Avançar para o conteúdo principal

Notas de leitura sobre Pájaros en la boca, de Samanta Schweblin


Saí impressionado da leitura deste livro de contos da escritora argentina, uma das grandes revelações de um país já cheio de gênios contistas. As narrativas têm como norma causar estranhamento no leitor. O primeiro conto, “Irman”, não foge disso. Num bar de beira de estrada, duas pessoas são recebidas por um anão que não pode atendê-los a contento, pois a mulher que lhe alcançava os produtos necessários para a elaboração do cardápio está estirada na cozinha, provavelmente morta, e eles tentam de várias formas terem seus pedidos atendidos.

Em “Mujeres desesperadas”, noivas são abandonadas pelos maridos em uma banheiro de beira de estrada. “En la estepa”, um casal sente inveja porque seus vizinhos conseguiram adotar um ser, cuja misteriosa origem e fisionomia não nos é revelada. No conto seguinte um personagem perde velocidade e em outro há um buraco interminável sendo cavado.

Em outro conto um pintor expõe quadros em que cabeças são golpeadas no asfalto. Em “Matar un perro”, a prova para um criminoso ser admitido em uma organização é matar cachorros a pauladas. São dois contos violentíssimos.

O conto que dá título à coletânea lembra “Carta a uma senhorita em Paris”, só que às avessas. Se no conto de Cortázar a personagem vomita coelhos, a personagem de Samanta Schweblin engole pássaros. Mas o melhor conto é “Hacia la alegre civilización”, em que um homem não consegue trocar uma passagem de trem e se vê preso na estação. Não conto mais para não estragar as surpresas (se alguém estiver me lendo, por acaso, pois este texto era para ser apenas uma nota de leitura) e o estranhamento do enredo.


Há uma edição brasileira do livro que, infelizmente, não teve a repercussão que merecia por aqui. Seu romance Distância de resgaste, no entanto, está tendo um tratamento diferente. Em outros países, Samanta Schweblin vem atingindo a aceitação de crítica e público. Um nome para se acompanhar.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …

"Cacos e outros pedaços" no Caderno de Sábado do Correio do Povo

O lançamento do meu livro na semana passada teve divulgação no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre.