quarta-feira, março 30, 2016

“Conto de escola”: corrupção, delação e o "tamborzão"

Machado de Assis era um perspicaz analista da condição humana. Em seus romance e contos, somos retratados com tintas nada positivas, mostrando como é verdadeiramente nosso caráter, ou melhor, nossa falta de caráter.

Vejamos o “Conto de escola”, publicado no livro Várias histórias. O narrador, Pilar, assume que está longe de ser “um menino de virtudes”, tendo em vista que, depois de cabular a aula e receber por isso uma surra do pai, decide no outro dia comparecer ao colégio, mas só para não receber outro castigo. Lá chegando, é interpelado pelo colega Raimundo, filho do professor Policarpo. Tentando ser discreto e se livrar dos olhos do pai, Raimundo demora em fazer o pedido ao amigo. Ambos têm medo da palmatória do mestre.

Quando consegue falar, diz a Pilar que tem em seu bolso uma moeda de prata. O narrador confessa ao leitor que a moeda lhe “fez pular o coração”. Raimundo então diz que a moeda seria dele a partir de “uma troca de serviço: ele me daria a moeda e eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe.” Tem medo de que o pai descubra que  não conseguiu entender o conteúdo da aula.

Conta o narrador: “Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma ideia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.

Pilar aceita a moeda. Acontece que outro colega, o Curvelo, disfarçadamente cuidava o movimento dos dois. Tal um grampo telefônico, o menino fica sabendo da artimanha dos colegas e os denuncia ao mestre, o juiz que aceita a delação e ainda tem como prova a moeda do bolso do aluno, o que os leva a serem julgados e condenados à palmatória.

No outro dia, Pilar cabula mais uma vez a aula, desta feita para seguir um batalhão de soldados marchando ao som de um tambor. E conclui a narrativa: “contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...”

Notar semelhanças com os dias em que vivemos hoje, especificamente na política, não é mera coincidência. O conto, ambientado na década de 40 do século XIX, retrata o ser humano e sua miséria moral, que começa já na escola. E há mais. Quando Pilar se distrai com a música fora do ambiente escolar e não vai à aula, podemos comparar com os alunos modernosos e seus enormes fones de ouvido escutando música geralmente de péssima qualidade, como a do “tamborzão” do funk carioca, e, o pior, desprezando a sala de aula e a reflexão intelectual.

É isso o que faz a boa literatura. Passa-se o tempo, mas ela continua refletindo a atualidade e o comportamento humano de qualquer geração. Mudam-se os nomes, mudam-se os costumes, porém o ser humano continua igual.


sábado, março 26, 2016

“Página infeliz de nossa história”


 “Estava à toa na vida”, quando comecei há alguns dias a ler boa parte da obra do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante. A leitura do livro de artigos Mea Cuba me faz pensar que algo semelhante à ditadura cubana poderia estar em curso no momento aqui no Brasil. Só não acontece, presumo, pelo medo que os petistas têm do exército do qual, no fundo, no fundo, eles gostariam de ter o apoio. Quando a esquerda, através da voz não só dos partidários, mas também de artistas e intelectuais, além da maioria dos sindicatos, grita “não vai ter golpe”, leio nas entrelinhas que falta acrescentar à frase a expressão “da direita”, uma vez que o golpe de esquerda está sendo articulado. A tentativa da presidente Dilma de impor Lula como principal ministro de seu governo é a prova disso.

Assim como Fidel Castro, a presidente não gostaria de ter oposição. Qualquer pensamento contrário ao governo é visto como “golpe”, “ódio”. Como não podem prender ou pôr em um paredão de fuzilamento quem é crítico do governo, o recurso utilizado é humilhá-lo publicamente, como fizeram há pouco dias com o ator e diretor de teatro Cláudio Botelho, que ousou, a partir da arte, ou seja, de forma velada, sem citar nomes, como Chico Buarque havia feito em “Apesar de você”, e dentro de um texto poético, levantar sua voz. Foi vaiado por uma boa parte da plateia (até aí normal dentro de um espetáculo que não agrada ao público) e impedido de dar prosseguimento ao espetáculo, que acabou tendo que ser cancelado, sob os gritos de ordem dos defensores governistas, “não vai ter golpe”.

