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“Página infeliz de nossa história”


 “Estava à toa na vida”, quando comecei há alguns dias a ler boa parte da obra do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante. A leitura do livro de artigos Mea Cuba me faz pensar que algo semelhante à ditadura cubana poderia estar em curso no momento aqui no Brasil. Só não acontece, presumo, pelo medo que os petistas têm do exército do qual, no fundo, no fundo, eles gostariam de ter o apoio. Quando a esquerda, através da voz não só dos partidários, mas também de artistas e intelectuais, além da maioria dos sindicatos, grita “não vai ter golpe”, leio nas entrelinhas que falta acrescentar à frase a expressão “da direita”, uma vez que o golpe de esquerda está sendo articulado. A tentativa da presidente Dilma de impor Lula como principal ministro de seu governo é a prova disso.

Assim como Fidel Castro, a presidente não gostaria de ter oposição. Qualquer pensamento contrário ao governo é visto como “golpe”, “ódio”. Como não podem prender ou pôr em um paredão de fuzilamento quem é crítico do governo, o recurso utilizado é humilhá-lo publicamente, como fizeram há pouco dias com o ator e diretor de teatro Cláudio Botelho, que ousou, a partir da arte, ou seja, de forma velada, sem citar nomes, como Chico Buarque havia feito em “Apesar de você”, e dentro de um texto poético, levantar sua voz. Foi vaiado por uma boa parte da plateia (até aí normal dentro de um espetáculo que não agrada ao público) e impedido de dar prosseguimento ao espetáculo, que acabou tendo que ser cancelado, sob os gritos de ordem dos defensores governistas, “não vai ter golpe”.

Como se não bastasse, seu desabafo com uma colega no camarim foi gravado. Ao dizer a expressão “nego”, hoje vista como politicamente incorreta (mas que serve tão somente para designar uma pessoa, algo como “cara”, “indivíduo”, segundo o Dicionário Houaiss), o ator foi tachado como racista por um grupo de mídia alternativa que, mesmo sendo criado para se contrapor à manipulação da grande imprensa, usa do mesmo recurso para estabelecer seu ponto de vista. Uma “Extraordinária e Eficaz Máquina para Fabricar Calúnias”, nas palavras de Cabrera Infante. Para piorar, Chico Buarque, cujas músicas eram a inspiração da peça, proibiu que sua obra fosse utilizada, logo ele que foi censurado durante a ditadura. Por tudo isso, a vítima da humilhação teve que pedir publicamente ao compositor oficial do governo brasileiro um “meu caro amigo me perdoe, por favor”. Em Cuba, chamariam essa atitude de ato de contrição política, de acordo, mais uma vez, com Cabrera Infante, que morreu no exílio em 2005.

Tempos confusos estes em que vivemos. Aqueles que lutaram contra o poder hoje o defendem e usam desse poder para coagir os demais. Escritores assinam manifestos em defesa de um governo corrupto e reagem fortemente contra quem deseja ver na cadeia o seu líder maior que está sendo investigado pela polícia federal. Manifestantes saem às ruas desejando a morte de um juiz que ousou “peitar” um partido e usuários de redes sociais são humilhados por pensar por conta própria, não sendo subservientes ao seu Messias e seguidores.


O que há de diferente de uma ditadura militar ou de uma ditadura cubana é que os que estão no governo não têm, pelo menos até agora, o apoio necessário para se perpetuar no trono. Não me espantaria, no entanto, se conseguissem, pois, mesmo depois de todos os escândalos envolvendo a alta cúpula petista, o dinheiro e as promessas de cargo para os partidos continuam sendo usados para evitar o impeachment. Como cantaria o Chico Buarque em outra época, estamos vivendo em mais uma “página infeliz de nossa história”. Ou não posso utilizar seus versos, meu caro Chico?

Comentários

charlles campos disse…
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Cassionei Petry disse…
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charlles campos disse…
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Cassionei Petry disse…
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