F...



Um domingo em que somos acordados por um desastre. Os gritos dos mortos nos despertam, ao mesmo tempo em que nos amortecem. Não temos reação, salvo permanecer na frente da TV ou no computador, atualizando informações desencontradas e compartilhando fotos de uma morbidez insuportável. 

No meu caso, me refugio nos livros, na música clássica, em um filme de Bergman ou numa história em quadrinhos dos irmãos Moon e Bá, que por sinal traz a morte como tema. Aqui, porém, sei que é ficção e não realidade, apesar de a arte buscar no real sua inspiração. Posso parecer egoísta. No entanto, não é a indiferença que me afasta de tudo isso, mas sim o excesso de quem parece não estar indiferente. A tragédia se torna espetáculo que precisa ser visto e, nos tempos das redes sociais, comentado, fotografado e compartilhado. 

Hoje quero ficar longe do Twitter e do Facebook, duas ferramentas que me auxiliam na troca de informações sobre meus interesses, principalmente a literatura. O que vejo, porém, são somente notícias relacionadas à tragédia. Palavras repetidas, fotos chocantes, artistas que se promovem e piadas como “o gaúcho não gosta de uma carne assada?”

A TV ganha audiência, os apresentadores vociferam contra a irresponsabilidade, julgam, condenam. Repórteres perguntam qual o sentimento das pessoas (só falta alguém responder “estou feliz, vou até dançar um forró”).

Os religiosos, por sua vez, se dividem em dois lados: há os que lamentam e oram pedindo a um deus que dê conforto aos familiares (ignoram que esse deus todo poderoso poderia ter evitado que isso acontecesse) e há os que acreditam que tudo foi castigo para os jovens que bebiam e dançavam numa festa pecaminosa. Que deus filho da puta esse. 

Sensação estranha para um domingo, dia que deveria ser alegre, de descanso para algumas pessoas, de leituras, do churrasco e conversa jogada fora, do futebol, do Faustão e do Fantástico (esses três F’s que nos distraem na programação da TV dominical). Hoje é um domingo em que o F continua predominando, mas é o F de fraqueza, de fracasso, de falência, de fatalidade, de ferida, de fogo, de fumaça, de finitude. Para mim, resta a fuga. Fugir é uma fraqueza, mas fingimos que somos fortes. Essa vida é foda.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Uma resenha que não aconteceu