quarta-feira, fevereiro 29, 2012

O mundo de Zuckerman


No Traçando Livrso de hoje, minha coluna no jornal Gazeta do Sul:  http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/332019-o_mundo_de_zuckerman/edicao:2012-02-29.html

Um volume para conhecer melhor quem é Nathan Zuckerman, escritor americano, nascido em Newark, Nova Jersey, autor de Carnovsky, romance que causou muita polêmica por retratar com tintas nada amigáveis uma família judia e os hábitos sexuais do jovem que empresta o nome à história. São três romances mais um epílogo que desvendam quem é o famoso e milionário escritor.
Zuckerman, na verdade, também é personagem. Seu criador é Philip Roth, escritor americano, nascido em Newark, Nova Jersey, autor de O complexo de Portnoy, romance que causou muita polêmica por retratar com tintas nada amigáveis uma família judia e os hábitos sexuais do jovem que empresta o nome à história. Os três romances e mais o um epílogo estão reunidos em Zuckerman acorrentado (Companhia das Letras, tradução de Alexandre Hubner, 552 páginas) e foram lançados originalmente entre 1979 e 1985.
O primeiro elo da corrente é O escritor fantasma, publicado antes no Brasil com o título O diário de uma ilusão. Temos aqui um jovem aspirante a escritor que vai visitar seu ídolo literário, E. I. Lonoff, buscando orientações sobre o processo de escrita. Acaba, porém, envolvido nas brigas entre Lonoff e sua mulher, provocadas principalmente pela presença de outra jovem admiradora do escritor, que vive há alguns meses na casa, cuja vida passada esconde um segredo: seria a moça realmente Anne Frank, a autora do famoso diário, tendo sobrevivido nos campos de concentração?
No segundo elo, Zuckerman libertado, cuja ação se passa anos depois do romance anterior, Nathan já é um famoso escritor. Acaba de receber um importante prêmio pela polêmica obra Carnovsky, o que lhe proporciona morar num belo apartamento e ter contato com celebridades. Encontra, por outro lado, os dissabores, como a confusão que sua família e alguns admiradores fazem entre a vida da personagem e a vida do próprio autor. O título é paradoxal, na medida em que Zuckerman está preso dentro da própria fama e das coisas que escreveu.
Lição de anatomia, o terceiro elo, traz um escritor sofrendo de uma dor terrível nas costas, fruto talvez do bloqueio criativo pelo qual está passando. Trata também das relações conflituosas entre escritor e crítico, representado aqui por Milton Appel, a quem Zuckerman acaba odiando pelas pesadas opiniões contrárias a sua obra.
O elo final é Orgia de Praga, que fecha a obra com uma visita de Nathan à terra de Kafka para obter um volume de contos supostamente escrito pelo pai de outro escritor que conheceu em Nova Iorque. Acaba se envolvendo com uma mulher ninfomaníaca (também escritora) e se sente ameaçado pela perseguição comunista.
A coletânea, por ser metanarrativa, possui interessantes reflexões sobre o ato de escrever: “Inventar pessoas. Uma atividade benigna quando você está datilografando no aconchego do seu escritório.” “O único paciente atendido pelo escritor é ele próprio.” “Isso é igual a escrever. É você sozinho com uma montanha e uma picareta. É você consigo mesmo, no maior isolamento, com uma empreitada quase irrealizável pela frente. Isso é escrever.” Prato cheio e suculento para o leitor que, assim como o jovem Nathan, também é aprendiz de escritor.
Mergulhar no mundo de Nathan Zuckerman é conhecer o lado bom e o lado ruim da vida literária, suas angústias, suas decepções, seus sucessos e fracassos, tanto na vida profissional como na pessoal. É também entender o universo da ficção de Philip Roth. Ao se completar a leitura das 552 páginas, ouve-se a voz do soldado da alfândega dirigida a Zuckerman ao sair da Tchecoslováquia, e que serve para nós, leitores: “foi uma honra entreter o senhor. Agora pode voltar para o seu mundinho”.
Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Vive no mundinho dos livros, para fugir do mundinho da vida real. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

terça-feira, fevereiro 28, 2012

domingo, fevereiro 26, 2012

Germano e as bolsas



Germano é desses moradores do interior, mais precisamente de uma cidade de imigração alemã, mais precisamente ainda do interior dessa cidade do interior. Trabalha na lavoura de fumo e depois vai vendê-lo na cidade. Investe o dinheiro por lá mesmo, em estabelecimentos que tocam bandinha à tarde toda ou ainda em um prédio de moças educadas, que sempre estão debruçadas na janela, mostrando que são mulheres de (res)peito, convidando os transeuntes para tomar alguma coisa. São muito hospitaleiras essas moças, deixando seus convidados beeeeem à vontade. É por isso que eles sempre voltam.

