Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2016

“Conto de escola”: corrupção, delação e o "tamborzão"

Machado de Assis era um perspicaz analista da condição humana. Em seus romance e contos, somos retratados com tintas nada positivas, mostrando como é verdadeiramente nosso caráter, ou melhor, nossa falta de caráter.
Vejamos o “Conto de escola”, publicado no livro Várias histórias. O narrador, Pilar, assume que está longe de ser “um menino de virtudes”, tendo em vista que, depois de cabular a aula e receber por isso uma surra do pai, decide no outro dia comparecer ao colégio, mas só para não receber outro castigo. Lá chegando, é interpelado pelo colega Raimundo, filho do professor Policarpo. Tentando ser discreto e se livrar dos olhos do pai, Raimundo demora em fazer o pedido ao amigo. Ambos têm medo da palmatória do mestre.
Quando consegue falar, diz a Pilar que tem em seu bolso uma moeda de prata. O narrador confessa ao leitor que a moeda lhe “fez pular o coração”. Raimundo então diz que a moeda seria dele a partir de “uma troca de serviço: ele me daria a moeda e eu lhe explicaria um p…

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje.

Imagem

Meu texto no site República dos Bananas

Imagem

“Página infeliz de nossa história”

“Estava à toa na vida”, quando comecei há alguns dias a ler boa parte da obra do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante. A leitura do livro de artigos Mea Cuba me faz pensar que algo semelhante à ditadura cubana poderia estar em curso no momento aqui no Brasil. Só não acontece, presumo, pelo medo que os petistas têm do exército do qual, no fundo, no fundo, eles gostariam de ter o apoio. Quando a esquerda, através da voz não só dos partidários, mas também de artistas e intelectuais, além da maioria dos sindicatos, grita “não vai ter golpe”, leio nas entrelinhas que falta acrescentar à frase a expressão “da direita”, uma vez que o golpe de esquerda está sendo articulado. A tentativa da presidente Dilma de impor Lula como principal ministro de seu governo é a prova disso.
Assim como Fidel Castro, a presidente não gostaria de ter oposição. Qualquer pensamento contrário ao governo é visto como “golpe”, “ódio”. Como não podem prender ou pôr em um paredão de fuzilamento quem é crítico do g…

Meu artigo na página de opinião do jornal Gazeta do Sul

Imagem

Reflexões daqui de cima do muro

Nem as manifestações do dia 13 de março, nem a do dia 18 me representam. Avesso que sou a aglomerações de pessoas, não iria a nenhuma. Em outros tempos, iria, talvez, na dos vermelhos, como fazia na minha adolescência, em protestos, cantando “rap” contra o capitalismo com uma estrelinha no peito.
As manifestações, tampouco, representam o povo brasileiro, pois ele está dividido, como mostraram as eleições, apesar de muita gente ter se arrependido de votar no governo que aí está. O que se vê são pessoas que, em sua maioria, seguem uma ideologia política e econômica e, dificilmente, mudam de opinião. É visto como positivo ser “coerente”, lutar até o fim da vida por um ideal, mesmo que isso signifique defender um governo corrupto ou defender a volta de partidos que também são corruptos.
O que não se pode negar é que, no dia 13, as manifestações não levantavam bandeira de partidos, de sindicatos e, da mesma forma, os manifestantes não estavam uniformizados. A camiseta da seleção brasileira, …

Traçando livros de hoje é sobre livro de Nuccio Ordine

Imagem
A inutilidade de um livro
Vinha pensando sobre o que escrever na volta da coluna Traçando Livros depois do recesso de dois meses. Pensei em abordar a questão da utilidade, ou melhor, da inutilidade desse tipo de espaço num jornal atualmente. Por que continuar escrevendo sobre livros, se a sociedade em que vivemos não o valoriza? Por que um jornal como a Gazeta do Sul ainda cede lugar para a literatura, apesar da crise pela qual os periódicos vêm passando no país? Sobre isso, de certa forma, trata A utilidade do inútil – um manifesto(Zahar Editora, tradução de Luiz Carlos Bombassaro), de autoria do italiano Nuccio Ordine, filósofo e professor de literatura, livro que tentei ler na última semana.
A leitura de sua obra me foi despertada justamente por causa de jornais que ainda têm espaço, apesar de cada vez menores, para a cultura. Li algumas entrevistas do autor e me empolguei com suas afirmações que vão ao encontro do que tenho dito sistematicamente. Uma delas enaltece o silêncio, a ref…

Conheça Carácolis

Imagem
Conheça Carácolis (qualquer semelhança com a República de Pindorama é mera coincidência). Sátira que escrevi há alguns meses e foi publicada hoje no jornal Gazeta do Sul.


