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Acreditar na educação


Artigo meu publicado na Gazeta do Sul de hoje:
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Texto publicado também na revista eletrônica Literacia: aqui.


Acreditar na educação

À professora Leonir

Fernando Savater, filósofo espanhol, inventou em um dos seus artigos a sigla I.S.P. para sintetizar a expressão “idiotas suficientes preparados”. Idiota, ele frisa, “numa acepção mais próxima a sua etimologia grega: pessoa carente de interesse cívico e de capacidade para desenvolver as atribuições que correspondem a um cidadão.” São aqueles indivíduos que não têm argumentos para defender suas demandas sociais, não sabem ler textos ou ouvir discursos de forma a discernir o que são ideias fundamentadas ou simples demagogia (como percebemos na atual eleição), tampouco sabem o que são valores contra os quais se deve rebelar (temos hoje falsos rebeldes entre os jovens, que se revoltam contra os professores por motivos equivocados).

Vou um pouco mais além da leitura política feita pelo autor. Para mim, os I.S.P. seriam alunos (em que se incluem os professores recém-formados) que aprendem o mínimo necessário para atingir a média estabelecida pela escola, mesmo que para isso se utilizem de subterfúgios como a cola ou a simples decoreba para esquecer depois. Não aproveitam quando o professor traz atividades diferentes para a sala de aula, apesar do discurso de não gostarem da escola justamente pela falta de novidades. Simplesmente são, numa falsa rebeldia, contra tudo que o professor propõe. Grande parte dos nossos jovens prefere ficar na mediocridade, no sentido literal do termo, pois para eles o topo a ser alcançado é a média.

Claro que é uma generalização, nem todos procuram ser medíocres. Aí entram os poucos alunos que não nos deixam desistir da profissão de ensinar. São os que chamam o professor para fazer uma pergunta sobre a aula, não apenas para pedir para ir ao banheiro; são aqueles que se espantam com uma descoberta no laboratório de ciências; são os que leem livros não porque está valendo nota, mas porque sabem que vão aprender muito mais com uma leitura fora da sala de aula, e ainda por cima comentam suas impressões com o professor; são aqueles cujos olhos brilham quando aprendem coisas novas; são os que não querem só uma nota para passar de ano, mas desejam aprender; são aqueles que prestam atenção no professor, anotam o que foi explicado na aula e sabem a hora certa que se pode conversar sem atrapalhar o andamento das lições; são os que dizem “como foi boa a aula hoje”; são aqueles que dizem, no último dia do ano letivo, “jamais vou esquecer o que o senhor me ensinou, professor”.

Nesses momentos, o professor abre um sorriso de satisfação e sabe que, de alguma forma, foi e é uma figura importante para a vida dos alunos. Decide seguir a máxima de Michel de Montaigne, para quem “a criança não é uma garrafa que devemos encher, mas um fogo que se deve acender”, e continua - fazendo jus ao nome pelo qual é chamado - a professar a crença na educação.


Comentários

Mirella disse…
AAAAH, PSOOOOOOOR, JAMAIS VOU ESQUECER O QUE O SENHOR ME ENSINOU! Bom texto.
Mirella disse…
Parabéns, psor! Só tenho a agradecer a você pelas aulas maravilhosas!
Cassionei Petry disse…
Obrigado, Mirella, principalmente por teres sido uma aluna mais que especial, uma pequena gigante.

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