Às vezes, é tanto o investimento que Germano faz na cidade, que precisa inventar uma desculpa para a mulher pelo fato de chegar sem dinheiro em casa:

- Nem sabe, minha velha, mas eu caí no golpe do bilhete.

Antes ser chamado de burro do que levar uma surra.

Germano também gosta de investir seus fundos nas cadeiras de PVC do calçadão da cidade. Bem acomodado, toma cerveja, olha o movimento dos carros e de outras moças que passam balançando suas b...olsas. Aliás, ele se espanta com a variedade de bolsas na cidade. No interior, é sempre do mesmo tipo, geralmente umas que parecem sempre sem conteúdo. Na cidade, não. Até podem ter muitas bolsas feias, mas ele repara naquelas que são mais bonitas, de diferentes formatos e, principalmente as bem abundantes. Sentado no calçadão, Germano se torna um bom apreciador de bolsas. De tanto ver bolsas, Germano sente vontade de aplicar seu dinheiro na bolsa de valores. Como não há nenhuma na cidade, acaba aplicando, como já vimos, em outros investimentos a fundo perdido.

Nosso homem do interior do interior dessa cidade de imigração alemã gosta de conversar com seus companheiros de copo sobre futebol, política e, claro, mulheres. É colorado, inclusive a cor vermelha está sempre estampada no seu rosto, principalmente em dias de sol forte ou quando uma mulher o pega em flagrante olhando para sua bolsa. De política, tinha simpatia pelo PT, por causa da cor vermelha, mas desistiu do partido depois que soube que o Lula é corintiano. Passou, então, a votar no DEM, mas teve desistir depois que sua mulher disse que era o partido do demônio. “Não tá vendo as primeiras letras, seu burro”. Hoje diz que o que importa é a pessoa, não o partido, por isso só vai votar neste ano, para prefeito e vereador, naquele que sentar com ele na mesma mesa da calçada e tomar da mesma cerveja, olhando com ele o desfile de bolsas no centro da cidade.

Ou então na candidata a prefeita ou vereadora que for na sua casa entreter sua mulher, enquanto ele investe devidamente seu dinheiro.

sábado, fevereiro 25, 2012

Germano e as calcinhas

Clique na imagem para ampliar

Publiquei esta crônica em 1999, no jornal Gazeta do Sul, no antigo caderno Sábado. Pois o personagem Germano estará de volta amanhã, em uma nova crônica que publicarei aqui no blog.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Além do ateu e do ateísmo, de Carine Immig e Fábio Goulart


Foi postada na internet a íntegra do documentário Além do ateu e do ateísmo, com roteiro, produção e direção de Carine Immig e Fábio Goulart, que fizeram um excelente trabalho, um dos primeiros sobre o tema. Sou um dos entrevistados, com uma pequena, mas acredito que boa, contribuição para o debate. Do que tenho vergonha no documentário são dos erros de português que cometi. Sou péssimo para me expressar frente a uma câmera. Pretendo voltar a fazer videocasts para melhorar nesse ponto. Não me perdoem pelos erros. Não mereço.
Assistam ao documentário. Comentem, debatam, critiquem, mas com argumentos, por favor.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Emenda pior que o soneto