Uma caixa em forma de livro (ou um livro em forma de caixa)

Imagem
Uma coleção literária que marcou bastante minha vida de leitor foi “Novelas exemplares”, da extinta editora gaúcha Mercado Aberto, que publicou novelas de Cristovão Tezza, Arnaldo Campos, Charles Kiefer, Luiz Antônio de Assis Brasil e tantos outros. O segundo livro de Rudinei Kopp, Oto e Isac (Editora Gazeta, 98 páginas) me fez lembrar das curtas histórias publicadas naqueles livros bem fininhos, mas grandes na elaboração literária. Encaixaria muito bem na coleção.
O gênero novela, diga-se, não pode ser confundido com a telenovela. Nos estudos da literatura de língua portuguesa, dá-se esse nome para a narrativa de extensão média, nem tão curta para ser conto, nem tão longa para ser romance. Com a destruição dos limites de gênero, muitos ainda preferem chamar de romance a essas narrativas. É o que nos informa a ficha catalográfica do livro de Kopp.
O enredo tem como mote o recebimento de uma caixa contendo uma lista. Coincidentemente, li outro romance recentemente também com uma caixa e …

Em busca da leitura perdida

Imagem
Uma menina está perdida no seu século à procura do pai (Companhia das Letras, 240 páginas)é o mais recente romance de Gonçalo M. Tavares. Já é um clichê, mas inicio esta resenha como várias outras que li sobre o autor, lembrando o depoimento do Prêmio Nobel José Saramago afirmando que seu conterrâneo será o próximo português a receber o grande prêmio da literatura mundial e que tinha vontade de bater nele, de tão bem que escreve.
Em relativamente pouco tempo de carreira, o escritor publicou muitos livros, numa média de dois por ano. Recebe elogios exacerbados dos críticos, mesmo em publicações medianas, cuja prosa experimental deixa muito a desejar. É no romance que o autor vem escrevendo boas coisas e não é à toa que a exigente Companhia das Letras vem publicando apenas as narrativas longas, deixando as outras editoras com os demais gêneros.
Em Uma menina está perdida no século à procura do pai, temos a história de Marius, que encontra uma jovem (rapariga, para os portugueses) de 14 an…

Minha coluna de hoje no Digestivo Cultural

Imagem

Maria Kodama aprovaria?

Imagem
Conheci a poesia de Escobar Nogueira, num primeiro momento, na sua versão oral. Antes de ler algum livro do autor, assisti a um de seus recitais numa livraria e cafeteria durante a feira do livro da minha cidade. Escobar domina o microfone como poucos. Não é à toa que é chamado para muitas palestras Brasil afora e é um grande professor de cursinhos de pré-vestibular. A leitura da versão escrita de seus poemas, em livros como Milongol e Pejuçara, apenas confirmaram a qualidade do que ouvi.
Sua publicação mais recente é Borges vai ao cinema com Maria Kodama (Chiado Editora, 72 páginas). O título nos remete à oralidade da obra, tendo em vista que Jorge Luis Borges, durante a metade final de sua vida, ditava seus poemas devido à cegueira avançada. Secretária particular, depois esposa e agora detentora dos direitos autorais do marido, Maria Kodama (que se souber desta coletânea, pode querer censurar a publicação) também transcrevia para o escritor argentino os filmes a que iam assistir: “El…

Uma confissão

Confesso aos meus alunos e aos meus (poucos) leitores: eu menti para vocês. Sou um mentiroso, claro, até porque sou escritor (ou um simples escriba) e os escritores são mentirosos. Faz parte do ofício, ainda mais o de ficcionista. Como escritor, preciso convencer também que a leitura é algo importante nas nossas vidas. Preciso ser lido. Para convencer, me armo de argumentos e, entre as várias possibilidades de que disponho, um argumento aparece com frequência, seja na minha fala em sala de aula, seja nos meus textos na internet e nos jornais: a literatura nos torna inteligentes.
Confesso que menti, mas não menti apenas para vocês. Menti para mim mesmo também. Leitor inveterado, apaixonado pelos livros, principalmente os de literatura, precisava justificar meu desejo de ficar sozinho na minha toca, na maioria das vezes tomando tempo de momentos com a família, para ler, escrever contos, romances, crônicas e artigos, analisar, resenhar livros de forma amadora, pelo simples fato de gostar …

Manoel Herzog anuncia a Boa Nova aos homens de boa vontade

Imagem
Há muitas denominações para quem escreve. O escrivão, por exemplo, elabora os autos e os processos de um cartório. O escriturário, por sua vez, trabalha em registros de repartições públicas. O escrevente é o subalterno dos outros dois. Há ainda o escriturador, palavra que não encontrei no dicionário, mas se refere àquele responsável pela escrituração de um órgão público ou privado. O escriba era, na antiguidade, o copista de manuscritos, no entanto uso essa expressão quando me sinto um pouco envergonhado de me denominar escritor. Poderia, quem sabe, me chamar de escrevinhador ou escrevedor, aquele que escreve com não muita qualidade.
Já escritor serve como denominação geral para todas as atividades que envolvem a escrita. Temos, por exemplo, o escritor fiscal, o escritor de biografias, etc. É muito mais usada, porém, segundo o dicionário Houaiss, para designar o autor de obras literárias, científicas, filosóficas, etc. Sempre, porém, que vejo ou ouço a palavra, penso em literatura, em …

Meu texto no jornal Gazeta do Sul de hoje

Imagem