sábado, outubro 30, 2010

Voto no PMP

Houve um tempo em que me interessava por política partidária. Fui simpatizante do PT e até comprei uma estrelinha do partido, a qual usava no peito, com certo orgulho. Era uma época em que lia muito literatura dos anos 70, tanto brasileira como latino-americana e, claro, fui influenciado pelo pensamento dos escritores, a maioria de esquerda. Participava de uma rádio comunitária, crivada de militantes petistas e participei do movimento Hip Hop, mais do lado político do que no lado cultural, escrevendo raps de protesto.

O Lula na presidência foi para mim um sonho realizado, já imaginava a utopia deixando se ser utopia. Chorei quando ele discursou depois da vitória, mas prometi para mim mesmo que se não fosse um bom presidente não votaria mais nele.

O que até hoje está nítida na minha lembrança foi o que ele disse quando lançou o Fome Zero: “não dormirei tranquilamente enquanto houver criança com fome nesse país”. Passaram-se os quatro primeiros anos do seu governo e o que vi foi uma repetição, um pouco melhorada sem dúvida, do governo neoliberal do FHC e, além disso, muitas crianças no Brasil continuaram e continuam com fome. Mantendo minha coerência, não votei no Lula em 2006, muito menos no PSDB. Desiludido, tomei uma atitude que pensei que jamais tomaria: votei em branco.

Nesse tempo todo, deixei de acreditar em partidos e também no socialismo, quando percebi que pensar apenas no coletivo destrói nossa individualidade. O movimento Hip Hop demonstrou ser na prática um lugar de hipocrisia, com letras de Rap contra as drogas escritas por um MC fumando maconha. Passei então a ter certa distância de coisas coletivas, apesar de não saber dizer “não” quando me convidam para participar, por exemplo, da Associação das Entidades Carnavalescas da minha cidade, como estou participando agora.

Hoje, penso por mim. Não me importo mais com que os outros vão pensar. Por isso no primeiro turno dessa eleição meus votos também foram em branco, com exceção (sem trocadilho, por favor) do Paulo Paim, um dos poucos políticos que trabalham para valer em prol dos que necessitam: negros, aposentados, etc. Posso ser chamado de ignorante por deixar que outros decidam por mim, mas também não quero ser conivente com o sistema político que está aí, em que as ideologias são deixadas de lado para se buscar o poder.

Chega-se ao fim de mais uma campanha eleitoral de baixo nível, com acusações de ambos os lados e falta de propostas concretas. O que se vê é um discurso mais uma vez para agradar uma maioria, sejam os cretoides ou os ecochatos. Prefiro ficar no “bloco do eu sozinho”, sendo “um exército de um homem só”, do que participar do rebanho do “admirável gado novo”. Por isso, no segundo turno, devido principalmente ao proselitismo religioso começado pela campanha tucana, meu voto será da Dilma, apesar de não concordar com o governo petista, e também não quero ver a volta do PSDB ao poder. Ou seja, lamentavelmente voto no Partido do “Menos Pior”.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Minha resenha no Traçando Livros de hoje


Com direito à chamada na capa.

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Talvez Freud explique

A psicanálise e seu criador, Sigmund Freud, estão sendo duramente contestados - e com certa razão - num livro polêmico do filósofo francês Michel Onfray (O crepúsculo de um ídolo – a fabulação freudiana). Para Onfray, a psicanálise é inútil para curar pacientes e Freud era um charlatão. Lógico que a resposta não demorou para aparecer, tendo do outro lado do ringue nomes como o de Elisabeth Roudinesco. Polêmicas à parte, a psicanálise - tanto a freudiana, como a junguiana, a lacaniana e outras “anas” - tem um papel importante para a análise de algumas obras literárias.
Justamente no meio dessa discussão toda “tracei” uma antologia de contos de literatura fantástica, organizada pelo escritor Braulio Tavares, intitulada Freud e o estranho: contos fantásticos do inconsciente (Casa da Palavra, 352 páginas). Na apresentação, Braulio escreve que um dos pontos importantes da psicanálise é a ideia de que a consciência é só uma parte dos nossos processos mentais. O resto está no nosso inconsciente e só vem à tona a partir dos sonhos, de atos falhos ou ainda a partir do Fantástico, “considerado aqui como qualquer modalidade não-realista de narrativa (incluindo a fantasia, os contos de fadas, o sobrenatural, a ficção científica, os relatos alucinatórios e absurdistas e assim por adiante)”, segundo as palavras do organizador. Depois é analisado o ensaio “O estranho”, de Freud, em que o médico de Viena estuda tudo o que está além do nosso cotidiano, algo que foge a uma determinada realidade, por isso reconhecido muitas vezes como algo sobrenatural. São momentos aparentemente inexplicáveis, mas que não passam de projeções do nosso cérebro - órgão do nosso corpo mais misterioso do que um hipotético “além” – resultado de algo ocultado por distúrbios emocionais e que se revelam em determinadas situações.
Os contos selecionados têm algum elemento que simboliza essas projeções ou produz a sensação do estranho. No conto “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman, que abre a antologia, a protagonista começa a ver movimentos estranhos no papel de parede do seu quarto onde descansa depois de um período de estresse emocional. Poderíamos colocar isso como um caso de pareidolia, um fenômeno que quase todos nós presenciamos, quando vemos imagens em nuvens, por exemplo – quando criança eu via rostos no forro da minha casa. Mas também pode estar relacionado a um sentimento de opressão feminina projetado na figura que acaba se arrastando para fora da parede.
O conto que se destaca na antologia é “O homem da areia”, de E. T. A. Hoffmann, um clássico do gênero fantástico. Além de retomar a figura do “Senhor dos Sonhos”, aborda também a figura do autômato e de um dos aspectos do Estranho: a distinção entre seres vivos e seres inanimados (no caso, uma boneca que se torna um objeto de adoração à distância do personagem), que numa leitura atual pode estar relacionado à projeção do medo que o ser humano tem de ser dominado pelas máquinas.
Uma mesa de madeira que se materializa, uma mão que toma vida (num conto que inspirou um filme de Oliver Stone), a busca pelo mestre através da magia, uma caveira que grita, um gato vingativo (no conto de Bram Stoker, autor de Drácula), casas assombradas, fantasmas e profecias que se realizam (na história escrita por Arthur Schnitzler, que foi amigo de Freud e um dos primeiros a usar a psicanálise como instrumento literário). Esses são os elementos estranhos das outras histórias da coletânea. E como se não bastasse a excelente apresentação, Braulio Tavares ainda fecha o volume analisando conto por conto, enriquecendo o que interpretamos na primeira leitura.
Acredito que depois de traçar esse livro o leitor passará a ver as coisas a partir de um olhar diferente, pois o mundo ao seu redor não será mais o mesmo, apesar de continuar sendo estranho. Mas, é bom lembrar, nem tudo Freud explica.
Cassionei Niches Petry é professor. Além de escrever para este espaço [coluna Traçando livros no caderno Mix da Gazeta do Sul] e no blogwww.cassionei.blogspot.com, escreve contos que devem um pouco a Freud. Mas lembra, para quem for ler os contos no blog ou em um futuro livro, que os analisados devem ser os personagens, não o escritor.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Talvez Freud explique

