Atire a primeira pedra


O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub (Companhia das Letras, 187 páginas), é um romance atualíssimo e necessário, uma vez que aborda diversos temas polêmicos. A maneira, porém, como esses temas se propagam nas redes sociais e a destruição de reputações provocadas pelo julgamento virtual se tornam a tônica do enredo.
José Victor, o narrador, é um publicitário de sucesso. Separado de Tereza, a Teca, envolve-se com uma colega vinte anos mais nova, a Dani. Seu melhor amigo é Walter, também publicitário e homossexual assumido. Os amigos trocam e-mails e mensagens no WhatsApp com piadas bobas, irônicas, típicas dos adultos meio infantis, como o tio do “é pavê ou é pra comer”, também chegando ao escatológico, tudo relacionado à separação, ao relacionamento sexual com seus parceiros ou parceiras e também sobre a AIDS, tendo em vista que Walter é soropositivo. “Ter um corpo de quarenta e três anos não impede que se pense como alguém de quinze” é a frase que abre o romance. Lidas por outras pessoas, no entanto, esses chistes podem ser interpretados de uma forma literal, sendo passível de interpretações errôneas. É o que acontece quando Teca, num domingo, descobre a senha do e-mail do ex-marido e, juntando o que achou mais escandaloso, espalha a porcaria no ventilador da internet. Nos dias seguintes, até a quinta-feira, os prints atingem uma proporção assustadora, chegando à mesa dos chefes da agência publicitária.
A fala do narrador se assemelha ao réu em um tribunal. “Bem-vindos ao tribunal. A audiência pode tomar seus assentos neste dia bonito de 2016.” É como se vê frente aos julgamentos que ele e Walter vêm sofrendo, mas principalmente com relação à Dani, a quem não queria ferir. No seu “depoimento”, relata a escalada da AIDS a partir da lembrança de uma reportagem do Fantástico nos anos 80 e o preconceito contra os homossexuais, representados pelo seu amigo. E sente-se, a todo o momento, culpado pelas brincadeiras inconsequentes, em que pese achar errado ter sua intimidade exposta para todo mundo.
Em outros capítulos, há vários trechos de postagens e comentários na principal rede social, o Facebook. Laub reproduz com precisão a linguagem utilizada. Os “julgamentos”, diga-se, não são exclusivos de ideologias de direita ou de esquerda, como se percebe pelo jargão de cada grupo:
“Antigamente as pessoas estavam preocupadas com valores, principalmente os da comunidade sem nem falar na educação das crianças […]. Não tinha violência e essa ladroagem dos políticos. Só tem deputado ladrão […]. Antigamente os mais velhos eram “respeitados” nas ruas. Eu não tenho preconceito, mas tem uma questão de “respeito” envolvida nisso não sei por que as pessoas negam […]. Eu digo e não tenho medo hoje em dia é essa “nojeira” que se vê.”
“O mais triste num indivíduo supostamente civilizado é a incapacidade de enxergar o Outro. Não é um ser humano que está ali, mas um Objeto […]. Este pode ser o nervo de certas relações, e não estou problematizando apenas os papéis culturais de Gênero, embora estes me pareçam fundamentais aqui, não só na esfera pública das relações mercantis e da Grande Política. Estou problematizando, de forma análoga, o Teatro Social entre quatro paredes, no qual este indivíduo supostamente civilizado, posto que bem-sucedido no trabalho e demais índices de sucesso em nossa coletividade, revela-se, ao contrário, um porta-voz da Barbárie […].”

Tornar públicas conversas privadas pode ser útil no que se refere aos políticos e suas falcatruas. Quando envolve pessoas comuns, entretanto, é uma invasão de privacidade que acaba com carreiras, com casamentos, com amizades. Quanto aos julgadores, vale lembrar que podem ser depois os julgados, assim como a plateia não está longe de sentar no banco dos réus. Ninguém está livre da intolerância das redes sociais. Por outro lado, a internet não é a responsável por isso. Fofocas venenosas sempre existiram. A rede só fez a peçonha chegar mais longe. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Uma resenha que não aconteceu