Como se não bastasse, seu desabafo com uma colega no camarim foi gravado. Ao dizer a expressão “nego”, hoje vista como politicamente incorreta (mas que serve tão somente para designar uma pessoa, algo como “cara”, “indivíduo”, segundo o Dicionário Houaiss), o ator foi tachado como racista por um grupo de mídia alternativa que, mesmo sendo criado para se contrapor à manipulação da grande imprensa, usa do mesmo recurso para estabelecer seu ponto de vista. Uma “Extraordinária e Eficaz Máquina para Fabricar Calúnias”, nas palavras de Cabrera Infante. Para piorar, Chico Buarque, cujas músicas eram a inspiração da peça, proibiu que sua obra fosse utilizada, logo ele que foi censurado durante a ditadura. Por tudo isso, a vítima da humilhação teve que pedir publicamente ao compositor oficial do governo brasileiro um “meu caro amigo me perdoe, por favor”. Em Cuba, chamariam essa atitude de ato de contrição política, de acordo, mais uma vez, com Cabrera Infante, que morreu no exílio em 2005.

Tempos confusos estes em que vivemos. Aqueles que lutaram contra o poder hoje o defendem e usam desse poder para coagir os demais. Escritores assinam manifestos em defesa de um governo corrupto e reagem fortemente contra quem deseja ver na cadeia o seu líder maior que está sendo investigado pela polícia federal. Manifestantes saem às ruas desejando a morte de um juiz que ousou “peitar” um partido e usuários de redes sociais são humilhados por pensar por conta própria, não sendo subservientes ao seu Messias e seguidores.


O que há de diferente de uma ditadura militar ou de uma ditadura cubana é que os que estão no governo não têm, pelo menos até agora, o apoio necessário para se perpetuar no trono. Não me espantaria, no entanto, se conseguissem, pois, mesmo depois de todos os escândalos envolvendo a alta cúpula petista, o dinheiro e as promessas de cargo para os partidos continuam sendo usados para evitar o impeachment. Como cantaria o Chico Buarque em outra época, estamos vivendo em mais uma “página infeliz de nossa história”. Ou não posso utilizar seus versos, meu caro Chico?

domingo, março 20, 2016

Reflexões daqui de cima do muro


Nem as manifestações do dia 13 de março, nem a do dia 18 me representam. Avesso que sou a aglomerações de pessoas, não iria a nenhuma. Em outros tempos, iria, talvez, na dos vermelhos, como fazia na minha adolescência, em protestos, cantando “rap” contra o capitalismo com uma estrelinha no peito.

As manifestações, tampouco, representam o povo brasileiro, pois ele está dividido, como mostraram as eleições, apesar de muita gente ter se arrependido de votar no governo que aí está. O que se vê são pessoas que, em sua maioria, seguem uma ideologia política e econômica e, dificilmente, mudam de opinião. É visto como positivo ser “coerente”, lutar até o fim da vida por um ideal, mesmo que isso signifique defender um governo corrupto ou defender a volta de partidos que também são corruptos.

O que não se pode negar é que, no dia 13, as manifestações não levantavam bandeira de partidos, de sindicatos e, da mesma forma, os manifestantes não estavam uniformizados. A camiseta da seleção brasileira, em que pese ser da CBF, outro antro cheio de corruptos, é representativa de certo ideal patriótico (do qual não sou muito fã), pois traz as cores da bandeira. No dia 18, a cor vermelha predominou. A cor não era da nação, mas dos partidos e sindicatos.

Não é que não goste do vermelho, afinal sou torcedor do Internacional de Porto Alegre. Assistindo a tudo em cima do muro, porém (e eu assumo que estou em cima do muro, pois não consigo compactuar com nenhuma das ideologias), no dia 13 vi a defesa do Brasil e no dia 18 a defesa de um governo. Na verdade, de um partido, ou pior, de um homem, visto como herói, um deus (e a barba agora branca ajuda na imagem), que por ser deus é perfeito e, mesmo com todas as evidências contrárias a ele, seus fieis creem nele, creem na sua palavra, creem na sua volta. É o Messias.