Hoje estou sendo ridicularizado, chamado de arrogante e de não ter boa índole por ter comentado o caso de plágio no jornal Gazeta do Sul, em que colaboro (ou colaborava) com a coluna "Traçando Livros" e eventualmente nas páginas de opinião. O errado sou eu, então. O autor me mandou dois e-mail em que me chama de uma porção de coisas e divulga seu blog, colocado no ar há menos de uma hora, dizendo esclarecer o assunto. Leiam vocês mesmos e tirem a conclusão se houve esclarecimento, lembrando que o texto foi publicado no jornal há uma semana (sem referência ao LFV) e o blog só hoje: http://www.gaz.com.br/blogs/deletra/posts/10303-peladas_e_boas_vindas.html.
Lembro que não estou falando mal do jornal, a quem devo o espaço para escrever desde os 17 anos (ou seja, há 15 anos). Mas como leitor eu não poderia tapar o sol com a peneira, depois de chegar de um descanso de uma semana e me deparar com um texto plagiado. Nem por isso vou deixar de dizer com orgulho que sou (ou era) colaborador deste veículo, o melhor da região, como insinuou o revisor do texto (que deixou passar o plágio) em uma rede social, dizendo que eu estaria sendo incoerente. Meu nome está ligado ao jornal, mesmo não sendo funcionário, e isso não tenho como negar. Mas a defesa do direito de quem escreve está acima disso. O autor também diz que estou sendo mesquinho e está vendo maldade no que eu fiz. 
Apontar um plágio é errado?

PS: O autor modificou um trecho da entrada do post, acrescentando que não havia citado LVF na versão impressa. Segundo o jornalista, o blog foi criado há mais de uma semana, mas entrou no ar só agora.

PS em 29/02: O blog foi tirado do ar.

Plágio

Infelizmente, na Gazeta do Sul do dia 16 de fevereiro, ocorreu um plágio. O colunista Jansle Appel Jr. plagiou a crônica "Futebol de rua", muito conhecida por constar na coleção Para gostar de ler, volume 7, da editora Ática. Compare os textos: do jornalista http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/329814-peladas/edicao:2012-02-16.html (se aparecer um banner, é só fechar) e do LFV:

Futebol de rua

Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim:
DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pêra. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no golo.
DAS GOLEIRAS – As goleiras podem ser feitas com, literalmente, o que estiver à mão. Tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, os livros da escola, a merendeira do seu irmão menor, e até o seu irmão menor, apesar dos seus protestos. Quando o jogo é importante, recomenda-se o uso de latas de lixo. Cheias, para agüentarem o impacto. A distância regulamentar entre uma goleira e outra dependerá de discussão prévia entre os jogadores. Às vezes esta discussão demora tanto que quando a distância fica acertada está na hora de ir jantar. Lata de lixo virada é meio golo.
DO CAMPO – O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, calçada, rua e a calçada do outro lado e – nos clássicos – o quarteirão inteiro. O mais comum é jogar-se só no meio da rua.
DA DURAÇÃO DO JOGO – Até a mãe chamar ou escurecer, o que vier primeiro. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.
DA FORMAÇÃO DOS TIMES – O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado. Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai para o golo. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.
DO JUIZ – Não tem juiz.
DAS INTERRUPÇÕES – No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada numa destas eventualidades:
a) Se a bola for para baixo de um carro estacionado e ninguém conseguir tirá-la. Mande o seu irmão menor.
b) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar não mais de 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isto não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa ou apartamento e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação. Se o apartamento ou casa for de militar reformado com cachorro, deve-se providenciar outra bola. Se a janela atravessada pela bola estiver com o vidro fechado na ocasião, os dois times devem reunir-se rapidamente para deliberar o que fazer. A alguns quarteirões de distância.
c) Quando passarem pela calçada:
1) Pessoas idosas ou com defeitos físicos.
2) Senhoras grávidas ou com crianças de colo.
3) Aquele mulherão do 701 que nunca usa sutiã.
Se o jogo estiver empate em 20 a 20 e quase no fim, esta regra pode ser ignorada e se alguém estiver no caminho do time atacante, azar. Ninguém mandou invadir o campo.
d) Quando passarem veículos pesados pela rua. De ônibus para cima. Bicicletas e Volkswagen, por exemplo, podem ser chutados junto com a bola e se entrar é golo.
DAS SUBSTITUIÇÕES – Só são permitidas substituições:
a) No caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer a lição.
b) Em caso de atropelamento.
DO INTERVALO PARA DESCANSO – Você deve estar brincando.
DA TÁTICA – Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade (que é como, na rua, com reverência, chamam a
pelada ), mas com algumas importantes variações. O goleiro só é intocável dentro da sua casa, para onde fugiu gritando por socorro. É permitido entrar na área adversária tabelando com uma Kombi. Se a bola dobrar a esquina é córner.
DAS PENALIDADES – A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar um adversário dentro do bueiro. É considerada atitude antiesportiva e punida com tiro indireto.
DA JUSTIÇA ESPORTIVA – Os casos de litígio serão resolvidos no tapa.
(In.: Para gostar de ler: volume 7. São Paulo: Ática, 1982)

