Os 33 mineiros e nossa visão limitada

O resgate dos 33 mineiros chilenos me põe a refletir numa porção de coisas que passam desapercebidas pela maioria das pessoas. Talvez seja esse meu grande defeito: não tenho a mesma visão do senso comum, o que é um pecado grave num mundo em que o politicamente correto é pensar como todo mundo pensa.

Comecemos por aí: o “ver” as coisas. Lembrem que os mineiros tiveram que sair com óculos escuros e à noite, porque ficaram muito tempo sem ver a luz solar. Inevitavelmente, pensei na Alegoria da Caverna, do filósofo grego Platão. É um exercício filosófico interessante de se fazer: pense numa caverna onde vivem pessoas acorrentadas durante todas as suas vidas. Voltadas para o fundo da caverna, veem apenas sombras projetadas na parede por uma fraca luminosidade vinda de fora. Para eles, a realidade são as formas que conseguem definir por essas sombras. Um dia, um deles consegue se livrar das correntes e sai da caverna. Fica cego por um bom tempo, até que suas retinas se acostumam com a luminosidade. Quando consegue definir tudo, fica deslumbrado. Volta para dentro, para contar o que viu a seus companheiros, mas o chamam de louco e é escorraçado.

Há várias interpretações para a alegoria, mas fiquemos com uma: a luz do sol é o conhecimento e as sombras são falsas percepções da realidade. As pessoas acorrentadas são as que se conformam com as verdades que nos obrigam a acreditar desde crianças e o “louco”, por sua vez, é o filósofo ou um escritor que tenta mostrar uma nova versão dos fatos e que não devemos acreditar em tudo que nos impõem.

Esses bravos mineiros chilenos trabalhavam em determinadas condições com as quais acabavam concordando por precisarem sustentar suas famílias. O acidente mostrou não só a eles, mas a todo mundo, que não podemos ser condizentes com os que querem explorar nosso trabalho. A ideologia do senso comum diz: “em boca fechada não entra mosca”. A ideologia dos inconformados diz: “em boca fechada não entra comida”. Temos sim que abrir a boca quando algo está errado. Temos de reconhecer que somos nós os donos de nossas próprias decisões.

Por outro lado, a mobilização mundial em torno do assunto prova o gostinho que as pessoas têm por um reality show. Os que assistiram ao resgate pelas tevês do mundo todo deram uma audiência considerável às redes de televisão. No Brasil, algumas emissoras comemoraram por estar à frente do IBOPE. Você, caro leitor, que assistiu ao resgate, estava preocupado pela vida dos 33 chilenos? Se sim, tem a mesma preocupação por outras milhares de pessoas passando fome? Nesse caso, mais uma vez nossa visão é limitada. A sala de estar da nossa casa é a caverna, a fraca luminosidade da tela da TV nos permite ver apenas uma parte da realidade e nos sentimos felizes com isso. Mas olhe para fora de sua casa. Não há uma pessoa que também merece ser resgatada?

Temos que pensar nos outros, mas não pensar como os outros. Temos que ser indivíduos, mas não individualistas. Temos que nos solidarizar com os 33, mas também com outros tantos milhões. Mas essa é só minha opinião. Tenha você a sua.

***
Ouvindo:


Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Eu te amo" ou sinal do Diabo?

Sobre “Amortalha”, de Matheus Arcaro