A esquerda me ensinou a não baixar a cabeça para os poderosos, a não ser massa de manobra, a combater a corrupção, a lutar por igualdade. Hoje ela me mostra que faz a mesma coisa que antes condenava depois que tomou o poder. “O poder corrompe”, frase atribuída ao John Acton, é repetida muitas vezes nesses casos. Questiono, porém, se não é o homem que corrompe o poder.


O problema maior é apoiar quem assim age, é defendê-lo cegamente, é colocar a mão no fogo por quem depois não vai apagar as chamas. Quem defende o “não vai ter golpe” pode estar sendo massa de manobra que vai ajudar a implantar outro golpe, está se ajoelhando para quem está no poder, está do lado dos corruptos, está comprovando a frase de George Orwell de que todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros, estão acima do bem e do mal.

quinta-feira, março 17, 2016

Traçando livros de hoje é sobre livro de Nuccio Ordine


A inutilidade de um livro

Vinha pensando sobre o que escrever na volta da coluna Traçando Livros depois do recesso de dois meses. Pensei em abordar a questão da utilidade, ou melhor, da inutilidade desse tipo de espaço num jornal atualmente. Por que continuar escrevendo sobre livros, se a sociedade em que vivemos não o valoriza? Por que um jornal como a Gazeta do Sul ainda cede lugar para a literatura, apesar da crise pela qual os periódicos vêm passando no país? Sobre isso, de certa forma, trata A utilidade do inútil – um manifesto (Zahar Editora, tradução de Luiz Carlos Bombassaro), de autoria do italiano Nuccio Ordine, filósofo e professor de literatura, livro que tentei ler na última semana.

A leitura de sua obra me foi despertada justamente por causa de jornais que ainda têm espaço, apesar de cada vez menores, para a cultura. Li algumas entrevistas do autor e me empolguei com suas afirmações que vão ao encontro do que tenho dito sistematicamente. Uma delas enaltece o silêncio, a reflexão, a leitura feita com lentidão, ao contrário da vida atual que nos pede pressa, rapidez. Ordine também fez uma “crítica à pedagogia moderna, que quer ensinar os jovens pelo jogo, pela superficialidade, sem demandar esforço”, em sua entrevista ao caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo. Procurei rapidamente comprar o livro no seu formato digital. Deveria ter seguido o conselho do próprio autor e não ter tanta pressa assim.

 A introdução tem alguns momentos muito bons, como este trecho, em que critica o utilitarismo: “no universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca vale mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para que podem servir a música, a literatura ou a arte”. Ou então este: “Precisamos do inútil como precisamos das funções vitais essenciais para viver”. O que nos remete a uma frase do nosso poeta Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”.

Foi com uma expectativa maior que comecei a ler a primeira parte, “A útil inutilidade da literatura”, expressão que assinaria embaixo. O primeiro texto, entretanto, me deu a primeira decepção, uma vez que há mais críticas ao dinheiro do que propriamente uma exaltação à arte literária, usando o clichê de que na sociedade prevalece mais o ter do que o ser: “... em formas muito diversas e mais sofisticadas, ainda persiste uma supremacia do ter sobre o ser, uma ditadura do lucro e da posse, que atinge todos os âmbitos do saber e todos os nossos comportamentos cotidianos”. Nos breves textos seguintes, a tônica foi a mesma, num enfadonho mantra de que no mundo sempre se visa o lucro e blá-blá-blá.

Confesso que perdi a vontade de continuar a leitura, e olha que não costumo largar nenhum livro na metade do caminho, seja ele bom ou ruim. Ainda tentei ler alguns ensaios da segunda parte, “A universidade-empresa e os estudantes-clientes”. A reiteração do ódio ao lucro, no entanto, persistiu, sempre se sobressaindo sobre o que realmente eu esperava ler: uma ode ao inútil.

