Leon Eliachar


Quando jovem, recém descobrindo os grandes cronistas da nossa literatura, me deparei com a obra de Leon Eliachar. “Quem?” pergunta a Rovilda. Pois é, não sei por que hoje poucos conhecem os textos desse escritor, o que prova que nem sempre o tempo é senhor da razão.
Pois houve uma época que eu queria ser um escritor como ele, escrevendo crônicas cheias de humor e sarcasmo. Ele era do estilo de um Millôr, de um Stanislaw Ponte Preta. Para a Rovilda e para quem mais nunca ouviu falar no autor, o próprio se apresenta:

SEM MODÉSTIA À PARTE

POR ALTO, BIOGRAFIA

Nasci no Cairo, fui criado no Rio, sou, portanto, "cairoca". Tenho cabelos castanhos, cada vez menos castanhos e menos cabelos. Um metro e 71 de altura, 64 de peso, 84 de tórax (respirando, 91), 70 de cintura e 6,5 de barriga. Em 1492, Colombo descobriu a América; em 1922, a América me descobriu. Sou brasileiro desde que cheguei (aos dez meses de idade), mas oficialmente, há uns sete anos: passei 35 anos tratando da naturalização. Minha carreira de criança começou quando quebrei a cabeça, aos dois anos de idade; minha carreira de adulto, quando comecei a fazer humorismo (passei a quebrar a cabeça diariamente). Tive vários empregos: ajudante de balcão, ajudante de escritório, ajudante de diretor de cinema, ajudante de diretor de revista, ajudante de diretor de jornal. Um dia resolvi ajudar a mim mesmo sem a humilhação de ingressar na política: comecei a fazer gracinhas — fora da Câmara. Nunca me dei melhor. Meu maior sonho é ter uma casa de campo com piscina, um iate, um apartamento dúplex, um corpo de secretárias, um helicóptero, uma boa conta no banco, uma praia particular e um short. Por enquanto já tenho o short. Sou a favor do divórcio, a favor do desquite e a favor do casamento. Sem ser a favor deste último não poderia ser dos primeiros. Sou contra o jogo, o roubo, a corrupção e o golpe; se eu fosse candidato, isso não deixaria de ser um grande golpe. O que mais adoro: escrever cartas. O que mais detesto: pô-las no Correio. Minha cor preferida é a morena, algumas vezes a loura. Meu prato predileto é o prato fundo. O que mais aprecio nos homens: suas mulheres — e nas mulheres, as próprias. Acho a pena de morte uma pena. Não sou superticioso, mas por via das dúvidas evito o "s" depois do "r" nessa palavra. Se não fosse o que sou, gostaria de ser humorista. Trabalho vinte horas por dia, mas, felizmente, só uma vez por semana; nos outros dias, passo o tempo recusando propostas — inclusive de casamento. Acho que a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse — isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse. Mas isso não impede que eu seja, algum dia, um homem ideal.







Do livro: O homem ao quadrado, de 1960.

Comentários

Leon Eliachar! Putz, que pérola!

Abraço.