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Muita louvação pode prejudicar o escritor


Gostaria de me redimir parcialmente de um comentário que escrevi numa rede social ao calor do final da leitura de um livro. Havia escrito que um romance recente de um bom escritor era ruim, mas que não escreveria a crítica, pois o autor não a mereceria, ainda mais que a mandaria para o jornal, e também porque seria voz única, visto que a obra vem recebendo somente elogios. Não quis citar nomes. Algumas pessoas, no entanto, que me enviaram mensagens chegaram a matar a charada e me pediram para escrever.
Comentei em outra crítica sobre a decepção que livros como A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha, podem causar no leitor que antes leu elogios exacerbados sobre as obras. É o que acontece com O lado imóvel do tempo, do ainda novato Matheus Arcaro, editado pela Patuá. É já seu segundo lançamento. O primeiro, Violeta velha e outras flores, uma coletânea de contos da mesma editora, mereceu uma resenha positiva minha no blog.  Fechei o texto dizendo, inclusive, que era um nome a se guardar. E mantenho o que escrevi.
Acontece que seu romance, apesar de bem escrito, com experimentações, referências intertextuais e o vai e vem temporal bem construído, desliza, ou melhor, derrapa no que os escritores premiados (seus prêmios devidamente realçados ao lado dos nomes, numa tentativa de validar as opiniões) destacaram em seus elogios na orelha, quarta capa, prefácio e posfácio. Nelson de Oliveira, por exemplo, afirma, na quarta capa, que o protagonista, Salvador dos Santos, é um assassino em série que faz da morte uma arte, assim como Maria Valéria Rezende lembra, na orelha, que estamos diante de “talvez um romance policial”. Não vou me fixar muito nos que os outros disseram, nem vou sublinhar a adjetivação exagerada deles, mas criticar isso é importante, pois o leitor comum se guia justamente por esses acessórios. Como sou também um leitor comum, esperei por esse serial killer artista e achei que leria um romance policial-existencial, digamos assim. As mortes, porém, demoram para aparecer. Somente na página 57 o protagonista ainda planeja matar para se imortalizar, já que não conseguiu ser conhecido como escritor e se aposentou como um simples e inofensivo funcionário de banco.
Temos aqui um senhor de 70 anos que decide ser um assassino e deseja ser logo preso para receber os holofotes da fama; um poeta que se utiliza da coleira do seu falecido cão chamado Pessoa para matar artisticamente; um preso que facilmente aceita fazer sexo oral no carcereiro só para poder ficar com a coleira na cela, algo que estava entre seus objetos pessoais e não apreendido como arma dos crimes, e fica com ela enrolada na mão sem chamar a atenção de ninguém no presídio (“serpente em hibernação” é a metáfora utilizada). E pasmem: depois de brigar com seus companheiros de cela, ele é levado para a solitária e lá, ainda como sua coleira de estimação, se enforca sustentando-a num fio de luz pendido no teto e segurando firmemente uma carta em uma das mãos!
O romance não é muito ruim, como me apressei em dizer. Ele tem essas derrapadas imperdoáveis, no entanto também tem momentos bons. Poderia ser mais explorada a relação conturbada do protagonista com seu pai, um pastor evangélico violento, que acabou servindo apenas para dar um motivo psicanalítico para suas ações depois de velho. Seu casamento frustrado com Suzana (que o deixa depois do fracasso do lançamento do segundo livro de poemas) também é uma boa intriga, que foi abandonada pelo escritor (leio agora um romance de Lúcio Cardoso, A luz no subsolo, em que a protagonista questiona a paixão do marido pelos livros, dizendo que eles são mais perigosos para um relacionamento do que uma amante). O próprio anti-herói mereceria um melhor tratamento, personagem, aliás, semelhante em alguns aspectos ao de um conto de Guy de Maupassant, "Passeio", em que um funcionário exemplar, com uma rotina burocrática, toma uma atitude impensável quando está prestes a se aposentar.

Parece que Matheus Arcaro se apressou em publicar o romance, talvez satisfeito com o que lhe disseram os premiados escritores e os tantos outros leitores dos originais que foram elencados nos agradecimentos finais. Eu, que me surpreendi positivamente com o seu livro de contos, me decepcionei bastante, porque conheço o potencial do escritor (e me surpreendo ainda mais por ninguém o ter orientado sobre as inverossimilhanças do enredo). Mantenho, entretanto, o que havia dito: é um nome de quem se pode esperar ainda bons livros.

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