoso postadas em redes sociais na internet? Se conhecessem a história do ser mitológico, saberiam que ser tão popular não é tão positivo, pois, como já filosofaram os Engenheiros do Hawaii: “o pop não poupa ninguém”.

sábado, janeiro 14, 2012

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Tentando descrever o que é o Facebook

1) Facebook é um lugar onde as pessoas satisfazem seus desejos de copiar/colar, copiar/colar, ad infinitum...
2) Facebook é um lugar onde a produção própria é menos apreciada do que o cópia/cola.
3) Facebook é um lugar onde as pessoas curtem inclusive notícias sobre acidentes, desastres, mortes...
4) Facebook é um lugar onde você entra e depois se pergunta por que entra. E depois entra de novo, ad infinitum...
5) Facebook é um lugar onde história não é um texto que tem início, meio e fim ou registro de fatos importantes para a humanidade.
6) Facebook é um lugar onde você critica as bobagens que outros compartilham e depois compartilha as suas bobagens.
7) (descrição censurada)

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Duas perguntas básicas sobre o piso dos professores e o jornal Zero Hora

1 - Por que em nenhum momento o jornal Zero Hora (me refiro à edição de hoje, mas serve para outras edições) menciona que o estado, caso não consiga pagar o piso, deve pedir ajuda para o governo federal. Lembrando que o estado tem que justificar por que não pode pagar.
2 - Por que a coluna página 10, mesmo com uma interina, sempre pede a opinião da ex-secretária Mariza Abreu, a qual, por sua vez, sempre fala em mexer no plano de carreira do magistério?

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Falando sobre a minha doença no Traçando Livros de hoje


Minha página no Mix de hoje no jornal Gazeta do Sul, sobre Enrique Vila-Matas: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/323208-enfermidade_literaria/edicao:2012-01-11.html

Enfermidade literária

Cassionei Niches Petry


Sou um homem doente. Não como o “homem do subsolo”, de Dostoiévski, pois não sou mau, tampouco sofro do fígado. Minha doença é a literatura. Há pouco fiquei sabendo: minha irmã, que é manicure, tem uma cliente que me viu de pé, escorado numa parede, na frente de um grande supermercado da cidade, onde esperava minha esposa sair do trabalho, no meio de uma movimentação intensa de véspera de Ano-Novo. E eu estava lendo! Imagine! “Só pode ser doente”, disse a senhora. Tenho que admitir que talvez esteja mesmo, mas não pretendo me curar. Se os leitores querem me dar uma força, torçam para que eu não me cure jamais.

A doença foi muito bem diagnosticada em um livro de outro doente e dá título ao volume, O mal de Montano, do escritor espanhol Enrique Vila-Matas (CosacNaify, tradução de Celso Mauro Paciornik, 328 páginas). Trata-se de uma enfermidade cujos sintomas são: viver “rodeado de citações de livros e autores”; “mania de ver tudo a partir da literatura”; “obsessão pelo mundo dos livros” – chamada de literatosis, expressão criada por outro doente, o uruguaio Juan Carlos Onetti –; tentar ser, encarnar, se converter “em carne e osso na literatura”; ler, ler, ler e, claro, querer escrever literatura, transformar tudo em literatura. 

Toda a obra de Vila-Matas se caracteriza por esse mal. Há sempre personagens que são escritores, críticos literários ou editores – como no romance mais recente, Dublinesca – que citam outros escritores, outros livros, que discutem sobre o fim da literatura, sobre o bloqueio criativo, sobre a recusa em escrever – tema do romance mais famoso do escritor, Bartleby e companhia –, sobre grupos de escritores que seguem regras de escrita e de comportamento – em História abreviada da literatura portátil –, sobre escritores que resolvem simplesmente desaparecer – em Doutor Pasavento, já resenhado aqui no Traçando Livros – sobre livros que matam quem os lê – em La asesina ilustrada, ainda não traduzido para o português – e sobre escritores que tentam imitar a vida de seus ídolos literários – caso de Paris não tem fim, em que o autor conta seu início de carreira, em que tentava ser igual à Hemingway. Além disso, os textos de Vila-Matas se confundem muitas vezes com a sua própria vida, e não sabemos o que é real e o que é ficção.