Sim, confesso. Acabei não lendo todo o livro. Ele não vai entrar no cômputo de leituras que faço no final do ano. Talvez nem deveria estar escrevendo sobre a obra. Porém, me empolguei tanto com as entrevistas do autor, compartilhando-as, inclusive, nas redes sociais, que o tombo foi feio. Serve de alerta para o leitor, pelo menos para aqueles para quem o lucro não é tão demoníaco como pintam por aí. A propósito, o livro se tornou um best seller na Europa, ou seja, gerou lucro, e o autor esteve no Brasil fazendo palestras para promover a obra. Como diz Deus ao Diabo, ambos personagens num conto de Machado de Assis: “As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.”


Cassionei Niches Petry faz coisas inúteis, como ler e escrever. Também é professor de uma matéria inútil, a literatura. Tem um blog inútil, no endereço www.cassionei.blogspot.com. Ou seja, é um sujeito inútil.

quarta-feira, março 16, 2016

Conheça Carácolis

Conheça Carácolis (qualquer semelhança com a República de Pindorama é mera coincidência). Sátira que escrevi há alguns meses e foi publicada hoje no jornal Gazeta do Sul.


terça-feira, março 15, 2016

Uma caixa em forma de livro (ou um livro em forma de caixa)



Uma coleção literária que marcou bastante minha vida de leitor foi “Novelas exemplares”, da extinta editora gaúcha Mercado Aberto, que publicou novelas de Cristovão Tezza, Arnaldo Campos, Charles Kiefer, Luiz Antônio de Assis Brasil e tantos outros. O segundo livro de Rudinei Kopp, Oto e Isac (Editora Gazeta, 98 páginas) me fez lembrar das curtas histórias publicadas naqueles livros bem fininhos, mas grandes na elaboração literária. Encaixaria muito bem na coleção.

O gênero novela, diga-se, não pode ser confundido com a telenovela. Nos estudos da literatura de língua portuguesa, dá-se esse nome para a narrativa de extensão média, nem tão curta para ser conto, nem tão longa para ser romance. Com a destruição dos limites de gênero, muitos ainda preferem chamar de romance a essas narrativas. É o que nos informa a ficha catalográfica do livro de Kopp.

O enredo tem como mote o recebimento de uma caixa contendo uma lista. Coincidentemente, li outro romance recentemente também com uma caixa e uma lista como condutor narrativo. Da mesma forma, já escrevi um conto com uma caixa misteriosa, também pertencente a um avô. No nosso inconsciente coletivo, a caixa de Pandora ainda nos faz refletir e decidir por abri-la ou não. Geralmente, o melhor é deixá-la fechada.

Oto, o protagonista, quando tinha 20 anos, recebeu de seu avô uma caixa de madeira. Ao chegar aos 40, encontra o objeto abandonado, agora cheio de cupins. Dentro há uma carta contendo 7 frases “edificantes”, girando entre o filosófico e autoajuda, como esta: “O universo tem um plano para cada homem”. Seu avô, que há tempos não via, desaparecera no mar de Santa Catarina. Oto chegou a ser um empresário bem sucedido, dono de uma rede de locadoras de DVD. Com a diminuição de locações devido à pirataria e à internet, entra numa crise financeira e também amorosa. Saber o significado das frases e o motivo de tê-las recebido o leva à Florianópolis em busca da mulher que viveu os últimos anos com seu avô. Enfrentando percalços no caminho, como um assalto que o deixou sem dinheiro, e também encontrando a bondade de um pescador que o acolhe, Oto chega ao destino. Mas será que valerá a pena?


Além da narrativa poética de uma viagem em busca da verdade, a novela de Rudinei Kopp me toca também pela presença de um marceneiro, profissão do meu pai, que somente não segui por não ter herdado a habilidade manual paterna. A capa reproduz a imagem e a textura de um pedaço de madeira, trabalho do próprio Rudinei, que inclusive tem publicado um livro sobre design gráfico. É um bom livro, apesar de o anterior, Rio dos dias, ser muito superior. Como o próprio autor me confidenciou (e eu não sei guardar confidências), Oto e Isac é uma espécie de exercício literário, uma preparação para uma narrativa mais alentada, daquelas que “param de pé”. Como leitor, torço para que se concretize o projeto. Como diz uma das frases de Isac (e do marceneiro), “o destino está nas mãos daquele que acredita”.

segunda-feira, março 14, 2016

Em busca da leitura perdida


Uma menina está perdida no seu século à procura do pai (Companhia das Letras, 240 páginas) é o mais recente romance de Gonçalo M. Tavares. Já é um clichê, mas inicio esta resenha como várias outras que li sobre o autor, lembrando o depoimento do Prêmio Nobel José Saramago afirmando que seu conterrâneo será o próximo português a receber o grande prêmio da literatura mundial e que tinha vontade de bater nele, de tão bem que escreve.

