Avançar para o conteúdo principal

Um pouco de loucura faz bem


Assisti ontem a “Loki – Arnaldo Baptista”, documentário de 2008, sobre a vida e a obra do líder da banda “Os Mutantes”, uma das mais importantes do rock nacional. Um dos assuntos abordados foram os surtos de loucura do músico, provocados pelo uso de drogas, principalmente o LSD, que resultaram inclusive numa tentativa de suicídio. A loucura dos artistas é um tema que vem me atraindo. Tem, inclusive, um lugar importante no enredo do meu livro Os óculos de Paula, bem como em alguns dos meus contos. Tive, vale ressaltar, de assumir um papel de maluco para escrever e publicar essas obras, assim como tenho que ser louco para insistir nessa coisa de criar histórias.
Talvez a música de maior sucesso de “Os Mutantes” seja a “Balada de um louco”. Os versos “Mas louco é quem me diz/E não é feliz” e “Eu juro que é melhor/Não ser o normal” estão no nosso imaginário cultural.  Ser louco é ser diferente, não atender aos padrões rígidos da sociedade que nos deixam infelizes. Ser louco é ser um indivíduo e não fazer parte da massa, de uma coletividade que pensa certinho, anda na linha. Escrever livros é sinal de quem não é normal. Ler também.
Para o artista, essa dose de loucura, mesmo que metafórica, é essencial. O problema está quando se extrapola, quando os limites não têm um fim. O artista precisa deixar seu lado lunático de lado para trabalhar racionalmente, caso contrário a obra falha, suas criações se perdem e a genial loucura acaba. Foi o que aconteceu com o Arnaldo Baptista e acontece com outros tantos.
Sou leigo no assunto, mas dá para dizer que muitos nascem com distúrbios mentais, que afloram com o tempo, enquanto outros acabam adquirindo essa condição devido a substâncias químicas ou naturais. Muitos ficam loucos apenas sob o efeito dessas substâncias (“cê ta pensando que sou loki, bicho”, diz os versos de uma música solo do Arnaldo Baptista, cujo álbum foi elaborado quando o compositor dizia estar construindo um disco voador), inclusive precisam delas para criar. Outros, no entanto, necessitam de uma mente limpa, que é meu caso (salvo se o café faça o papel de sujá-la). Para mim, a maluquice é metafórica. Tenho que ser um louco para escrever, tenho que ser diferente, necessito ser outros “eus” para contar uma história, devo “pensar que Deus sou eu”.     

Na pilha de livros que aguardam minhas leituras está Meshugá – um romance sobre a loucura, de Jacques Fux, que merecerá uma resenha depois. Voltarei, portanto, ao assunto.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …