Diário de um fracasso anunciado: as angústias da criação (V)


01/02/2012

Não sabemos se o que escrevemos é bom. Isso é fato. Por mais que fulano tenha em suas costas um número de leituras de outras obras suficiente para poder julgar o trabalho alheio, ele jamais poderá julgar sua própria escritura. Não pode dizer que seu trabalho é bom. Não pode dizer que seu trabalho é ruim. Tanto aquele que “se acha” o escritor do momento, quanto aquele que queima seus manuscritos (penso num Sabato, por exemplo), estão sendo desonestos consigo mesmos. É necessária a leitura de outra pessoa. Outra não, outras, pois apenas um leitor também não nos dá um parecer mais próximo da verdade. Para um leitor a obra pode ser muito boa, enquanto que para outro a obra pode ser colocada num patamar tão inferior que nem mesmo servirá para calçar estantes bambas de uma biblioteca.

Também não enxergamos erros gramaticais. Por maior que seja o número de revisões, faz-se necessário o olhar de uma pessoa mais atenta, que leia com distância o texto. Digo isso porque sou professor de língua portuguesa e, mesmo assim, os erros pulam da página quando são lidas, por exemplo, pelo orientador da dissertação ou pelo revisor do jornal para o qual escrevo regularmente. Que o digam os leitores do blog, que já devem ter se deparado com alguns erros. São poucos os deslizes, porém, existem.

Comentários

Flauzino disse…
Por exemplo: jamais escreveria "já devem ter se deparado" (penúltimo período do texto). Fica bem melhor "já depararam".
Cassionei Petry disse…
Leitor atento. Mas, porém, no entanto, todavia, entretanto, não obstante, o uso do pronome junto ao verbo deparar é mais coloquial e, por conseguinte, proposital quando se trata de um diário. É uma das picuinhas gramaticais que vão cair com o tempo, assim como o "chegar a". Para mim não fica melhor sem o pronome.
Cassionei Petry disse…
Já comentaste outras vezes aqui no blog?
charlles campos disse…
A questão gramatical é o de menos. Digo até ser irrelevante, desde, claro, o escritor domine o próprio idioma. Há um artigo excelente do Garcia Marquez, no volume 5 de suas crônicas jornalísticas, que ele revela o trabalho hercúleo que dá aos revisores de seus textos, pois escreve palavras erradas, gramática às vezes desconexas, etc. Salienta ainda a necessidade que escritores tem de ter um ghost writer para bilhetes triviais para a esposa, os filhos e os amigos, coisa que ele admitiu incapaz de escrever um bilhete de geladeira. Muitas vezes, o erro gramatical serve para manter o musicalidade que o autor pretendeu para o texto. Mesmo em um texto descompromissado como o deste post, "já devem ter se deparado" serve melhor ao tom da escrita do que "já depararam". Ademais, o papel do gramático na literatura é pura e simplesmente o de tradutor (veja o caso do Houaiss). Mesmo escritores que demonstram um atino maior à sintaxe perfeita, como Javier Marías e Saramago, hora e outra se sentem na necessidade de transgredirem o beletrismo.
Cassionei Petry disse…
Falou tudo, Charlles. O meu problema é ser professor de língua portuguesa. Parece ser proibido o erro para esse profissional. Por isso, até no Msn eu me policio, pois sempre há um otário pra apontar um erro. Às vezes, como acontece por aqui, um leitor aparece só para apontar um erro e nunca para elogiar ou acrescentar algo.
Então, acho que não importa mto ser ou não ser professor de língua portuguesa. até ajuda, mas... tive alguns professores de português que liam muito pouco, e certamente deveriam ter dificuldade na hora de escrever. Mas erros são comuns, e a pessoa mais adequada a apontá-los são os outros, neste caso. abs
Cassionei Petry disse…
Pois é, eu sou cobrado e me cobro por isso. E sei que há colegas... E com certeza a leitura de outros é necessária.

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