Em relativamente pouco tempo de carreira, o escritor publicou muitos livros, numa média de dois por ano. Recebe elogios exacerbados dos críticos, mesmo em publicações medianas, cuja prosa experimental deixa muito a desejar. É no romance que o autor vem escrevendo boas coisas e não é à toa que a exigente Companhia das Letras vem publicando apenas as narrativas longas, deixando as outras editoras com os demais gêneros.

Em Uma menina está perdida no século à procura do pai, temos a história de Marius, que encontra uma jovem (rapariga, para os portugueses) de 14 anos portadora da síndrome de Down, chamada Hanna, parada em uma rua, em meio aos escombros de uma cidade da Europa pós-Segunda Guerra Mundial. Ela carrega uma caixa com uma espécie de manual de orientações de como se deve cuidá-la e de aprendizagem de coisas do cotidiano: como colocar a roupa, escovar os dentes, etc. Uma das poucas frases que ela diz, todas decoradas, é que está à procura do pai. A cena lembra o início do filme O enigma de Kasper Hauser.

Apesar do título, o protagonista do romance de Gonçalo M. Tavares não é a menina, mas sim o homem que, ao contrário dela, não sabe o que busca. Quem parece estar perdido é ele e Hanna, de certa forma, se torna seu guia para encontrar algum sentido em sua existência.

No decorrer desta busca, algumas cenas estranhas vão se sucedendo, assim como a troca do narrador, ora em 3ª pessoa, ora na 1ª, no ponto de vista de Marius. Quando chegam a Berlim, se hospedam em um hotel cujos quartos não têm números e são identificados com os nomes dos campos de concentração dos nazistas. Quanto aos personagens estranhos, um deles, dono de um antiquário, escreve uma sequência de números infinitos em caderno, dando continuidade ao trabalho do seu avô e de seu pai. “Trata-se simplesmente de continuar, apenas continuar”, se justifica. Outro homem, por sua vez, escreve frases, além de fazer pinturas e esculturas, que podem ser vistas apenas através do microscópio. A olho nu, se enxerga apenas uma linha ou um ponto:

“Era um artista. Passou-me um cartão para a mão. Não consegui ler. O cartão tinha uma mancha, e uma linha no seu centro, mas nenhuma letra. O que eu via era um pequeno cartão todo branco com uma pequeníssima e fina linha preta no meio.
− É o meu nome que está aí escrito: Agam Josh.
O homem explicou-me, apontando a linha preta, como se estivesse a ler o nome:
____________

Agam Josh – Artista.”


Se no final Hanna acha ou não seu pai, isso não importa muito. Se Marius encontra algo, também não interessa. Se ambos estão procurando algo em meios aos escombros, nós leitores também tentamos buscar alguma coisa em meio aos fragmentos de uma narrativa nada convencional. Por isso lemos: para buscar e, talvez, não encontrar. Se encontrarmos, não há porque continuar lendo. A boa literatura é aquela que nos deixa perdidos.

domingo, março 06, 2016

Maria Kodama aprovaria?


Conheci a poesia de Escobar Nogueira, num primeiro momento, na sua versão oral. Antes de ler algum livro do autor, assisti a um de seus recitais numa livraria e cafeteria durante a feira do livro da minha cidade. Escobar domina o microfone como poucos. Não é à toa que é chamado para muitas palestras Brasil afora e é um grande professor de cursinhos de pré-vestibular. A leitura da versão escrita de seus poemas, em livros como Milongol e Pejuçara, apenas confirmaram a qualidade do que ouvi.