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Voltando aos trabalhos

Depois de uma merecida semana em Balneário Camboriú, longe da internet e das notícias gaúchas, volto ao lar e as lides internéticas. Amanhã, volto a trabalhar, tendo reuniões e palestras.
Há muitas novidades que chegaram ao meu e-mail. Vou compartilhando aos poucos com meus leitores.
No sábado, no jornal Gazeta do Sul, saiu meu texto sobre o carnaval nas páginas de opinião. Já minha coluna Traçando Livros, que não saiu hoje devido às minhas férias, volta na próxima quarta.

http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/330194-a_essencia_do_carnaval/edicao:2012-02-18.html

terça-feira, fevereiro 14, 2012

A essência do carnaval


No Brasil, a primeira coisa que vem à mente quando se fala em carnaval são os desfiles das escolas de samba. Em algumas regiões do país, são os trios-elétricos ou o frevo. Mas seria o carnaval uma festa brasileira? Quantas pessoas não estranham quando ouvem falar do carnaval de outros países? Essa festa, no entanto, existe há muitos anos, em muitas partes do mundo e com significados diferentes.

Como todos os festejos que comemoramos durante o ano, o Natal é um exemplo, o carnaval tem origem pagã, mas a Igreja o instituiu no seu calendário como uma festa cristã. Moderada, claro. Era chamada de “carnem levare”, a despedida da carne, já que a partir da quarta-feira de cinzas deve-se, segundo os preceitos religiosos, fazer jejum e penitências, período chamado de Quaresma e que antecede a Páscoa (outra festa não cristã que foi “sequestrada” pela Igreja). Antes, porém, os festejos eram realizados para comemorar a proximidade da chegada da primavera no hemisfério norte e cultuar diferentes deuses, dependendo da cultura. Na Grécia antiga, o deus cultuado era Dionísio.

Dionísio era o deus do vinho, dos festejos e da fertilidade. Daí a relacioná-lo com o carnaval é um passo. Afinal, nessa festa as pessoas bebem muito, se divertem e, claro, se deixam levar pelos prazeres da carne, resultando, muitas vezes, em gravidez indesejada. Costuma-se dizer que, no Brasil, o mês de novembro é o que computa o maior número de nascimentos. Na mitologia romana, Dionísio é relacionado a Baco, e as festas em sua honra eram chamadas de bacanais. Preciso entrar em maiores detalhes? Quando a festa partiu para esse lado, o carnaval passou a ser condenado pelos religiosos.

Com o passar dos anos, a festa foi agregando novos significados e novas formas de comemoração. Em Veneza, por exemplo, um dos carnavais mais conhecidos no mundo, surgiu quando a nobreza começou a usar máscaras para se misturar ao povo e se divertir. O carnaval, portanto, não é uma festa genuinamente nossa e não pode ser considerada como representativa do povo brasileiro, até porque muitos preferem realizar outras atividades nesse período. É uma festa importada (assim como o Dia das Bruxas, muito criticado por ser uma festa americana) e adaptada ao nosso jeito.

A diversão seria a palavra que mais tem a ver com o carnaval. É uma festa popular e, como em toda a festa, o que se quer não é esquecer um pouco os problemas, cair na folia, ter liberdade para extravasar? Como escreveu o filósofo Nietzsche – sempre contrário à moral religiosa que sufoca nossos instintos –, devemos deixar aflorar o lado dionisíaco que temos, pois “felicidade é sinônimo de instinto”. Então pode ser qualquer tipo de música, não só o samba, marchinha, axé ou frevo. Até o rock serve. Pois justamente os desfiles de escola de samba, da maneira como estão sendo realizados atualmente, perderam muito dessa essência que é a diversão. A disputa por títulos é a grande culpada por isso (como no futebol, em que uma taça vale mais do que um jogo bonito). As escolas, ao seguir à risca o cumprimento de quesitos para obter boas notas, engessaram suas apresentações. E carnaval com regras, sem liberdade, não é carnaval.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Poesia

