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Concerto em LAAB Maior


Allegro
Luiz Antonio de Assis Brasil foi violoncelista. Trocou o arco pela pena. Não o fizesse, talvez não conhecêssemos o grande artista. Assis Brasil seria um bem sucedido, porém obscuro músico como Julius, o protagonista de seu novo romance, O inverno e depois (L&PM, 348 páginas), mais uma obra pensada, estudada, preparada e bem executada pelo composi, digo, escritor gaúcho.  
Encontramos Julius esperando sua mala no aeroporto de Porto Alegre. Vindo de São Paulo, seu destino é a Estância Júpiter, onde nasceu, na fronteira com o Uruguai. Pretende estudar o Concerto em Si Menor, op. 104, de Antonín Dvořák, cuja execução é uma ideia fixa (“Tocar Dvořák poderia dar um sentido a sua vida”). A mala contém partituras e diferentes gravações do concerto, mas acaba se extraviando. É o primeiro percalço da viagem.
Adagio ma non troppo
Enquanto isso, a narrativa volta no tempo e em diferentes espaços para elucidar, aos poucos, as escolhas de Julius. Somos conduzidos a São Paulo, onde ele vive atualmente com a esposa Sílvia; passamos por Würzburg, na Alemanha, onde estudou, nos anos 80, numa importante escola de música, e onde encontrou um grande amor; e, mais remotamente, conhecemos o menino Julius na Estância Júpiter, com seu violino de brinquedo.
São as mulheres, no entanto, as personagens mais fortes e que moldam, de certa forma, a personalidade de Julius. A tia Erna, que o criou depois da morte trágica dos pais, é quem lhe ensina os primeiros passos da música clássica. A esposa Sílvia é o complemento racional do marido, cuidando inclusive das questões burocráticas relacionadas à parte da renda da distante estância que herdou. Agripina Antônia é a meia-irmã, que conhece apenas por fotos, e com quem teve que dividir a herança. Fruto do adultério de seu pai, Julius receia encontrá-la na estância. “Pois se irmãos-irmãos têm assegurados os alicerces desse afeto, já a atenção mútua que se devem os meio-irmãos exige cuidado em dobro a quem se acha em débito com a nobreza de seus próprios sentimentos.”
Na sua estada na Alemanha, Klarika Király é uma colega de estudos e primeira amante e a quem faz a promessa de tocar o concerto de Dvořák, apesar de um primeiro fracasso. A figura feminina mais importante, entretanto, é Constanza Zabala, uma uruguaia, estudante de clarinete, com quem vive uma intensa paixão, mas acabam se separando por um motivo inexplicável. Como a estância da família está próxima do Uruguai (“tal como ela dissera em Würzburg, apenas um rio nos separa”), não seria a possibilidade inconsciente de reencontrá-la o real motivo para a volta de Julius às origens?     
     Finale. Allegro moderato
A arte, em várias representações, sendo a música, por motivos óbvios, a mais destacada, costura as reflexões das personagens. Durante a viagem, Julius lê um romance em francês de Pascal Quignard, presente da esposa. Perto do final, uma jovem que conheceu na estância, a romântica Maria Eduarda, outra figura feminina de certa relevância, por simbolizar a inocência perdida pelo protagonista, pergunta o que ele está lendo:
“— O que diz aqui?
— Em por português é Todas as manhãs do mundo.
— Que bonito. É uma história de amor?
— Todos os livros são uma história de amor.”
O inverno e depois é uma história de amor à arte, à música, à literatura. É uma história de amor entre amigos, entre irmãos, entre homem e mulher. É uma história de amor entre o artista e a obra. É uma história de amor entre o escritor, o livro e o leitor. 

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