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Arranhões

Eis mais um conto que escrevi há alguns anos e que compartilho com meus 7 leitores. Estejam à vontade para críticas, tanto positivas como negativas.

ARRANHÕES

O calçado apertado a deixa irritada. Resolve tirá-lo. Não adianta mesmo ficar com os sapatos, pois não vai poder sair para comprar a comida do seu gatinho.

Vai à sacada se divertir com o balé dos guarda-chuvas na rua. Ela está seca e protegida e isso a faz se sentir superior. Ri quando um carro passa sobre uma poça d’água molhando as pessoas na parada de ônibus. Mais adiante, uma mulher pisa em uma laje solta da calçada e também fica encharcada. Acha tudo engraçado, esquecendo-se que poderia ser ela mesma nessa situação.

“Guardei até onde eu pude guardar

o cigarro deixado em meu quarto

é a marca que fumas

confesse a verdade não deves negar.”

Sim, um cigarro cairia bem agora, porém os conselhos do médico estão ainda nítidos na sua memória.

“Os meus cabelos brancos me obrigam

a perdoar uma criança.”

Até hoje o espera inutilmente. Se tivesse perdoado o que ele fez, um simples arranhão na vida dos dois, não teria ficado sozinha todos esse anos. Parece sentir a presença dele na sala. “Não se cansa de ouvir o Nélson? Coloca uma do Cartola”. Vai ao toca-discos sem olhar para a poltrona. Atende o pedido do marido, coisa que nunca fez. Sabe, no entanto, que é tarde para perder o orgulho.

“Vai reduzir, as ilusões a pó-a pó-a pó-a pó...”

Ignora o disco arranhado. Ignora o gato arranhando suas pernas. Ignora o sangue que escorre para fora do apartamento e mancha o sapato dele, que arranha a porta, chorando, implorando para entrar.


Comentários

Mirella disse…
Relendo.³ Intrigante e de leitura agradável. Aliás... 7 leitores! SETE! SETE LEITORES! SETE!

E parabéns pelo aniversário, psor! Um ano a menos - ou a mais - de vida. Felicidades, muitas filosofices. ;)
Cassionei Petry disse…
O famoso 7. Por isso acho que vou morrer ou com 77 anos ou daqui a 77. Como estou fazendo 31...

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