Avançar para o conteúdo principal

O destino em “Alceste”


“Ai de mim! Ai de mim”, repetem ad nauseam os personagens das tragédias gregas, títeres dos deuses e do destino. O sofrimento e a resignação são uma constante na obra dos dramaturgos Sófocles, Ésquilo e Eurípides.  Este último, por exemplo, escreveu Alceste, em 438 a. C., que traz a história da mulher que entregou sua vida aos deuses em troca da sobrevivência de seu marido, o rei Admeto.
Segundo o mito em que se baseia a peça, Apolo foi punido por matar os ciclopes que forjaram o raio de Zeus que matou Asclépio. Para tanto, foi encarregado de servir durante um ano a um mortal. Escolhendo Admeto, consegue convencer as Parcas para que este não morresse no dia destinado a ele. Elas aceitam o pedido, desde que outra pessoa se oferecesse para morrer em seu lugar. Admeto pensava que algum servo ou seus próprios pais se sacrificassem, mas não o fazem.
Alceste, esposa fiel, decide ser a vítima, e a peça começa justamente no dia em que Thânatos, a Morte, vem cumprir com sua obrigação. Apolo ainda tenta fazer com que a rainha se livre, mas sem sucesso. O destino está selado. “É mister que te conforme com a desgraça”, diz o coro ao rei. “Feliz ou não, que cada qual tenha o seu destino”, diz seu velho pai, a quem Admeto renega por não ter se oferecido para morrer.
Nesse meio tempo, no entanto, aparece Héracles, em viagem para realizar mais um de seus 12 trabalhos. Para não ferir a lei da hospitalidade, Admeto esconde a morte de Alceste, caso contrário o herói iria embora. Quando descobre a verdade, depois de beber e fazer festa enquanto os criados estavam tristes, Héracles tenta buscar no Hades a rainha, como reconhecimento ao ato do anfitrião. Se irá conseguir? Sugiro que leiam a peça para conhecer o desfecho.
O que me inquieta nessas tragédias e na mitologia grega é a questão do destino, do fado, das Parcas ou Moiras e das predições dos oráculos. Os mortais tentam driblar o destino, quase sempre inexorável. Há, às vezes, algumas brechas, ou estariam elas já pré-determinadas justamente pelo fado? Não acredito em destino, não há nenhuma força superior que tenha um plano para nós. Na literatura, porém, o tema é sempre instigante e gera obras-primas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …