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No Traçando livros de hoje, A loja dos suicidas


Como estou de férias, curtindo uma praia, minha coluna da Gazeta do Sul de hoje traz um texto já publicado aqui no blog. Também não tenho a imagem da página para postar. Segue o texto:


 http://www.grupogaz.com.br/gazetadosul/noticia/433393-morra_ou_tenha_seu_dinheiro_de_volta/edicao:2014-01-22.html

Morra ou tenha seu dinheiro de volta

La tienda de los suicidas, do francês Jean Teulé, (li a tradução espanhola, mas há uma edição brasileira pela Ediouro, A loja dos suicidas) é um romance que desperdiça um tema abordado, num primeiro momento, de forma interessantíssima, mas que acaba caindo num tom otimista, beirando a autoajuda. O humor negro transforma-se numa ode à alegria, e a triste cena final serve apenas para deixar uma mensagem de que “todos temos uma missão a cumprir”.

A história se passa numa época futura, depois de várias guerras e mudanças climáticas, além do fim da camada de ozônio. O universo é governado por uma ditadora, Indira Tu-Ka-Ta, informação que somente na segunda metade do romance aparece. A família Tuvache é dona de uma loja especializada em produtos e utensílios que ajudam as pessoas a se suicidarem: venenos, cordas para se enforcar, blocos de concreto para amarrar ao corpo e se atirar em um rio, facas, sacos plásticos para sufocamento, etc. O estabelecimento é uma tradição familiar, sendo que seus membros levam a vida pensando apenas em coisas ruins e depressivas – a mãe, por exemplo, contava histórias de suicídios para as crianças dormirem e depois lhes desejava bons pesadelos–, só não terminando eles mesmos com suas existências porque não haveria ninguém para levar o negócio adiante. 

O slogan da loja não poderia ser diferente: “Sua vida tem sido um fracasso? Conosco sua morte será um êxito!” Quando um cliente sai da loja dizem sempre “adeus” e nunca “volte sempre”. O sucesso é nunca trazer o cliente de volta. 

Os nomes dos membros da família foram dados em homenagem a suicidas famosos. O pai, Mishima, foi nomeado com o sobrenome do escritor japonês que cometeu harakiri; Vincent, o irmão mais velho, refere-se ao pintor Van Gogh; a irmã, é Marilyn, homenagem à Monroe; já o caçula é o Alan, cujo xará, Alan Turing, considerado o “pai da informática”, teria se suicidado comendo uma maçã que foi imersa em cianeto.

Pois é o irmão mais novo o culpado pela quebra de equilíbrio na história, necessária, nessa caso, para gerar os conflitos. Ao contrário dos demais, o menino, sorri, é feliz, canta, brinca e incita os clientes a desistirem de morrer. É a ovelha negra da família, a que anda no caminho errado, mas que acaba levando, previsivelmente, toda a família para seu lado. É aí que o enredo decepciona e perde toda a ironia inicial. 

O livro foi adaptado para o teatro e o cinema, num longa de animação. Ambos, assim como o romance, devem agradar aos jovens, que procuram histórias mais divertidas, objetivo que tinha o autor, segundo revelou em uma entrevista. No entanto, devem frustrar os adultos ranzinzas e pessimistas como eu, que esperam da arte mais do que simples entretenimento.


Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e mantém um blog, cassionei.blogspot.com. O suicídio na literatura é um de seus temas de estudo.

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