Sua publicação mais recente é Borges vai ao cinema com Maria Kodama (Chiado Editora, 72 páginas). O título nos remete à oralidade da obra, tendo em vista que Jorge Luis Borges, durante a metade final de sua vida, ditava seus poemas devido à cegueira avançada. Secretária particular, depois esposa e agora detentora dos direitos autorais do marido, Maria Kodama (que se souber desta coletânea, pode querer censurar a publicação) também transcrevia para o escritor argentino os filmes a que iam assistir: “Ela vai ver/Ele vai ouvir/o novo filme de Ingmar Bergman”, diz os versos do poema que dá título à coletânea. Ela, porém, se depara com a dificuldade de fazer com que Borges “veja” um filme cheio de cores e silêncios como Gritos e sussurros: “Mas Kodama está muda./Não vê como traduzir/o vermelho gritante do cenário,/o branco sussurrante do figurino.”

Na culinária poética de Escobar Nogueira, há uma porção de ingredientes misturados, sendo que a intertextualidade dá o tempero principal. O melhor poema da coletânea, pelo menos para este resenhista, tem uma pitada forte de Manuel Bandeira ao tratar da indiferença que temos em relação a quem chafurda no lixo para comer: “um homem comendo o lixo./ E eu não disse: ‘Meu Deus!’./E não pensei que fosse um bicho.//Os seres mudaram./E o pior, Manuel, é que acostumamos com isso”. No poema “Bossa”, o eu lírico afirma que escreveu um romance em que gostaria de se vingar da mulher com quem terminara o relacionamento. Como o narrador de Memórias póstumas de Brás Cubas, “Minha ideia era te encher a cara de bexigas/e te deixar coxa de uma perna.” Em “Divina tragédia”, o eu lírico se lembra de um episódio do poema de Dante Alighieri, em que o casal Francesca e Paolo está no inferno, “no círculo dos luxuriosos,/onde um vendaval incessante arrasta os amantes/que gemem numa completa escuridão”. E completa: “Será assim o lugar para onde iremos, meu amor?”


Escobar ainda dialoga com a novela de televisão, com a música, com a pintura, a fotografia. Neste diálogo incessante com diversas formas de arte, o escritor reafirma seu lugar como artista, em poemas para se ler, ver e ouvir. Acho que Maria Kodama vai aprovar esta homenagem a Borges.

sábado, março 05, 2016

Uma confissão


Confesso aos meus alunos e aos meus (poucos) leitores: eu menti para vocês. Sou um mentiroso, claro, até porque sou escritor (ou um simples escriba) e os escritores são mentirosos. Faz parte do ofício, ainda mais o de ficcionista. Como escritor, preciso convencer também que a leitura é algo importante nas nossas vidas. Preciso ser lido. Para convencer, me armo de argumentos e, entre as várias possibilidades de que disponho, um argumento aparece com frequência, seja na minha fala em sala de aula, seja nos meus textos na internet e nos jornais: a literatura nos torna inteligentes.

Confesso que menti, mas não menti apenas para vocês. Menti para mim mesmo também. Leitor inveterado, apaixonado pelos livros, principalmente os de literatura, precisava justificar meu desejo de ficar sozinho na minha toca, na maioria das vezes tomando tempo de momentos com a família, para ler, escrever contos, romances, crônicas e artigos, analisar, resenhar livros de forma amadora, pelo simples fato de gostar de compartilhar conhecimento e provocar o leitor. Queria ser mais inteligente. Ingenuidade. Parece que não me tornei mais inteligente. E o pior. A julgar pelas redes sociais, avaliando as postagens de gente que pensava ser inteligente, vejo uma enormidade de idiotices perpetradas por mestres e doutores em Letras, em Filosofia, História e em várias áreas do conhecimento. Vejo também quem não tem muita formação, mas se vangloria por ser autodidata e conhecer boa parte da produção cultural da humanidade, comprovando que a cegueira ideológica e a necessidade de provar que nunca errou nas escolhas eleitorais toma lugar do pensamento lógico, do pensamento ponderado depois de uma análise fria.