O mal de Montano, de certa forma, resume todas as obsessões do autor. É dividido em cinco partes bem distintas, que surpreendem o leitor pelas mudanças de rumo. Logicamente não vou revelar quais são as mudanças. O que posso dizer é que, na primeira parte, há o relato de um crítico literário cuja esposa, Rosa, o aconselha a viajar para o Chile a fim de tentar se livrar de sua enfermidade literária. Lá, passa a virada do século com uma aviadora amiga do casal, que nunca falava sobre literatura, e com o homem mais feio do mundo, Tongoy, um duplo do Nosferatu do cinema. Tongoy o orienta a, em vez de se preocupar com sua doença, tentar impedir a morte da literatura. O crítico tem um filho que mora na França, cujo nome é Montano, que sofre de um bloqueio criativo depois de escrever um romance sobre escritores que deixam de escrever. Inspirado num conto do filho, o crítico cria um mapa geográfico do mal de Montano para viver a literatura e evitar seu desaparecimento.

Na segunda parte, há uma desconstrução da primeira. Temos agora uma espécie de enciclopédia sobre os escritores preferidos de Rosario Girondo, que ficamos sabendo ser o narrador da primeira parte. É revelado também que sua doença literária poderia ter sido herdada de sua mãe, que escrevia diários e poemas. Na terceira parte, os relatos anteriores são mais uma vez descontruídos em uma conferência proferida por Girondo, em Budapeste, sobre diários pessoais de escritores. Na quarta parte, outro diário põe mais dúvidas sobre os relatos. Por fim, a quinta parte fecha o livro com uma narrativa metafísica.

Já escreveram que Vila-Matas é um escritor somente para escritores. Sua obra é metaliterária ao extremo, o que afasta muitos leitores e críticos os quais defendem outros temas da nossa vida mais relevantes para serem discutidos pela literatura. No entanto, como o narrador de O mal de Montano escreve, “entre a vida e os livros, fico com estes, que me ajudam a entendê-la. A literatura tem me permitido sempre compreender a vida. Mas precisamente por isso me deixa fora dela. Digo sinceramente: está bem assim”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Desde criança sofre do mal de Montano. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

sexta-feira, janeiro 06, 2012

Lugar para escrever

Vila-Matas no seu "rincón"

“Os cadernos de capa azul, os dois lápis, o apontador de lápis (com o canivete desperdiçaria muito), as mesas com seus tampos de mármore, o perfume das primeiras horas da manhã, apagar aqui, corrigir ali, mais um bocado de sorte - eis tudo o que era necessário.”
Isso era o essencial para Hemingway no seu ritual de escrita, segundo relata em Paris era uma festa, suas memórias do início de carreira, quando foi viver na capital francesa. Reli o livro antes de mergulhar em Paris no se acaba nunca, de Enrique Vila-Matas, que narra a tentativa do escritor catalão de imitar seu ídolo literário.
No meu caso, sinto a falta da minha biblioteca, que ainda não foi montada aqui na casa nova – estou apenas aguardando o meu pai instalar a porta da garagem onde ela terá seu espaço –, e o meu computador. Não é que não goste do notebook, mas estava acostumado com meu PC, minha escrivaninha, as duas estantes de livros atrás de mim e as revistas e os papéis espalhados por todo o lado. Sem contar que é desagradável escrever na mesa entre a cozinha e a sala e com a TV geralmente ligada.
Por coincidência, meu ideal de ambiente e condições de escrita são parecidos com a de Vila-Matas, meu ídolo literário do momento. Sem esquecer, claro, a generosa xícara de café.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Diário de um fracasso anunciado: as angústias da criação (III)


 "Martinique", foto de André Kertész

04/01/12
Entre as angústias da criação, está a angústia da influência. É o título, aliás, de um livro de Harold Bloom. As influências perseguem o escritor. Às vezes é o escritor que as persegue. A sombra sobre mim agora é a de Enrique Vila-Matas, o que lembra a capa do seu livro de contos Exploradores del abismo, ilustrada com uma foto de André Kertész.
Na contracapa do volume editado pela Anagrama, de Barcelona, lê-se que, quando perguntado sobre o que estava escrevendo depois da publicação de Doctor Pasavento, Vila-Matas respondeu: “Escribo el título de un libro”. A partir do título, que tinha a ver com a sensação de estar com um abismo a sua frente depois de terminar seu romance, o escritor catalão começou a escrever os relatos, sempre relacionados ao tema.
Meu romance também começou com um título, citado entre as obras de um personagem que é escritor em um dos contos do meu livro ainda inédito. Escritor que escreveu inclusive um livro de contos cujo título é o mesmo do livro que eu escrevi e também de um livro infanto cujo título é o mesmo do que eu escrevi. Qualquer semelhança com Vila-Matas não é um mero acidente de percurso.
Falando em semelhanças e sincronias, a foto de Kertész também foi usada na capa de um livro de outra das minhas influências. Trata-se de Deixe o quarto com está, de Amílcar Bettega Barbosa, editado pela Companhia das Letras. Escrevi sobre a obra aqui.
Como pode perceber, caro diário, a literatura é “um jardim de caminhos que se bifurcam”, só para citar outra influência, esta não tão grande assim.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