Mais um encontro dos leitores do blog Leitura de Mundo, do Romar Beling, na Livraria e Cafeteria Iluminura, em Santa Cruz do Sul, ontem no final da tarde. Os poetas presentes nos proporcionaram bons momentos através da leitura de suas obras: Renato de Mattos Motta (cujo nome, com aliteração, emana poesia), Daniela Damaris Neu (cuja presença emana poesia), o Mauro Klafke (cuja experiência emana poesia) e mais as presenças de Luís Fernando Ferreira, Claudete Radünz, Márcio Scheibler e outros. O grande astro, porém, foi Emilio Fernandez de la Vega, poeta, contista, fotógrafo e pintor. Conhecer e ouvir uma figura como ele foi uma oportunidade ímpar.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Pandora e Eva no Traçando Livros de hoje


Minha coluna de hoje no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix (errinho do uso de crase corrigido aqui)

Entre caixas e maçãs



Cassionei N. Petry



A editora L&PM acaba de lançar, na coleção pocket, As melhores histórias da mitologia, em dois volumes, com mitos compilados por Carmen Seganfredo e A.S. Franchini. Numa linguagem leve e coloquial, é uma aventura deliciosa pelo mundo dos deuses e heróis da mitologia greco-romana.

Uma das histórias tem uma relação muito curiosa com outra bem conhecida pelos cristãos, provocando na traça que vos escreve um exercício de imaginação bobo, só possível em época de férias mesmo. Em “A Caixa de Pandora”, temos o mito da primeira mulher criada por Zeus para servir, vejam só, de castigo para os homens, pois Prometeu roubara o fogo do Olimpo. O deus mais poderoso do panteão grego a presenteou com uma caixa, porém, com a ordem de não abri-la. Logicamente, como toda mulher é muito curiosa, Pandora não respeitou a proibição. Como consequência, de dentro do recipiente saíram todos os males lá guardados. Ou seja, quem é a culpada pelas coisas ruins do mundo? A mulher. Mas isto, diga-se, é o mito que diz.

A outra história é conhecidíssima, pois figura em um dos livros mais lidos da humanidade, a Bíblia Sagrada (cuja melhor edição é a da Paulus), mais precisamente no Gênesis. Na história, Deus criou Adão e, para que ele não ficasse sozinho, fez, a partir da costela dele, uma mulher, a qual foi chamada de Eva. Aos dois foi ordenado pelo criador que não comessem o fruto da árvore do conhecimento, uma maçã. Pois a mulher, provocada por uma cobra falante, desobedeceu e comeu o fruto. Como se não bastasse, ofereceu a Adão, que, como todo o homem obediente à mulher, também comeu. Visto que era um alimento desconhecido para eles, Adão acabou engolindo o caroço que ficou trancado na garganta, resultando no chamado Pomo de Adão. O resultado disso tudo: o pecado entra no mundo. Mais uma vez, a mulher é considerada a culpada.

Mais curiosa ainda é a relação que se pode fazer entre a caixa e a maçã. Se lermos alguns textos de Machado de Assis, veremos que ele emprega seguidamente a palavra “boceta”. Segundo o dicionário, o termo significa uma caixinha oval, utilizada para guardar rapé. Vejamos um trecho de um conto machadiano: "Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira..." (“O Empréstimo”).

O vocábulo acabou, talvez pela analogia com o seu formato, sendo sinônimo do órgão sexual feminino no Brasil. Em Portugal ela é ainda utilizada no sentido original, tanto que o mito grego da primeira mulher lá é chamado de “Boceta de Pandora”. Inclusive é a tradução para o título do filme alemão Die Büchse der Pandora, de 1929, dirigido por Georg Wilhelm Pabst. Em inglês, Pandora’s Box. Bem, se pensarmos que ela abriu a caixa...

Quanto ao mito bíblico, não há menção no Gênesis de que o fruto fosse uma maçã. Mas porque essa fruta acabou ganhando a fama, aparecendo em várias pinturas que retratam a história? Bem, imaginemos uma maçã cortada ao meio. Ela lembra justamente o órgão sexual da mulher. E se Eva deu a maçã para Adão comer...

Para que não exista mais o mal no mundo, portanto, a solução é que as mulheres deixem as caixas fechadas e não ofereçam maçãs a nenhum homem.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Gosta de maçãs bem doces e de ambrosia, alimento dos deuses do Olimpo. Escreve o Traçando Livros quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Para tocar no meu funeral

Minha esposa já está devidamente alertada: quero ser cremado e as cinzas podem ser jogadas no fétido arroio perto de casa ou em qualquer outro lugar (o bom se fossem espalhadas entre os livros da biblioteca da Unisc). No velório, nada de cruzes, velas, muito menos padre, pastor ou outro da fauna. Flores pode, tá pessoal! E, por favor, não rezem pela minha "alma"! Se alguém fizer sinal da cruz perto do meu corpo, irei mexer as mãos!

