Quem resiste à boa literatura?


Resisti um pouco a começar a ler A resistência (Companhia das Letras, 144 páginas), de Julián Fuks, lançado em 2015, porque alguém dissera que era um romance panfletário, defendendo uma esquerda caduca dos anos 70 na América Latina. Creio que até as entrevistas do autor me fizeram ter essa percepção equivocada. Literatura, entretanto, não deve ser panfleto, nem de esquerda e nem de direita, deve ficar em cima do muro, no bom sentido. O romance de Fuks, por seu turno, sobe em cima do muro pelo lado da esquerda e observa os lados se digladiando. A política, porém, é apenas um elemento do enredo.
A resistência do título não é à ditadura apenas, mas à expressão de sentimentos. O narrador, Sebastián, parece sempre resistir a demonstrar o que sente pela família, principalmente em relação ao irmão, que é adotado. Aliás, era sobre o tema da adoção que o narrador queria escrever, mas até a isso ele resiste: “Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma questão premente, ignorada por muitos, negligenciada até em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal?”
Há em todo momento a resistência de Sebastián a escrever. Ao mesmo tempo, no entanto, há a necessidade de fazê-lo, pois escrever é uma resistência e uma forma de inconformismo, sem precisar de armas como seu pai que, junto com a mãe e o irmão adotivo ainda pequeno, se exila no Brasil devido à ditadura militar na Argentina. Aqui nasce sua irmã e depois ele, que conta a história voltando ao país de origem da família, numa tentativa de entender – mas também resistindo a entender –, a sombra do passado que os ronda e deixou cicatrizes: “Toda cicatriz é signo?, eu me pergunto sem querer. Toda cicatriz grita, ou é apenas memória de um grito, um grito calado no tempo? Tantas vezes a vi, tão fácil a reconheço, mas não sei dizer o que grita, ou o que cala, aquela cicatriz.”
A resistência mais emblemática é a do irmão em relação à família, quando se percebe distante dela e critica, em dado momento, os interesses pessoais de cada um: “Lembro que, enquanto ele falava, enquanto enumerava uma infinidade de pequenas mágoas, de incômodos que o visitavam dia a dia, enquanto recuperava com crescente rancor os muitos erros que havíamos cometido, as muitas distrações repreensíveis, meu pai sempre tomado pelo trabalho, minha mãe consumida por tensões dos pacientes e exigências da rotina, minha irmã afogada na residência em pediatria, eu dispersando minha atenção em qualquer livro, lembro que, enquanto meu irmão acusava absurdamente que ninguém lhe dava ouvidos, ninguém se preocupava, ninguém queria saber se ele estava bem, se do outro lado da porta, ou da casa, ou da cidade, ele subsistia, lembro que, enquanto ele falava, algo em mim recobrava o sentido. Suas palavras eram mais justas que as minhas: em suas palavras, o que era ele se fundia no nós em que eu tanto insistia, um nós tão parcial e imperfeito, um nós que o excluía. Ali, ouvindo meu irmão se exaltar aos olhos neutros de um desconhecido, lembro ter sido tomado por um velho sentimento, lembro ter sentido que estávamos em família.”

Para mim, a boa literatura necessita, sobretudo, de um trabalho exaustivo com a linguagem, sugerir mais em vez de mostrar, não duvidar da inteligência do leitor. Fuks faz isso, na medida em que A resistência não é propriamente uma narrativa, mas reflexões em que se depreende a história. O leitor completa as lacunas propositalmente deixadas. Há quem resista, no entanto, à boa literatura. E há quem seja resistente, como Julián Fuks, e continue a escrevê-la.

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