O escritor e seu pai
Relutei um pouco em reler O
inventor da solidão, de Paul Auster, já que sabia que um de seus temas é a
relação paterna e que a narrativa se iniciava com a morte do pai do autor. Meu
pai morreu há quase cinco anos, num acidente, e, como Auster, também tive que
“entrar na mente do meu pai”, no meu caso revirar sua marcenaria, seu canto de
trabalho, enquanto o escritor teve que mexer na casa paterna. Nossos pais
morreram com idades próximas, 66 e 67, e já não viviam com suas primeiras
esposas. O livro, além de tudo isso, nasce no ano em que nasci, 1979. Obras do
acaso que é, diga-se, outro tema da obra.
A primeira parte é um ajuste de contas
do escritor ainda em formação com o pai que recém-faleceu. Um pai que inventou
sua solidão é “inventariado” pelo filho que inventou também a sua. Algo não
resolvido entre os dois ganha uma tentativa de solução através da escrita,
porém sem sucesso: “Houve uma ferida e agora me dou conta de que é muito
profunda. E o ato de escrever, em lugar de cicatrizá-la como eu acreditava,
manteve esta ferida aberta”.
Na segunda parte, o ato de escrita é a
sua solidão. “Passou a maior parte da sua vida de adulto inclinado sobre um
pequeno retângulo de madeira, concentrado em retângulo ainda mais pequeno de
papel branco. Passou a maior parte de sua vida de adulto sentando-se, pondo-se
de pé e dando passeios de um lado para o outro. Esses são os limites do mundo
conhecido”. O livro é o produto dessa solidão: “Cada livro é uma imagem de
solidão. É um objeto tangível que se pode levantar, apoiar, abrir e fechar, e
suas palavra representam muitos meses, quando não muitos anos da solidão de um
homem, de modo que com cada livro que se lê pode se dizer a si mesmo que está
enfrentando a uma partícula dessa solidão. Um homem se sente sozinho em um
quarto e escreve. O livro pode falar de solidão ou companhia, mas sempre é
necessariamente um produto da solidão”.
Estive ainda mais uma vez na marcenaria
do meu pai antes de ser demolida. Como ficou abandonada e não sabíamos o que
fazer com ela, acabou sendo invadida e esvaziada por ladrões. Levaram quase
tudo que podiam. Em meio a algumas caixas atiradas pelo chão, encontrei uma
carteirinha de um clube com sua foto, da época em que tinha 35 anos, quando
trabalhava na cidade de Venâncio Aires, onde, por obras do acaso mais uma vez,
também fui trabalhar anos depois. O olhar do pai mais jovem se encontra com o
do filho, e o olhar diz “eu falhei na vida, mas também fiz coisas boas. Falhe e
faça coisas boas também, meu filho”.
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