Ainda o 33


"Le gustó que le tocara el cuarto 33. A ese hotel no había llegado la pretensión de que el cuarto 33 fuera el 303. Además, Ramón López Velarde había muerto a los 33 años y él necesitaba coincidências. Cualquier dato supersticioso que lo acercara al poeta lo haría sentirse más capacitado."
Início do romance "El testigo", de Juan Villoro.

sábado, fevereiro 04, 2012

Mesa improvisada para escrever


Enquanto não consigo ainda instalar minha biblioteca na nova casa, vou improvisando, entre e a cozinha e a sala, meu local de trabalho. Reparem que tenho a companhia de Roberto Bolaño, Paul Auster e Raimundo Carrero, além do inseparável café e do caderno de anotações. Quanto ao título do romance, não me importo de divulgá-lo de antemão, até porque já está público no meu currículo Lattes. No mais, ler, ler, ler e escrever, escrever e escrever, além de mais trabalho pela frente: as aulas que reiniciam, o concurso do magistério e um estágio docente na universidade. Não tenho o que reclamar, a não ser pelo maldito livro de contos, que parece que não vai sair da gaveta tão cedo.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Enquanto isso, num romance de Bolaño...

Iñaki Echavarne, bar Giardinetto, calle Granada del Penedés,
Barcelona, julio de 1994.
 
Durante un tiempo la Crítica acompaña a la Obra, luego la Crítica se desvanece y son los Lectores quienes la acompañan. El viaje puede ser largo o corto. Luego los Lectores mueren uno por uno y la Obra sigue sola, aunque otra Crítica y otros Lectores poco a poco vayan acompasándose a su singladura. Luego la Crítica muere otra vez y los Lectores mueren otra vez y sobre esa huella de huesos sigue la Obra su viaje hacia la soledad. Acercarse a ella, navegar a su estela es señal inequívoca de muerte segura, pero otra Crítica y otros Lectores se le acercan incansables e implacables y el tiempo y la velocidad los devoran. Finalmente la Obra viaja irremediablemente sola en la Inmensidad. Y un día la Obra muere, como mueren todas las cosas, como se extinguirá el Sol y la Tierra, el Sistema Solar y la Galaxia y la más recóndita memoria de los hombres. Todo lo que empieza como comedia acaba como tragedia.
(Los detectives salvajes, Roberto Bolaño)

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Diário de um fracasso anunciado: as angústias da criação (VI)

Notícia que não interessa a ninguém. O diário estará, temporariamente, suspenso do blog, por motivos que serão mais adiante explicitados. Posso dizer que é por uma boa causa.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Diário de um fracasso anunciado: as angústias da criação (V)


01/02/2012

Não sabemos se o que escrevemos é bom. Isso é fato. Por mais que fulano tenha em suas costas um número de leituras de outras obras suficiente para poder julgar o trabalho alheio, ele jamais poderá julgar sua própria escritura. Não pode dizer que seu trabalho é bom. Não pode dizer que seu trabalho é ruim. Tanto aquele que “se acha” o escritor do momento, quanto aquele que queima seus manuscritos (penso num Sabato, por exemplo), estão sendo desonestos consigo mesmos. É necessária a leitura de outra pessoa. Outra não, outras, pois apenas um leitor também não nos dá um parecer mais próximo da verdade. Para um leitor a obra pode ser muito boa, enquanto que para outro a obra pode ser colocada num patamar tão inferior que nem mesmo servirá para calçar estantes bambas de uma biblioteca.

Também não enxergamos erros gramaticais. Por maior que seja o número de revisões, faz-se necessário o olhar de uma pessoa mais atenta, que leia com distância o texto. Digo isso porque sou professor de língua portuguesa e, mesmo assim, os erros pulam da página quando são lidas, por exemplo, pelo orientador da dissertação ou pelo revisor do jornal para o qual escrevo regularmente. Que o digam os leitores do blog, que já devem ter se deparado com alguns erros. São poucos os deslizes, porém, existem.