Surpreendo-me com os que se curvam fanaticamente ao seu líder de esquerda ou de direita. Surpreendo-me ainda mais com o fanático que leu muito mais obras da literatura e da filosofia do que eu. Surpreendo-me porque os argumentos e analogias desse fanático têm a mesma profundidade do fanático que nunca leu um livro ou leu apenas o que o partido sugeriu. Surpreendo-me com a defesa de corruptos e mesmo com a defesa de suspeitos de corrupção. Se não se pode julgá-los, também não é inteligente defendê-los. Muito menos é inteligente defendê-los com comparações pobres, com distorções de citações, com afirmações tais como “os outros também fizeram”, como se isso desse o aval para todo mundo fazer.


Qual a postura de um intelectual, então, nesses tempos sombrios? Se eu soubesse, diria. Não sou inteligente o suficiente para apontar caminhos. Não digo “vai por este caminho”, mas sim pergunto “por que você não vai por um caminho diferente?”. Como escreveu o poeta português José Régio, “Não sei por onde vou,/Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí!”

quarta-feira, março 02, 2016

Manoel Herzog anuncia a Boa Nova aos homens de boa vontade

Há muitas denominações para quem escreve. O escrivão, por exemplo, elabora os autos e os processos de um cartório. O escriturário, por sua vez, trabalha em registros de repartições públicas. O escrevente é o subalterno dos outros dois. Há ainda o escriturador, palavra que não encontrei no dicionário, mas se refere àquele responsável pela escrituração de um órgão público ou privado. O escriba era, na antiguidade, o copista de manuscritos, no entanto uso essa expressão quando me sinto um pouco envergonhado de me denominar escritor. Poderia, quem sabe, me chamar de escrevinhador ou escrevedor, aquele que escreve com não muita qualidade.

Já escritor serve como denominação geral para todas as atividades que envolvem a escrita. Temos, por exemplo, o escritor fiscal, o escritor de biografias, etc. É muito mais usada, porém, segundo o dicionário Houaiss, para designar o autor de obras literárias, científicas, filosóficas, etc. Sempre, porém, que vejo ou ouço a palavra, penso em literatura, em arte.

Em O evangelista, (Patuá Editora, 184 páginas), de Manoel Herzog, o protagonista escreve, mas não é um escritor, é um escrivão. Começa, no entanto, premido pelas circunstâncias, a produzir poemas e uma espécie de evangelho, uma “Boa Nova” ao contrário, da justiça no Brasil. É, portanto, mesmo não se denominando dessa forma, um escritor. Nomear, aliás, é uma tônica dessa história. Os nomes bíblicos das personagens colocam o leitor a todo o momento a fazer referências intertextuais com o livro sagrado dos cristãos.

João Evangelista, ou simplesmente Vange, é filho de Maria e irmão de Salvador. Ambos tem um relacionamento amoroso com Madalena. Os dois são, também, formados em advocacia e atuam num cartório, onde se envolvem em falcatruas com uma banca de advogados e alguns juízes, entre eles um chamado Pôncio, que “lava as mãos”, ignorando ameaças que Salvador vinha sofrendo de bandidos. Este acaba sendo morto e volta como aparição, dando conselhos para Vange. Não faltam, da mesma forma, um João Batista, um Pedro, um Lázaro, um Caio Fábio (representando Caifás), um Heródoto (ou Herodes)...

A narrativa segue em idas e vindas na linha temporal, porém perde o ritmo em determinado momento. Quase que abandono a leitura. Próximo do final, entretanto, o enredo me desperta novo interesse, salvando o livro. De qualquer forma, vale acompanhar o jogo intertextual, a linguagem deliciosa do narrador e das demais personagens e, principalmente, a análise mordaz que Herzog faz do sistema judiciário e de seus bastidores.


Manoel Herzog, nascido em Santos em 1964, também publicou o romance Os bichos, pela editora Realejo, em 2012, e o poema longo A comedia de Alicia Bloom, pela Patuá, em 2014. Neste mesmo ano, conheci sua obra quando fui jurado do extinto Prêmio Portugal Telecom de 2014, do qual ele foi semifinalista com o CBA - Companhia Brasileira de Alquimia, publicado no ano anterior também pela Patuá. Um escritor a quem se pode chamar de escritor realmente.