A luta e a vida

Meu texto, já publicado anteriormente aqui no blog, saiu hoje na página de opinião da Gazeta do Sul: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/321621-a_luta_e_a_vida/edicao:2012-01-02.html

Muitos falam que a vida é uma luta diária. Mas de que tipo ela seria? Uma das artes marciais, como o judô, o jiu-jitsu, o karatê, o kung fu ou a capoeira? Ou de outras categorias como o boxe, o sumô e o telecatch?
É interessante falar em artes marciais nesse período que corresponde à entrada de um novo ano. Marcial vem de Marte, o deus da guerra na mitologia romana. Cada começo de ano tem a ver com uma nova guerra em que vamos entrar – lembrando que na antiguidade o ano começava em março. Quando falamos em artes marciais, falamos sobre artes de combate em que não se usa armas, o que já é uma boa ideia para um mundo que busca a paz.
Podemos encarar a vida no próximo ano como uma luta de judô. Aqui a estratégia é importante. Estudamos atentamente nosso objetivo antes de agarrá-lo. A palavra judô, aliás, significa “caminho da suavidade”. Calmamente podemos derrubar nossos obstáculos.
Já o Jiu-jitsu, por incrível que pareça, significa algo como a “arte da suavidade” ou “técnica da brandura”, mas seus seguidores são conhecidos por atos de violência. Contraditória como a vida, portanto, essa luta – “a suave arte de quebrar os ossos” –tem muito a ver com ela. Como dizia Che Guevara: “Endurecer sempre, mas perder a ternura jamais.”
O caratê e o kung fu me trazem certo ar nostálgico. Quando criança queria aprender essas artes, influenciado pelos filmes do Bruce Lee ou os quadrinhos do Mestre do Kung Fu. Sempre ouvia dizer que essas lutas serviam tão somente para defesa pessoal, e era do que mais precisava depois de apanhar dos mais fortes na escola. Defender-se dos perigos da vida, mas consciente de que não devemos atacar, eis a grande lição.
A vida parece também com a capoeira, quando nos esquivamos dos perigos, damos saltos mortais e nosso objetivo não é atingir o adversário. E como a vida de quase todo brasileiro, essa luta é acompanhada por música, dança e muita ginga.
Ou a vida seria uma luta de boxe? Em ambos levamos muita pancada na cara, caímos, levantamos, mas também batemos. Uns ganham por nocaute, de uma hora para outra crescem na vida, outros vencem por pontos, anos e anos lutando para ter um lugar ao sol. Coincidência ou não, há 12 rounds em cada luta, como os 12 meses do ano.
Outras vezes a vida tem o peso do sumô. Somos gigantes, como os deuses das lendas japonesas, lutando para que não nos tirem do círculo da vida.
No livro Mitologias, o filósofo francês Roland Barthes escreveu um ensaio sobre o catch francês, que no Brasil ficou conhecido como telecatch ou luta livre. Para ele, esse tipo de luta não é um esporte, mas um espetáculo em que há toda uma encenação. O lutador, quando está perdendo a luta, fica se contorcendo de “dor” no ringue, prolongando seu sofrimento para que o público acompanhe sua tragédia, público ciente de que tudo é fingimento, pois o catch não é um espetáculo sádico: “trata-se apenas de uma imagem, e o espectador não deseja o sofrimento real do lutador; saboreia unicamente a perfeição de uma iconografia.” A vida é também isso: fingimento, encenação, teatro, no qual somos atores e também expectadores.
Eu, de minha parte, vou continuar a luta que Carlos Drummond de Andrade imortalizou num poema: a luta com a palavra. Um luta vã – como todas as outras – na qual apanho muito, saio todo machucado, mas que no final cura as feridas de outras pelejas. E você, leitor, que luta vai praticar no novo ano?