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Juan Villoro no Traçando Livros de hoje



Juanito e os livros

Cassionei Niches Petry




O Traçando Livros de hoje é destinado aos jovens entre 10 e 100 anos, que não sabem ainda o que ler nestas férias ou querem ampliar seu rol de leituras. A traça que vos escreve acaba de sair de um paraíso. Um livro cuja história se passa em um casarão abarrotado de suculentos volumes prontos para serem devorados. O problema é agarrá-los, pois eles têm vida e saem das prateleiras, se escondendo às vezes. Um deles, inclusive, precisa ser domado: é O livro selvagem.

A história, escrita pelo mexicano Juan Villoro, com tradução de Antônio Xerxenesky e publicada pela Companhia das Letras, tem como protagonista Juanito, cujos pais se separaram há pouco tempo. Ele foi passar as férias com o tio Tito, numa casa repleta de livros e três gatos. Seu tio vivia o tempo todo lendo e tomando um “chá de cachimbo”, o que o fazia ir ao banheiro seguidamente. A cozinha e a limpeza da casa ficavam por conta de Eufrosia, que preparava pratos com nomes de escritores consagrados e cuidava para não tirar as aranhas da casa, pois elas matavam os insetos.

Nesse ambiente de costumes tão estranhos, os cômodos eram ocupados por livros que costumavam sumir de vez em quando. O tio explicou ao jovem: “Você procura um em uma estante e o encontra em outra, ou não o encontra por anos e de repente ele aparece na frente do seu nariz. Antes eu achava que Eufrosia os mudava de lugar depois de tirar o pó, depois pensei que era eu que os movia sem me dar conta (...). Mas logo concluí que os livros se mexem sozinhos: procuram ou repelem você.” Partindo dessa ideia, tio Tito disse que, em outra oportunidade em que o sobrinho estivera na casa, percebera uma estranha movimentação dos livros. Juanito, então, seria um leitor princeps, um leitor único, um príncipe para os livros. “Você acordou as almas da biblioteca”.

Por isso a presença do menino era muito importante ali. Havia um livro que guardava um grande segredo, mas que não se deixava ser lido e talvez só Junito pudesse conseguir. Ele, porém, precisava de ajuda, pois nunca gostara de ler e precisava conquistar esse encanto. Encontrou amparo em Catalina, jovem funcionária de uma farmácia, fascinada pela leitura, e por quem o pequeno Juan acabou se apaixonando. Começa aí uma grande aventura cheia de surpresas em meio à biblioteca do tio, tudo para domar o tal livro rebelde e descobrir o segredo que ele contém.

Em O livro selvagem, Juan Villoro, um dos mais destacados escritores mexicanos contemporâneos, autor do premiado El testigo, faz sua profissão de fé na literatura. A separação dos pais uniu Juanito aos livros. O pai dele, inclusive, era construtor de pontes. Os livros se transformaram em pontes que levaram Juanito a novos conhecimentos e, principalmente, o ligaram a uma nova fase da vida, passando da infância à adolescência. Para Villoro, “ler não é fugir dos problemas da vida, mas sim um elemento para voltar a ela com outras armas”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Gostaria de ter um casarão como o do tio Tito. Escreve para o Mix quinzenalmente e mantém o blog cassionei.blogspot.com. Sobre livros, é claro.

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