Uma caixa em forma de livro (ou um livro em forma de caixa)



Uma coleção literária que marcou bastante minha vida de leitor foi “Novelas exemplares”, da extinta editora gaúcha Mercado Aberto, que publicou novelas de Cristovão Tezza, Arnaldo Campos, Charles Kiefer, Luiz Antônio de Assis Brasil e tantos outros. O segundo livro de Rudinei Kopp, Oto e Isac (Editora Gazeta, 98 páginas) me fez lembrar das curtas histórias publicadas naqueles livros bem fininhos, mas grandes na elaboração literária. Encaixaria muito bem na coleção.

O gênero novela, diga-se, não pode ser confundido com a telenovela. Nos estudos da literatura de língua portuguesa, dá-se esse nome para a narrativa de extensão média, nem tão curta para ser conto, nem tão longa para ser romance. Com a destruição dos limites de gênero, muitos ainda preferem chamar de romance a essas narrativas. É o que nos informa a ficha catalográfica do livro de Kopp.

O enredo tem como mote o recebimento de uma caixa contendo uma lista. Coincidentemente, li outro romance recentemente também com uma caixa e uma lista como condutor narrativo. Da mesma forma, já escrevi um conto com uma caixa misteriosa, também pertencente a um avô. No nosso inconsciente coletivo, a caixa de Pandora ainda nos faz refletir e decidir por abri-la ou não. Geralmente, o melhor é deixá-la fechada.

Oto, o protagonista, quando tinha 20 anos, recebeu de seu avô uma caixa de madeira. Ao chegar aos 40, encontra o objeto abandonado, agora cheio de cupins. Dentro há uma carta contendo 7 frases “edificantes”, girando entre o filosófico e autoajuda, como esta: “O universo tem um plano para cada homem”. Seu avô, que há tempos não via, desaparecera no mar de Santa Catarina. Oto chegou a ser um empresário bem sucedido, dono de uma rede de locadoras de DVD. Com a diminuição de locações devido à pirataria e à internet, entra numa crise financeira e também amorosa. Saber o significado das frases e o motivo de tê-las recebido o leva à Florianópolis em busca da mulher que viveu os últimos anos com seu avô. Enfrentando percalços no caminho, como um assalto que o deixou sem dinheiro, e também encontrando a bondade de um pescador que o acolhe, Oto chega ao destino. Mas será que valerá a pena?


Além da narrativa poética de uma viagem em busca da verdade, a novela de Rudinei Kopp me toca também pela presença de um marceneiro, profissão do meu pai, que somente não segui por não ter herdado a habilidade manual paterna. A capa reproduz a imagem e a textura de um pedaço de madeira, trabalho do próprio Rudinei, que inclusive tem publicado um livro sobre design gráfico. É um bom livro, apesar de o anterior, Rio dos dias, ser muito superior. Como o próprio autor me confidenciou (e eu não sei guardar confidências), Oto e Isac é uma espécie de exercício literário, uma preparação para uma narrativa mais alentada, daquelas que “param de pé”. Como leitor, torço para que se concretize o projeto. Como diz uma das frases de Isac (e do marceneiro), “o destino está nas mãos daquele que acredita”.

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