A psicanálise e seu criador, Sigmund Freud, estão sendo duramente contestados - e com certa razão - num livro polêmico do filósofo francês Michel Onfray (O crepúsculo de um ídolo – a fabulação freudiana). Para Onfray, a psicanálise é inútil para curar pacientes e Freud era um charlatão. Lógico que a resposta não demorou para aparecer, tendo do outro lado do ringue nomes como o de Elisabeth Roudinesco. Polêmicas à parte, a psicanálise - tanto a freudiana, como a junguiana, a lacaniana e outras “anas” - tem um papel importante para a análise de algumas obras literárias.

Justamente no meio dessa discussão toda “tracei” uma antologia de contos de literatura fantástica, organizada pelo escritor Braulio Tavares, intitulada Freud e o estranho: contos fantásticos do inconsciente (Casa da Palavra, 352 páginas). Na apresentação, Braulio escreve que um dos pontos importantes da psicanálise é a ideia de que a consciência é só uma parte dos nossos processos mentais. O resto está no nosso inconsciente e só vem à tona a partir dos sonhos, de atos falhos ou ainda a partir do Fantástico, “considerado aqui como qualquer modalidade não-realista de narrativa (incluindo a fantasia, os contos de fadas, o sobrenatural, a ficção científica, os relatos alucinatórios e absurdistas e assim por adiante)”, segundo as palavras do organizador. Depois é analisado o ensaio “O estranho”, de Freud, em que o médico de Viena estuda tudo o que está além do nosso cotidiano, algo que foge a uma determinada realidade, por isso reconhecido muitas vezes como algo sobrenatural. São momentos aparentemente inexplicáveis, mas que não passam de projeções do nosso cérebro - órgão do nosso corpo mais misterioso do que um hipotético “além” – resultado de algo ocultado por distúrbios emocionais e que se revelam em determinadas situações.

Os contos selecionados têm algum elemento que simboliza essas projeções ou produz a sensação do estranho. No conto “O papel de parede amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman, que abre a antologia, a protagonista começa a ver movimentos estranhos no papel de parede do seu quarto onde descansa depois de um período de estresse emocional. Poderíamos colocar isso como um caso de pareidolia, um fenômeno que quase todos nós presenciamos, quando vemos imagens em nuvens, por exemplo – quando criança eu via rostos no forro da minha casa. Mas também pode estar relacionado a um sentimento de opressão feminina projetado na figura que acaba se arrastando para fora da parede.

O conto que se destaca na antologia é “O homem da areia”, de E. T. A. Hoffmann, um clássico do gênero fantástico. Além de retomar a figura do “Senhor dos Sonhos”, aborda também a figura do autômato e de um dos aspectos do Estranho: a distinção entre seres vivos e seres inanimados (no caso, uma boneca que se torna um objeto de adoração à distância do personagem), que numa leitura atual pode estar relacionado à projeção do medo que o ser humano tem de ser dominado pelas máquinas.

Uma mesa de madeira que se materializa, uma mão que toma vida (num conto que inspirou um filme de Oliver Stone), a busca pelo mestre através da magia, uma caveira que grita, um gato vingativo (no conto de Bram Stoker, autor de Drácula), casas assombradas, fantasmas e profecias que se realizam (na história escrita por Arthur Schnitzler, que foi amigo de Freud e um dos primeiros a usar a psicanálise como instrumento literário). Esses são os elementos estranhos das outras histórias da coletânea. E como se não bastasse a excelente apresentação, Braulio Tavares ainda fecha o volume analisando conto por conto, enriquecendo o que interpretamos na primeira leitura.

Acredito que depois de traçar esse livro o leitor passará a ver as coisas a partir de um olhar diferente, pois o mundo ao seu redor não será mais o mesmo, apesar de continuar sendo estranho. Mas, é bom lembrar, nem tudo Freud explica.

Cassionei Niches Petry é professor. Além de escrever para este espaço [coluna Traçando livros no caderno Mix da Gazeta do Sul] e no blog www.cassionei.blogspot.com, escreve contos que devem um pouco a Freud. Mas lembra, para quem for ler os contos no blog ou em um futuro livro, que os analisados devem ser os personagens, não o escritor.